😢😢E partiram…

Era um dia como tantos outros e o sol brilhava, quente e inclemente, sobre o asfalto. O carro, em alta velocidade, cortava o vento. Era urgente chegar, a sua esposa esperava um outro filho e o trabalho de parto tinha começado.

Chegou a tempo de pegar na sua mão e acalmar o seu receio com a sua tranquilidade habitual. Passado algum tempo, para eles uma eternidade, um choro ecoou no quarto. Milagrosamente todas as dores pareceram ter sido menores e, sem sombra de dúvida, valido a pena.

Uma frágil e maravilhosa criança respirava pela primeira vez. Um lindo menino tremia, não sabemos se de frio ou de medo, perante um mundo gigante e desconhecido. Os seus pais irradiavam felicidade, sem palavras, abraçavam-se ao mesmo tempo que contemplavam o novo bebé.

Subitamente uma pequena menininha irrompe no quarto e procura o seu irmãozinho na tentativa, ingénua, de lhe dar carinho como se fosse uma das suas bonecas. Por sorte alguém se apercebeu, evitou o ternurento rapto e, cuidadosamente, colocou no seu colo o frágil ser. Os seus olhinhos pareciam contemplar o próprio sonho e com a sua pequena boca cobriu-o de beijos. Tinha o seu irmãozinho no colo e sentia-se como se carregasse o maior tesouro do mundo. Finalmente tinha com quem brincar.

Sob os constantes cuidados dos pais cresciam felizes e muito amados.

Quanto ao novo bebé, um pequeno príncipe, fofo, ternurento e… lindo, era o orgulho dos seus pais e o encanto da sua irmã.

O grupo familiar estava composto da forma sonhada pelos seus pais. Um casalinho perfeito enchia de felicidade o seu lar. Apesar das dificuldades com que se debatiam no dia-a-dia, estes pais lutavam para que nada lhes faltasse, principalmente amor, alimento e conforto.

Tudo girava em função destas duas pequenas crianças. Uma comia, dormia e ria das tolices infantis de sua irmã. Outra cirandava em torno no seu mano pequenino como se fosse o centro do mundo.

Os dias passavam rapidamente entre risos e choros, carinho e cumplicidade.

A vida neste lar era como um conto de fadas onde reis e rainhas, príncipes e princesas viviam num mundo perfeito onde o pouco dinheiro não importava pois tinham tudo o que alguma vez puderam desejar, uma família perfeita.

Tragicamente, o reino perfeito, ficou envolto numa tempestade tenebrosamente negra. A sombra da morte pairava no ar e ninguém se apercebia. Fria e sorrateira esperava a hora de atacar.

Passados poucos meses, enquanto dormia no colo de sua mãe, o seu pequenino corpo arrefeceu… nunca mais acordou. Entre gritos de desespero e choros de quebrar qualquer coração, a tragédia instalou-se e o mundo perfeito desabou.

A morte levou-o sem que ninguém conseguisse sequer tentar evitar o sucedido. Não houve tempo para pedir ajuda médica, quando a pobre mãe se apercebeu já nada podia ser feito. Tranquilamente como adormeceu… morreu. Sem choro, sem sofrimento, sem sequer um gemido para pedir ajuda. Um simples fechar de olhos foi o fim de tudo…

Como foi possível esta tragédia, como puderam os deuses permitir que isto acontecesse?

Nenhuma criança deveria partir, os céus já têm anjos suficientes, têm uma vida inteira pela frente para ser vivida e que nunca lhes deveria ser tirada antes de tempo.

Partiu e no seu lugar deixou uma dor imensa e uma saudade eternamente dolorosa. Os dias tornaram-se muito mais tristes e a vida, desta pobre família, muito mais pobre. Os pais desejaram partir com ele e a sua irmãzinha, aterrada sem perceber o que se passava, parecia perdida num mar de confusão. Porque choravam todos? Porque não acordava o seu irmãozinho? Porquê?

Partiu e a vida avançou, os dias sucederam-se e a pequenina ajudava a superar a dor, ao menos ainda tinham uma filha para amar e proteger. Uma filha que desejou, todos os dias, não continuar sozinha. Queria tanto o seu irmão de volta ou, em ultimo caso, um novo irmão ou irmã, não se importava. Não queria de forma alguma ser filha única.

Numa família católica acredita-se que mais tarde todos se encontrarão no céu. Talvez seja verdade, acreditar que sim ajuda muito.

A vida não pára com o surgimento da morte, não pode parar, os sobreviventes a isso obrigam.

A pequenina cresceu e, já quase adolescente, ganhou uma nova irmã. Uma nova princesa juntou-se à família e com ela uma lufada de felicidade encheu o coração de todos.

Um bebé muito desejado, que foi “estragado” com mimos, cresceu saudável e reguila.

Novamente o sol brilhava. Brilhou durante longos anos e estes pais foram brindados com netos lindos e saudáveis. O mundo voltou a estar, quase, perfeito.

Subitamente o mundo voltou a desabar, ainda muito nova a senhora foi vitima da doença do século: cancro…

Uma luta titânica e inglória foi iniciada. Uma luta que não foi capaz de vencer apesar da ajuda incondicional daqueles que a amavam. Os dias passavam e as derrotas eram maiores que as vitórias. O fingimento instalou-se, as filhas e o marido, fingiam que tudo iria correr bem, apesar de verem a inevitabilidade do fim. Ela fingia que estava melhor e que iria ainda viver muitos anos. Era um fingimento de amor. Amavam-se muito e queriam, simplesmente, aliviar o sofrimento dos outros.

Um dia tudo acabou, a vida fugiu-lhe no meio de um enorme sofrimento. Ela não merecia, aliás, ninguém merece. Toda a vida lutou pela sua família e apesar de diversas perdas, algumas mais dolorosas que outras, sempre foi um pilar… um porto seguro para todos.

A dor voltou a instalar-se, mais uma partida sem volta. Um não teve possibilidade de ajuda e a outra não houve médico e tratamento que a salvasse.

A dor antiga não partiu, foi aumentando cada vez que mais alguém partia. Quando parecia que não podia ficar maior, aumentou de uma forma incomensurável.

Como se consegue sobreviver a tanto sofrimento?

Aquela menininha, agora mulher e mãe, precisa de acreditar que ambos, mãe e filho, estão juntos e felizes a olhar pelos que ainda não partiram e à espera do reencontro, lá onde os anjos habitam e todos são felizes e saudáveis. Só assim consegue sobreviver.

Pena que a sua fé não seja tanta que lhe dê a certeza de que é mesmo isso que acontecerá. Ela queria tanto acreditar… assim a dor da perda e a saudade, talvez fossem menores. No seu coração só tem uma certeza: já não os pode abraçar.

Como aconteceu com sua mãe, a vida tem de continuar. Tem, ainda, pessoas que a amam e a quem ama a precisar da sua força e proteção. Chora muitas vezes em silêncio e limpa rapidamente as lágrimas, sempre que alguém se aproxima. O seu coração e o seu cérebro gritam em uníssono:

– Partiram e nunca mais irão voltar…

 

Fortunata Fialho

 

300 dpi front and back lombada 6mm v2 capa ei los que partem parte II

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😢 Ode à gripe.😓

Sorrateira e traiçoeira surge sem avisar.

Convidada indesejada, penetra sem convite.

Ataca de forma implacável não nos deixando defender.

Terrível violadora, possui o nosso corpo sem consentimento.

Destrói as nossas defesas, prende-nos na cama,

Aquece-nos o corpo, retira-nos as forças.

Aprisiona-nos em casa sem grades nem amarras.

Rouba-nos o alimento, desidrata-nos o corpo.

Isola-nos do mundo sem um mínimo de esforço.

Gripe minha que me venceste, neste domingo outonal,

Deste-me o calor do verão e o frio polar.

Estúpida e inoportuna, diaba idiota…

Abandona o meu corpo, devolve-me o bem-estar,

Devolve a minha liberdade, aceita o meu não.

Não quero a tua companhia, não aceito ser tua.

 

Fortunata Fialho

 

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📜 💙 Sonho.💛 📜

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Fecho os olhos e… sonho com um mundo perfeito.

Um mundo sem guerras… um mundo de amor… um mundo criança…

O sol no sorriso de todos os rostos… o som de gargalhadas puras e cristalinas.

Em cada coração a pureza e entrega da ingenuidade da infância…

Um mundo verde de esperança… vermelho de alegria… azul de paz…

Onde não existe fome, frio, tristeza, dor… Tudo é perfeito…

No meu sonho os rios são limpos e as suas águas cristalinas…

Os campos verdes, as flores de um colorido vibrante…

O ar puro… leve… saudável… totalmente respirável.

Nenhum ser vivo tem medo… não tem motivos para tal.

O respeito é mútuo… a tolerância uma constante.

Sonho… que um dia o ser humano deixa de ter cor…

Que todos são iguais… que ninguém se considera superior…

Sonho que todos sonham e não existem pesadelos…

Que todos acordam felizes, tranquilos… apaixonados…

Apaixonados pela vida……

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Um copo.😤

Um copo meio cheio repousa na mesa do café.

Uma mão trémula hesita em lhe pegar.

No rosto um sorriso doce e idiota aflora.

Os raios do sol incidem no líquido e iluminam o seu rosto.

O sol, aprisionado no copo, é seu e brilha como nunca.

Ninguém sabe mas ele é a pessoa mais feliz do mundo.

Possui o maior tesouro do mundo… vai ser pai.

A esposa telefonou e a novidade chegou… são gémeos!

Devia estar assustado… dois de uma só vez… felicidade a dobrar…

Pelo rosto rola uma lágrima e cai no líquido que estremece.

Desiste… está feliz demais para beber.

Deposita o dinheiro na mesa e sai.

Precisa de ar, rir como um idiota, dançar e talvez gritar.

Gritar ao mundo que é feliz, que o mundo lhe pertence.

Vai ser pai… vai ser pai…

E o copo? O copo continua meio cheio numa mesa de café.

 

Fortunata Fialho.

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Uma luz brilhante.

Numa casa perdida no meio do campo

Uma criança lê um livro que se desfaz ao toque.

Com toda a ternura e delicadeza tenta que não se rasgue.

Tão precioso como um diamante,

Desenterrado num terreno esquecido,

O livro conta uma história de Natal.

Ainda agora começou a aprender a ler.

Diligente e sofregamente junta as letras,

Decifra as palavras e adivinha as frases.

Os seus olhinhos brilham como estrelas,

Um sorriso de felicidade enfeita o seu rosto.

Cansado adormece e o sonho embala-o.

Sonha que uma árvore cresce na cozinha.

Um Pinheiro pequeno e viçoso surgiu do nada,

Nos seus ramos as pequenas pinhas brilham.

Bem lá no cimo uma luz mais brilhante,

Essa pinha não tem pinhões… tem diamantes.

Diamantes puros e brilhantes como a mais linda estrela.

Levanta a sua mãozinha e tenta tocar-lhe.

Um ruido surge do nada e… acorda.

Corre em busca do seu sonho, da sua árvore.

Um pinheiro pequenino e pobremente decorado espera-o.

No seu cimo uma vela brilha, tímida e encantadora.

Um livro precioso… uma árvore de Natal…

Uma luz brilhante… um sonho tornado realidade…

O menino sorri… é feliz.

 

Fortunata Fialho

 

sonhar-com-crianca
Imagem retirada da internet.

Hoje alguém disse que já tinha iniciado as compras de natal…

Natal da minha infância.

Filha de pessoas sem posses mas ricas em amor cresci numa aldeia pequena muito acolhedora. Como em todas as aldeias alentejanas todos são como família. Ainda hoje os trato como a Ti’ Maria, Ti’ Zefa…. Ti’ Manel, Ti’ Jaquim… Se são todos do meu sangue, claro que não mas serão sempre os tios e tias de todos.

Entre todos os meus tios, primos e avós e os tios de todos nós a ligação era real. Quando alguém necessitava de ajuda todos acudiram. Também quando se tratava da vida alheia também todos tinham algo para dizer, coscuvilhice não faltava.

Não cresci no meio da abundância de bens mas sim numa indescritível abundância de afetos.

Os dias festivos eram muito importantes e nunca deixavam de ser festejados. No Carnaval eram as “filhotes” e os “bêbedos”, na Páscoa as “padinhas” de ervas doces e os “folhados”. No Natal era bastante diferente, além dos doces tradicionais o bacalhau e o peru não faltavam nas nossas mesas. Mesmo os pobres esforçavam-se para que estes alimentos não faltassem.

Na véspera de Natal cada um dos elementos da família colocava um sapato à chaminé. Os adultos adoravam colocar uma bota para provocar as crianças. Coitados dos nossos sapatos ou botinhas ao pé daqueles gigantes.

O “Menino Jesus” durante a noite deixava uns docinhos ou alguma roupa ou calçado de que estávamos necessitados, no nosso sapato (ou ao lado como é óbvio) e era muito frequente os dos adultos aparecerem vazios ou cheios de rama de nabo. Nós delirávamos com o castigo, que tinha sido dado aos adultos, pela sua ganância.

Eram uns Natais perfeitos, as famílias reuniam-se à lareira e o convívio perlongava-se pelo serão fora, a “Missa do Galo” era obrigatória e o frio ou chuva, não impedia a saída para a igreja. Quem não fosse iria ter “sermão cantado” do padre da terra e ninguém queria ouvir tal sermão.

Foram tempos difíceis mas repletos de boas recordações.

Com o tempo, o Natal perdeu a sua essência e passou a ser uma forma de fazer dinheiro ou de obter bens raramente mesmo necessários. Muitas prendas e muita comida e doces nas mesas mas a partilha desinteressada e valor das pequenas coisas cada vez é menor. Por vezes o mais importante é o valor e a quantidade de presentes e o amor e carinho ficam em segundo plano.

Mais vale meia dúzias de rebuçados cheios de amor do que o brinquedo último modelo dado por quem nunca nos acarinhou um ano inteiro.

Tenho saudades do Natal da minha infância, do amor partilhado, das prendinhas sem embrulhos vistosos, da ausência da árvore de Natal, mas com um enorme calor humano.

 

Fortunata Fialho

 

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Imagem retirada da internet.

A cor da minha poesia.

Azul… sem dúvida a minha poesia é azul.

Azul como o céu, azul como o sonho, azul como o mar.

Azul… como o sentimento… como o amor.

Azul como o carinho do teu olhar.

Por vezes vermelha de dor, vermelha… como um vulcão.

De um vermelho tão intenso que cega e… onde me perco.

Vermelha… quando ardemos de paixão.

Hoje… amarela, brilhante, como o sol e os seus raios.

Laranja como esta fruta que me delicia.

Verde como os campos na primavera.

Verde como as, frondosas, copas das árvores.

Verde como a relva onde nos deitamos lado a lado.

Cor de mel como os teus olhos, profundos… intensos…

Dourada… prateada… como o brilho das estrelas.

Cintilante… esplendor dos nossos céus noturnos.

Cinzenta e negra como a dor de perder alguém.

Cinzenta como a tristeza… como a saudade.

Negra como um coração maldoso… insensível.

Eu quero uma poesia colorida… alegre… intensa.

Quero uma poesia arco-íris…

Decompor a luz branca e… escrever colorido.

Quero uma poesia plena de cor… plena de amor.

Afinal a minha poesia é… de todas as cores.

 

Fortunata Fialho

 

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Imagem da internet, penso que a sua origem é da Superinteressante.