Chove lá fora.

Estamos em junho e chove lá fora.

Um vento ruidoso verga as árvores.

O som da chuva é inebriante, o corpo pede cama.

Um raio de sol espreita por entre as folhas.

Rompe a escuridão e ilumina a minha alma.

O calor é abrasador e a chuva não o acalma.

Saio… que bom é sentir a água na pele.

Estou molhada… não importa, eu adoro.

Passeio à chuva e sorriu.

Na minha pele deslizam gotas de água.

Gotas? Não, riachos deslizam pelo meu corpo.

Ondas de prazer acariciam a minha pele.

Chove e não me importo, estou feliz.

Chove e não me abrigo!

Passeio lentamente e disfruto.

Que bom… chove cá fora e eu não me importo.

 

 

Fortunata Fialho

 

Um dia muito nublado.WIN_20141128_150217

Reciclar

Nos nossos dias fala-se muito em reciclagem. Reciclar o lixo para um melhor ambiente. Reutilizar o reutilizável. Proteger o futuro da humanidade.

Na minha casa separa-se, reutiliza-se e procura-se ajudar na criação de um mundo mais limpo e saudável. Não sei se será o suficiente mas já é alguma coisa.

Reciclagem… será que só este tipo de reciclagem é necessário? Não, não creio que seja suficiente.

É urgente reciclar mentalidades, atitudes, conceitos e, sobretudo, falsas verdades institucionalizadas.

Vamos reciclar-nos a nós próprios, aos vizinhos e familiares, aos governos e seus dirigentes e, urgentemente, reciclar as atitudes e ações do ser humano.

Reciclemos a forma como educamos os nossos descendentes, está visto que esta forma não está a resultar. Invistamos na sua educação. Um mundo mais culto e mais humano irá ser, de certeza, bem melhor.

Reciclemos a nossa forma de agir e de pensar.

Reciclemos as ideias pré-concebidas e reflitamos sobre o que realmente interessa.

Reciclemos todas a religiões de forma a tornarem-se mais tolerantes e apoiadas no que têm em comum e não nas suas diferenças.

Reciclemos a nossa pele, misturando todas as cores possíveis, para que deixem de ligar ao exterior e passem a olhar para as pessoas como iguais.

Reciclemos os nossos mapas apagando as fronteiras, acreditando no investimento para um bem comum a todas as pessoas da terra.

Reciclemos os nossos dirigentes para que estes lutem por uma gestão sem corrupção, sem jogos obscuros, sem aproveitamentos do dinheiro comum, sem mentiras eleitorais e encobrimentos de fraudes cada vez mais graves e impunes.

Reciclemos sem descanso, sempre que seja necessário, para a obtenção de um “produto” de qualidade incontestável.

 

Fortunata Fialho

 

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Um dia bem passado em família.

E ninguém disse que a vida tem de libertar.

Quero ser livre, livre de amarras, livre de fronteiras… livre, simplesmente livre.

Livre no pensamento, livre nas decisões, livre no sentir… livre para amar.

 

O tempo passa… a vida avança e, lenta e sorrateiramente, aprisiona a minha liberdade.

Vida traiçoeira que muda tudo aquilo que sonho, vida madrasta, vida saudade.

Vida que modela o meu querer, o meu sentir… vida manipuladora… vida (in)justa.

 

Ingénua, deixo que me manipule, me comande mas, mesmo assim, me ensine a amar…

Vida… minha vida, vida que vivo, vida que amo e nunca vou querer abandonar.

Vida que adoro, vida que odeio, vida… minha vida, vida amor.

 

Pendeste-me, teceste, tal aranha, maravilhosa teia em que me enredo e me perco.

Deste-me amor, vida, sonho, ambição, alegria, porém, também tristeza e dor.

Roubaste-me muitos dos que mais amei e, em troca, deste-me aqueles que mais amo.

 

Sou uma prisioneira nas tuas garras e, engraçado, geralmente não me importo.

Teceste a mais linda e invisível gaiola e nela me encontro sem liberdade nem escolha.

Nunca pensei que vida era prisão, vida deveria ser liberdade, conquista, luta, sucesso…

 

Surpreendentemente, na minha prisão, sou livre. Amo, desejo, sinto, luto e… penso.

Já tentei a fuga… não consegui. A tua sombra envolveu-me e fiquei sem saída.

 

Teimosa, como só eu, continuei tentando… doce ilusão, tentativas vãs…

 

Em jeito de consolo as pessoas sempre me disseram: ‘’Filha é a vida, não a podes mudar!’’.

Agora sei… fugir da vida… só se morrer. Aprendi a aceitá-la e simplesmente viver.

A vida é mesmo assim e… ninguém disse que a vida tem de libertar.

 

Fortunata Fialho

 

Aveiro 2014Fotografia0112

Que sou eu?

Quem sou eu?

Quem consegue responder, com rigor, a uma pergunta destas?

Não sei.

Um dia sou uma pessoa alegre, crédula, romântica, otimista e feliz. No outro triste, taciturna, desconfiada e um pouco infeliz.

Atenção não sou bipolar nem sofro de qualquer distúrbio ou perturbação mental.

Poderão dizer que sou complicada, mas quem não é?

Não somos, no fundo, o espelho daquilo que nos rodeia?

Sofro quando alguém querido sofre, riu quando se riem. A tristeza torna-me infeliz e a alegria feliz.

Não é assim para todos nós?

Só um tolo consegue ser feliz a tempo inteiro. Não sou tola, simplesmente, sou humana.

Procuro obter alegria dos pequenos e bons momentos e aproveitar as coisas boas da vida. Amar incondicionalmente quem me ama e, por vezes, aqueles que dizem não me amar. Sim porque é difícil amar quem nos odeia.

Cuidado, sou orgulhosa e não esqueço facilmente a traição e o mal que me fazem. Não me pisem os calos pois eu reajo, não com violência e discussões mas sim com o desprezo.

Solitária e incondicionalmente romântica. Sonhadora e trabalhadora.

Por vezes tenho grandes momentos de silêncio em que não me apetece falar. Não estou, forçosamente, chateada com alguém ou alguma coisa, mas sim porque estou envolta nos mais diversos pensamentos.

Adoro conhecer aquilo que me rodeia. Atenção, não me interessa a vida alheia, a minha já me dá muito em que pensar.

Leitora assumida, como diz meu esposo, devoradora de livros. Ler proporciona-me felicidade, sonhos e viagens imaginárias. Quando leio sinto-me transportada a mundos diferentes, parece que esses mundos podem ser meus, mesmo que seja nos meus sonhos. A leitura envolve-me em magia. Lendo sou criança novamente, viajo no mundo da fantasia, vivo nos contos de fadas e, sobretudo, sonho acordada.

Um bom livro preenche a alma e acalma o coração.

Esta sou eu, com todos os defeitos e as qualidades de uma pessoa comum, no entanto eu sou… eu, única e real.

 

Fortunata Fialho

 

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Serra do Caramulo

Encontro Inesperado

Hoje, uma enorme folha de plátano

Saudou-me pelo vidro do meu carro.

– Olá, chegou o outono.

Os seus tons castanhos e a humidade da manhã

Davam-lhe uma beleza exótica.

Uma beleza entristecida

Pela despedida da sua árvore.

Colou-se ao vidro, pedindo ajuda.

Será que me estava a pedir abrigo?

Será que estava fugindo da geada?

Os campos estavam cobertos por um lindo e

Gélido manto branco,

Brilhando como diamantes,

Aos primeiros raios de sol.

A minha amiga voou,

Juntou-se a tantas outras

De igual beleza, salpicando o manto

De belos tons castanhos.

Finalmente percebi.

Queria mostrar-me

A subtil beleza outonal.

 

Fortunata Fialho em Sentidos ao Vento (Momentos)

 

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Moinho-de-Canais 2015

Ler e Sonhar

Ler um bom livro é transportarmo-nos para

Uma realidade alternativa,

É viver o sonho de outras pessoas,

É sonhar como elas mas, de forma diferente.

Quando leio sonho,

Sonho que percorro campos que nunca vi,

Que voo sem saber voar,

Que nado apesar de nadar pouco.

Quando leio posso ser aquela sereia,

Aquela árvore centenária que protege a floresta,

O rio que protege um mundo de fábulas,

A ponte que liga o real ao imaginário.

Recuso identificar-me com o mau da história

Mas gosto de me identificar com os traquinas.

Ler é partilhar e aprender,

É conhecer vidas nunca vividas,

Ler uma história a uma criança é voltar a ser criança.

Ler Camões é viver o passado.

Ler Jorge Amado é conhecer parte do Brasil.

Ler Júlio Dinis, Fernando Pessoa, Fernando Namora,

E tantos outros autores Portugueses,

Reviver tempos, crenças e usos dos nossos antepassados.

Ler autores atuais como José Rodrigues dos Santos,

Onde a realidade se mistura com a imaginação,

É uma das melhores formas de passar o tempo.

Um livro é sempre um amigo que nunca nos falha,

Que nos aconselha, diverte, cultiva e,

Sobretudo, nos encanta.

Quem lê não perde a capacidade de sonhar.

Quem lê mantem a mente aberta e o espírito jovem.

Nunca vou deixar de ler.

Lendo, esqueço os problemas que me atormentam.

Lendo, sonho.

Lendo, evoluo para um nível diferente,

Um nível mais meu.

 

Fortunata Fialho em Sentidos ao Vento (Momentos)

 

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Évoramonte 12 de 2015

 

O tempo será só meu.

Juntos, tivemos partilha, vida, sonhos, vitórias… bons tempos.

Recordo a tua pele na minha pele, o teu sexo no meu sexo …

Parece que ainda sinto a intensidade dos nossos orgasmos e o êxtase dos nossos sentidos.

 

Sem limites dediquei-te toda a minha vida, toda a minha essência.

Vivi para os nossos encontros, para a intensidade dos nossos sentidos.

Nos teus braços, esqueci-me de mim … eu não era nada sem ti.

 

No meio de muitas desculpas, disseste que o nosso tempo se gastou.

Não entendo como se pode gastar o tempo, o meu não se gasta.

Partiste … eu fiquei. Contigo levas-te o nosso tempo e, pensava eu, a minha vida.

 

Chorei a perda, chorei o abandono, chorei o desamor … chorei o nosso tempo.

Chorei até se me acabarem as lágrimas, e mesmo assim continuei chorando.

 

Continuo a amar-te mas, finalmente, revivi. Gastou-se o nosso tempo, não a minha vida.

Agora vou viver, talvez encontre outro grande amor… se não encontrar não importa…

Hoje o tempo é meu, finalmente recuperei-o. A minha vida, o meu tempo, já não és tu.

 

Hoje vou sair e divertir-me, flirtar, rir, amar, sentir o cheiro do mundo,

Escutar os sons da natureza, desfrutar do barulho do silêncio … viver o meu tempo.

Hoje vou obter o orgasmo dos meus sentidos e o êxtase da minha vida.

 

Hoje vivo o meu tempo, intensa e apaixonadamente. Não tenciono gastá-lo.

Caso se gaste o tempo não vou deixar que se gaste a vida. Vou continuar a viver, a sonhar e a amar.

Vou, eternamente, ser feliz e o tempo será só meu.

 

Fortunata Fialho.

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Cabo da Roca, um bom passeio.

Mãe

Que saudades …

Sinto falta do teu jeito seco,

Mas reconfortante.

Ao fim de tantos anos ainda chego e,

Por vezes, ainda sinto que vou perguntar por ti.

Sinto que ainda fazes parte daquela casa,

Como fazes do meu coração.

Nunca vou esquecer a tua vontade de viver,

A tua força para superar todo o sofrimento.

Aquela frase no dia anterior:

“Não estejas preocupada, ainda vou criar os

Outros netos.”

Agora, passados tantos anos, tens outro neto.

Neto, esse, que sabe que teve uma avó,

Aquela que está pendurada na parede da sala.

Nunca poderá brincar contigo.

Nunca te poderá amar como os meus filhos.

Mãe,

Sei que a tua vida era um sofrimento atroz.

Não quero parecer egoísta mas,

Queria tanto poder ter-te comigo,

Poder abraçar-te e pedir desculpa de tudo o que

Te magoou.

Mãe, quero que saibas que sempre foste muito

Especial para mim.

Amo-te, minha mãe.

Fortunata Fialho em Sentidos ao Vento (Momentos)

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Dia quase sem internet

Neste tempo em que, todos nós vivemos agarrados ás novas tecnologias, em minha casa conviveu-se.

Um grupo animado de amigos e familiares, juntos à mesa em franco convívio, sem nos lembrar-mos dos aparelhos que vêm tomando conta das nossas vidas.

Entre risos, piadas, recordações e tantos temas interessantes, foram-se passando as horas e ninguém pareceu dar conta do tempo que fugia. Embevecidos com a presença da bebé mais linda do mundo (sou suspeita mas, é a doçura das doçuras), entre choros e olhinhos espertos e atentos, renová-mos a fé no futuro.

Mataram-se saudades, planearam-se visitas e colocaram-se as conversas em dia. Quando nos apercebemos, a tarde já ia longa e a hora da separação chegou. Era necessário partir e regressar às respectivas casas.

Feitas as despedidas uma certeza ficou, a sensação reconfortante de calor humano, partilha direta e a certeza de que as novas tecnologias não substituem o contacto humano.

Que bom é o calor humano!

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Raio de luz

Acordo e através da minha janela sinto o doce e terno calor de um raio de luz no meu rosto.

O dia acaba de nascer e pelo estore, mal fechado, entra um tímido raio de luz. Pouco luminoso e não muito quente, acaricia o meu rosto, numa caricia sem fim. Na sua timidez parece dizer:

– Acorda, abre a janela e espreita. Está um lindo dia e tu feita dorminhoca.

Espreguiço-me e, lentamente, abro um olho e depois o outro. A custo saio da cama e abro a janela. Lá fora está um dia luminoso, os pássaros chilreiam e as flores abrem-se aos primeiros raios de sol.

No meu quarto só cheira e soa a primavera.

Lavo-me e visto roupa desportiva, vou fazer uma longa caminhada. É cedo, a cidade parece dormir, caminho ouvindo o silêncio, envolta em sonhos e acariciada pelos raios solares ainda tímidos.

Que bem que me sabe o fresco da manhã, a leve brisa no meu rosto e esta solidão reconfortante.

Sem me aperceber caminho durante vários quilómetros e, surpresa, não me sinto cansada, pelo contrário estou tranquila e sinto-me tão bem.

Retomo o caminho de volta, começo a cruzar-me com alguns transeuntes, mas contínuo envolta na magia do silêncio no doce rolar dos meus pensamentos.

No conforto do silêncio ouço os meus próprios pensamentos, como é bom pensar sem que nos interrompam!

Ao som dos chilenos dos pássaros e dos murmúrios dos insetos chego a casa.

Não me sinto cansada e tenho a certeza que o meu dia vai correr bem melhor agora. Sinto-me descontraída e renovada, pronta para o que der e vier.

Obrigada Raio de Luz, obrigada por melhorares o meu dia ao despertar-me de uma forma tão suave deliciosa e… libertadora.

Muito, muito obrigado. Volta sempre que querias e, para que saibas, não voltarei a fechar

totalmente a minha janela.

 

Fortunata Fialho

 

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