Carnaval

Durante a minha adolescência nunca passei um Carnaval em Évora.

Todos os anos, durante as férias de carnaval, lá ia eu para a minha aldeia.

Na cidade era tudo muito frio e impessoal. As saídas não eram bem vistas pelos pais. As meninas não deviam sair à noite.

Na minha terra, não havia problema, todos conheciam todos. A segurança, segundo os nossos pais, era superior e, assim tínhamos vários olhos a vigiar-nos. Santa ilusão, o pessoal novo só fazia o que lhe apetecia. Entre desfiles, informais, e bailes até nos esquecíamos de comer e de dormir. As minhas tias quando nos apanhavam em casa obrigavam-nos a comer e a ir descansar missão quase impossível. Lembro-me de num dia desses quando tentei comer o estômago doeu-me tanto que parecia castigo por ter passado tanto tempo sem lhe fornecer alimento.

De entre as roupas que saiam de baús antigos e os trapos velhos dos nossos familiares saiam as mais diversas personagens que se pavoneavam nas ruas da aldeia.

Casamentos trapalhões, falsos padres, convidados andrajosos, vestes de gala em ruinas, contagiavam de sorrisos as caras dos idosos, e menos idosos, que não podiam participar nos cortejos. Nós deliciávamo-nos com todas estas tropelias e continuávamos com o nosso improvisado teatro carnavalesco. Teatro, sem protagonista principal e, onde todo o ator era um elemento fundamental e autónomo.

Em algumas casas eram-nos ofertados alguns petiscos e muitas partidas à mistura. Sim porque nem só os jovens são levados da breca.

Matinés dançantes coladas a bailes noturnos eram as nossas tardes, ou seriam noites? Na realidade só parávamos para mudar de roupa e fingir que jantávamos e dormíamos.

Medo de andar de noite ninguém tinha, todos chegávamos a casa em segurança e ninguém se sentia ameaçado por possíveis perigos noturnos. A minha aldeia era um lugar seguro e acolhedor, creio que ainda é.

Estafados e sem forças caiamos na cama e não havia ninguém que nos acorda-se.

As férias do Carnaval esfumavam-se e nós nem dávamos por isso.

Quando me apercebia já era quarta-feira. Para minha tristeza tinha que voltar para casa. Todo o divertimento desse dia era-me vedado, tinha que apanhar a automotora, no dia seguinte era dia de aulas.

A tristeza era muita mas, restava-me a certeza de que no ano seguinte lá estaria novamente.

 

Fortunata Fialho em:

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