Negro.

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Negro

O negro desce sobre a terra e a luz perde-se no
horizonte.

Um manto negro cobre tudo nas horas tardias.

No calor de uma lareira tosca de um pobre monte

Uma criança procura as estrelas através das vidraças.

Suas roupas são negras e as lágrimas correm no seu rosto.

Lá no alto as estrelas brilham como joias maravilhosas.

Uma brilha mais intensamente sempre que ele a olha,

No seu rostinho um sorriso se revela.

– Olha pai, é a mamã a mandar beijos.

Tinham-lhe dito que as pessoas não morrem,

Transformam-se em lindas estrelinhas no céu.

O seu coração brilhou por instantes soltando um desejo

– Vem ver-me todas as noites, brilha para mim…

Quero aceitar e devolver os teus beijos.

Um raio de luz surge, é o dia que se levanta.

Sob o parapeito da janela a criança adormeceu.

No seu rosto um sorriso brilha…

Tornando o coração…

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Muitos parabéns filhota

Faz hoje anos que estava, novamente e por um bom motivo, no hospital. Faltava pouco tempo para te poder ver pela primeira vez. Quando acordei tinha uma morenaça pequerrucha e linda, com uma cabeleira farta e comprida. Carinha redondinha e olhinhos muito vivos. Enfim, mais um muito desejado e perfeito filho, agora do sexo femenino. Mais um milagre gerado por nós com muito amor.

Ccom muita pena, mas também muita alegria, cresceste e agora adulta e com vida própria, continuas a ser um dos nossos grandes orgulhos.

Não sei o que o futuro nos reserva mas espero sinceramente que seja recheado de muito amor, vitórias e sobretudo que sejas muito feliz. Que no teu rosto sempre brilhe um sorriso de felicidade e que todas as lágrimas sejam de alegria.

Muitos parabéns filha, que a este aniversário se juntem muitissimos mais com felicidade e harmonia.

Com todo o amor do mundo.

Tteus pais.

“A soma dos nossos dias”

(…)

Primeiro dia de aulas. As escolas ganham vida. O som das crianças invade os corredores. Correrias e gritos voltaram. Enfim… crianças.

Na noite anterior, a maior parte de nós não dorme ou dorme muito mal. Porque será que, nós professores, nunca perdemos este irritante nervosismo sempre que se vai iniciar um novo ano letivo? O passar do tempo devia curar-nos e não o faz. Será que é alguma doença profissional incurável? Mas, enfrentada a primeira aula, o cansaço e o nervosismo parecem desaparecer, é necessário ter energia. Perante a imensa energia dos miúdos é impossível não se ser contagiado.

Caras novas, caras antigas, a cada aula um desfile de crianças enérgicas e com muito pouca vontade de se fecharem dentro de uma sala. Ansiosas por contarem as novidades das férias, mantê-los calados é uma tarefa bastante difícil, vamos ter que impor regras, caso contrário, não seremos capazes de lecionar convenientemente. Impor regras a estas crianças é uma tarefa bastante árdua, mas nós tentamos sempre, recusamo-nos a desistir mesmo sofrendo algumas derrotas pelo caminho. Acreditamos que iremos vencer esta guerra. Quando? Logo se verá.

Hoje, à entrada da escola, duas alunas penduraram-se no meu pescoço e, ternurentamente deram-me um beijo de boas vindas. Parece que afinal ainda há quem fique contente por me ver.

(…)

Fortunata Fialho

Autista

Autista.

Um rosto sem sorriso, ouvidos que se recusam a ouvir.

Silêncios que ninguém compreende.

Gestos que se repetem de forma desesperante.

Um coração preso num peito que não se abre.

Cérebro prodigioso que teima em se esconder.

Medo do toque e do mundo que o rodeia.

Incompreensão das relações humanas.

Anseia por carinho, mas não o sabe pedir… nem dar.

Olhos que fogem de outros olhos.

Corpo que foge de outros corpos.

Não suporta o toque e… esconde-se…

Num mundo escondido entre muros invisíveis.

Génio incompreendido que domina a arte, os números, a ciência ou,

Quem sabe, descobertas surpreendentes capazes de mudar o mundo.

Mente prisioneira de um tema só seu.

Não deixa que perturbem o seu mundo.

Ergue muros que lhe dão segurança.

Coração que precisa desesperadamente de amor,

Amor esse que não consegue demonstrar.

Autista, criança sensível num mundo só seu.

Criança ternura abre uma porta e deixa-me entrar,

Mostra que também sabes amar.

Fortunata Fialho

Ontem era o teu aniversário

Ontem era o teu aniversário e não te pude abraçar.

O ontem já passou e a tristeza ficou.

O tempo passa e esta dor teima em ficar.

Hoje, por diversas vezes, uma lagrima rolou.

Escondi o rosto para ninguém perceber,

Pensei ter chorado tudo ontem…

Tola, sobraram muitas lágrimas e teimam em sair.

Finjo para que ninguém perceba,

Finjo para também me confortar.

Não adianta, o tempo não cura, não sara.

Tempo ingrato que prometeste aplacar a minha dor.

Tempo de promessas vãs que não tenciona cumprir.

Tempo que teimas em não me ajudar.

Os dias passam e as recordações ficam,

Os meses sucedem-se e as memórias agigantam-se.

Tantas vezes lágrimas e sorrisos se misturam,

Lágrimas de saudades envoltas em recordações felizes.

Ontem fazias anos minha mãe e eu não te pude beijar.

Queria tanto acariciar o teu rosto e dizer obrigado,

Num grande sorriso dizer o quanto te amo,

Num abraço prender-te para sempre.

Ontem fazia anos querida mãe…

Fortunata Fialho

Velha caneta

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Velha caneta.

Noma gaveta escondida uma velha caneta está encarcerada.

Os anos passaram e o carcereiro morreu.

Na sua infância a sua tinta escreveu lindas frases de amor.

Desenhou tantas cartas plenas de promessas,

Confessou tantos desejos escondidos,

Transportou milhares de beijos desejados,

Impressos em cada folha de papel.

Ninguém sabe o que aconteceu… as cartas pararam.

Num momento de dor encarceraram a pobre caneta.

O tempo passou e a pobre esperou.

O carcereiro deixou herdeiros.

Alguém a gaveta abriu e no fundo a caneta encontrou.

Linda, de linhas clássicas, cheia de charme…

Para um bolso alguém a mudou.

No escuro da noite voltou a escrever.

Escreveu o mais lindo poema de amor.

Do seu aparo saíram palavras de saudade…

Palavras de saudade e de dor.

Recordações de um tempo de felicidade,

De um tempo de vida e amor.

No papel surgiu:

Meu querido pai, para sempre viverás em mim.

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