Inverno

Inverno

O vento assobia lá fora… bate em todas as janelas.

Placa todas as portas na vã tentativa de entrar.

Desesperado percorre todas as ruas.

Ninguém sabe se foge ou procura algo.

Eterno caminhante anuncia o inverno.

Persegue as folhas das árvores que se lhe adiantam,

Empurra grossas gotas de água projetando-as sobre as calçadas.

Nas suas rajadas voam prenúncios de frios.

Frios intensos que gelam os ossos.

Pessoas caminham apressadas,

Quentes casacos colam-se aos corpos.

Quentes cachecóis ondulam ao vento.

Exausto o vento adormece,

 Agora é brisa que enternece.

A geada, sorrateira, cobre os campos.

Um manto branco brilha sob as estrelas,

Lençol de diamantes cobrindo todos os cantos.

Um cheiro acre sente-se no ar,

Ténues neblinas contornam as casas.

Mil lareiras os lares aquecem.

Entre lágrimas de fogo e sombras incandescentes

Histórias de encantar ecoam nas salas,

Risos de crianças de olhos sonhadores

Enriquecem as noites, fruto de esperança…

Na ingenuidade da vida.

O inverno chega lenta e sorrateiramente,

Invade os dias convidando ao aconchego.

Logo, logo a primavera virá.

Pobre inverno… lentamente se irá.

Fortunata Fialho

Deixa-me ser poesia.

escreversonhar

Deixa-me ser poesia.

Deixa-me ser poesia…

Escreve-me de todas as formas.

Escreve-me com beijos e rima-me com carícias.

Transforma os meus gemidos em poemas,

Envolve meus seios em quadras,

Transforma o meu ventre em sonetos.

Destrói os meus medos em sátiras,

Chove-me em gotas de rimas.

Transforma as minhas lágrimas em poemas de amor,

Os nossos orgasmos em vulcões de odes ao divino.

Os momentos mortos em poemas de paixão,

Os dias em epopeias versejadas,

Os segundos em viagens de poemas.

A vida em enciclopédias poéticas,

A dor em poema triste,

A felicidade em declarações poéticas.

Ama-me em ondas de poesia,

Segredo-me aos ouvidos poemas divinos.

Beija-me com palavras de amor.

Envolve-me em ti, minha poesia.

Torna-te o meu eterno poema apaixonado,

O meu poema eroticamente sonhado…

Deixa-me ser para sempre a tua poesia…

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet

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Um diálogo ingénuo.

– Olá, na minha rua vive um senhor da mesma cor que tu.

– Deve ser teu amigo e cumprimentar-te quando te vê.

– Sim é muito simpático mas as pessoas costumam afastar-se dele. Olham de uma forma esquisita e, às vezes, chamam-lhe homem mau. Tu és um homem mau?

– Não, sou como o teu papá e gosto muito de crianças simpáticas como tu.

– Mas tu és preto e o meu papá é branco!

– Sim, tens razão. A minha cor é diferente mas o meu coração é da mesma cor que o do teu papá.

– Então deves ser uma pessoa mesmo muito boa. Eu tenho o melhor papá do mundo.

– As minhas filhas também gostam muito de mim, eu dou-lhes muitos miminhos e ensino-lhes a respeitarem e tratarem bem todas as pessoas. Como vez sou como o teu papá, só que mais escuro.

– As tuas filhas também são pretas? Os seus corações também são da mesma cor do meu?

-Sim são pretas e têm um coração como o teu, são simpáticas e boazinhas como tu mas, por vezes também fazem tropelias e eu tenho de ralhar um pouco.

– Ui! Quando sou mau o pai zanga-se e fico de castigo. Sabes, eu não quero ser mau mas é tão difícil ser sempre bonzinho. Tu nunca foste mau?

– Sim, todos podemos ser maus mesmo sem querermos.

– E depois ficas de castigo. Verdade?

– Sabes os meus papás já não me castigam mas, quando vejo o que fiz ou disse, fico muito triste comigo, peço desculpa e prometo tentar ser melhor.

– Sabes? Gosto muito de ti. Agora vou senão os meus papás zangam-se. Adeus.

Olhando o petiz um sorriso ilumina o seu rosto e pensa: Porque não podemos ser todos puros como esta criança?

Fortunata Fialho

(Imagem retirada da Internet)

“A Soma Dos Nossos Dias”

escreversonhar

(…)

Quem anda, todos os dias, na estrada está sujeito a muitas situações perigosas. Há alguns anos numa curva perigosa, um veículo derrapou em algo e começou a capotar na minha frente. Parecia um carrinho de brincar atirado para o chão. Quase que me atingiu. Quando se imobilizou, na barreira, corri a ver se precisava de ajuda, pensei que o pior lhe tinha acontecido. Surpresa! Um jovem saiu ileso e agradeceu a minha preocupação. O veículo é que estava uma lástima. Foi caso para dizer que os nossos anjos da guarda deviam ser mesmo bons.

Caminho infernal, o sol de frente ao nível do asfalto cegava-me quase totalmente. Os carros surgiam do nada e os limites da estrada dificilmente se percebiam.

Numa curva sofri uma impressionante descarga de adrenalina, aparecido do nada um veículo surgiu a meu lado e a sensação de perigo foi avassaladora. Parecia que me iria abalroar…

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“Abraços de Palavras” – Suicidio

Suicidio.

Pelo beiral da minha casa uma gota de chuva suicida-se.

Considera-se menos importante que o aguaceiro.

Perdeu o ritmo das suas irmãs, atrasou-se… coitada!

Convenceu-se de que nada valia e perdeu o ritmo.

No seu desânimo perdeu o interesse na vida.

Convenceu-se de que nunca chegaria ao mar…

Ao rio… à ribeira… nem sequer ao pequeno regato do quintal.

Pobre gota de chuva… tinha toda uma vida pela frente,

Bastava um pequeno esforço e teria sido regato,

Crescido e ser uma ribeira, umas léguas à frente rio.

Sem se aperceber teria sido mar, percorreria os oceanos.

Que pena… o desânimo tomou conta de si…

Não conseguiu lutar… evaporou-se… suicidou-se.

Bastava ter-se deixado cair, as suas irmãs esperavam

E ela não chegou. As outras choraram e partiram.

O mundo não terminou, o regato continuou a correr

Tornou-se ribeira, engrossou e foi rio,

Continuou a crescer e foi mar… oceano.

Pobre gotinha triste… não conseguiu pedir ajuda,

Isolou-se… chorou em silêncio… adoeceu,

E num lamentável suicídio evaporou-se…

E todas as suas irmãs choraram, gritaram, lamentaram,

E numa última e sincera súplica em uníssono desejaram:

Que mais nenhuma gota se suicide, que a tristeza nunca mais vença,

Que toda a gota chegue sempre ao riacho mais próximo

A partir daí todas chegarão ao mar.

Que voltem todas as que se evaporam,

Que gotas voltem a ser e, que do planeta todas venham cuidar.

E a gota teve nova oportunidade, nova vida, dizem alguns.

E hoje brilha no cimo de cada onda, no leito do mar.

Fortunata Fialho

“Abraços de Palavras” Um dos meus mais recentes livros. Obrigada amigo Alberto Cuddel.

escreversonhar

Prefácio

Antes de mais honra-me mormente o convite e o privilégio de prefaciar o livro “Abraço de palavras” da poetisa Fortunata Fialho, tanto mais que conheço bem as suas duas anteriores obras, onde a poeta homenageia o colorido da poética!

“A poesia devia encorajar o pensamento e apelar para a reflexão: nada melhor que o prazer do crítico quando, depois de um minuto de dissecação da composição, percebe, primeiro, que é poesia e não prosa, segundo, após um grande esforço, após um profundo exame, que é rimado e não branco. Tais belezas poéticas, serão, no entanto, visíveis só ao crítico experimentado, porque o homem de gosto poético comum é muitas vezes, quando chamado a criticar um poema, colocado numa situação indesejável.”

Ensaio sobre Poética – Professor Trochee (heterónimo de Fernando Pessoa)

Percorrer estes “Abraços de Palavras” é ser abraçado pela singeleza de uma carta que nos fala, que nos convida…

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E uma incursão na prosa “A Soma dos Nossos Dias”. (O dia a dia dos professores…)

escreversonhar

Prefácio

Escrever um prefacio antes de mais é ter o privilégio de estudar uma obra que irá conhecer a luz do dia, que irá ser lida e estudada por todos quantos o desejarem, ler este registo da autora Fortunata Fialho é redescobrir a mulher a profissional da educação além da sensibilidade poética que já conhecia.

“A soma dos nossos dias” ou Diário de um ano lectivo como eu gosto de lhe chamar, mais que um relato de vida, é um livro de questões, uma obra de exorcismo da alma da autora, uma necessidade de partilha. Mais do que meros relatos do seu dia a dia a autora Fortunata Fialho convida-nos e chega mesmo a incitar-nos a uma profunda reflexão sobre que educação damos às nossas crianças, que mundo estamos colectivamente a criar.

Uma das coisas mais interessantes que a autora nos revela neste seu relato é o paralelismo entre as…

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“Abraços de Palavras” – puzzle de palavras.

Puzzle de palavras

Peguei numa caneta caixinha de surpresas,

Agitei-a e do seu bico soltaram-se incontáveis peças.

Admirada e um pouco assustada parei.

Como elementos de um puzzle de milhares de peças,

Pareciam convidar-me e dispu-las pela mesa.

Peça a peça construi imensas palavras soltas,

A mesa ficou cheia e as peças esgotaram-se.

E agora? O entusiasmo era tanto que não consegui parar.

Juntei as palavras e construi frases,

Frases sem nexo e um pouco loucas, soltas e livres.

As palavras esgotaram-se e a mesa continuou cheia.

Ainda me aparecia brincar, não conseguia desistir.

Juntei frases que pareciam querer colar-se,

A algumas troquei as voltas e mudei-as de lugar.

Por vezes uma fugia, não se queria encaixar.

Confortei-a, acariciei-a e levei-a a passear.

Passeámos de mãos dadas e por fim encontrou o seu par.

Acabaram-se as frases. E agora?

De braços cansados e sem querer acabar li as frases.

Li o mais lindo texto que poderia imaginar.

Falava de amor e paz, de ternura e gratidão,

De vida, música, poesia, dança…

De águas puras e cristalinas, de ar livre de poluição,

De um mundo feliz, puro e perfeito,

De todos os sonhos feitos de esperança.

Cansada, adormeci e sonhei que o texto era a realidade,

Que a magia tinha acontecido e desejei nunca mais acordar

Fortunata Fialho