Uma das “Simplesmente… Histórias”

Dos dois avôs que tive só me lembro bem de um deles. Infelizmente perdi o outro quando ainda tinha seis anos.

Este meu avô tinha uma história muito particular.

Para começar as iniciais do seu nome eram, precisamente, três M(s).

Por agora vou chamar-lhe só o primeiro: Manuel.

Quando, muito jovem, o irmão foi chamado para a tropa e surgiu um

grande problema: este irmão já não existia. A sua morte não ficou devidamente registada na Conservatória, segundo a família, por incompetência do funcionário da época.

Decorria nesse mesmo tempo a “Guerra de Catorze” e, para evitar a prisão, o pai tinha que tomar o seu lugar. O meu bisavô já era demasiado velho e, a conselho de um advogado, só havia uma hipótese, “matava-se” o meu avô “revivendo” assim o irmão.

Assim, o meu avô, repentinamente ganhou dois anos a mais e teve que partir para a guerra.

Não sei por onde lutou. Sei no entanto que foi um dos sobreviventes. Sei também que sofreu com a guerra química e ficou um pouco afetado.

Não sei que volta deu a sua vida. Só sei que de primogénito de uma das famílias mais ricas da região acabou na miséria no Alentejo.

Segundo a família foi o álcool e os falsos amigos que contribuíram para isso. Como nós dizíamos estava preservado em aguardente (a sua bebida de eleição).

Só me lembro dele já bem velhinho e a fumar tabaco (de onça) Duque, enrolado em mortalhas de papel.

Nunca mais me esqueço do olhar de contentamento e orgulho quando lhe apresentei o meu namorado, era a primeira neta a dar-lhe semelhante honra.

Dependente dos filhos passava o tempo ora em casa de uns, ora em casa dos outros.

No tempo que passava connosco lembro-me dos meus pais esconderem as bebidas bem fechadas à chave.

Um dia descobriu uma garrafa de aguardente no frigorífico e foi bebendo, às escondidas, e substituindo por água o espaço vazio. Desapareceu de casa e foi o desespero total. Todos o procurámos pela cidade inteira e do avô nem sinal. Já se pensava o pior quando recebemos um telefonema da minha tia a dizer que estava em sua casa.

Só para fazerem uma ideia saiu de Évora seguindo a linha de caminho-de-ferro até Montoito e daí para as Aldeias de Montoito. Para que não restem dúvidas era nessa localidade que se sentia em casa pois aí passou a maior parte da sua vida.

 Quando não tinha acesso a bebida não se metia nestas aventuras. Não havia aventuras mas falava dia e noite num tom de voz muito alto. Contava coisas que lhe aconteceram na guerra, factos históricos reais e peripécias de guerra.

Quando o tema não era guerra falava de geografia, história, sabia as linhas de caminho-de-ferro de cor e salteadas, os nomes dos rios de muitos países e tantas outras coisas.

De notar que era uma pessoa culta, possuía a quarta classe, o que na época era um privilégio muito especial só alcançável a muito poucos.

Com oitenta e muitos anos lia, sem óculos, todo o tipo de letra, por mais pequena que fosse. Tal como eu adorava ler. O seu cabelo ainda tinha mais fios negros que prateados, a sua agilidade ainda deixava alguns, muito mais novos, cheios de inveja.

Lembro-me que passava meses a guardar no bolso frutos secos e guloseimas para dar à neta (a minha irmã) que ainda era uma criancinha. Alguns chegavam estragados mas contava a intenção.

Nunca me lembro de o ver acamado nem com problemas de saúde graves, até o seu fígado tinha sobrevivido ao álcool que teve de processar durante toda a vida.

Lembro-me de ouvir dizer que sempre que começavam uma briga perto dele, mesmo bêbado, se afastava dizendo: “-Quem as fez que as desmanche”.

Segundo a família era capaz de despir a própria camisa para a dar a quem necessitasse. Com a esposa e os filhos existiram alguns problemas que, por agora e até não poder ferir sentimentos de pessoas que amo muito, vão continuar em segredo na família.

Com todos os seus defeitos e qualidades era o meu querido avô Manuel.

Um dia adoeceu e, passadas cerca de duas semanas, faleceu tranquilamente em casa de uma das filhas.

Hoje, passados tantos anos, ainda tenho saudades das nossas conversas e das suas peripécias. Era bom que vivesse para sempre mas, isso não pode acontecer.

Assim vamos perdendo os nossos entes queridos e relembrando para sempre, de preferência, as suas qualidades.

Ainda lembro a sua voz, o seu cheiro e os seus grandes monólogos.

Engraçado já não choro a sua perda mas lembro a sua presença como se ainda estivesse vivo. Meu avô Manuel …

Fortunata Fialho

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s