No tempo em que…

            No tempo em que os animais falavam o planeta era um lugar onde a harmonia imperava.

            No tempo em que as plantas falavam o campo era um lugar bem mais seguro.

No tempo em que tudo e todos falavam a solidão não existia.

            Pelos campos ecoavam melodias de esperança e felicidade. As crianças adormeciam embaladas por belas melodias e sonhavam com um mundo de magia. Os pais viviam despreocupados pois as amas tinham as mais diversas formas, árvores que lhes forneciam sombra, animais que os acompanhavam, flores que os entretinham… As ervas dos campos acolhiam-nos no seu regaço e embalavam-nos ao sabor do vento. O vento segredava-lhes ao ouvido histórias de mundos encantados, fadas e elfos, ogres e bruxas, de lutas entre o bem e o mal nas quais era o bem que sempre saía vitorioso.

            No tempo em que tudo e todos falavam não existiam machados, armas… maldade. O sol aquecia, o vento acariciava, os rios refrescavam e, puros como nunca, matavam a sede até do mais sequioso. As árvores forneciam sombras frondosas, frutas deliciosas maduras e suculentas. As plantas, deliciosas, ofereciam-se para matar a fome e os homens agradeciam ajudando a que se multiplicassem. O lixo, ninguém sabia o que era, tudo se aproveitava e renovava num ciclo interminável de fartura e beleza. A poluição era uma palavra de tempos ainda não vindos. O ar um bem precioso onde odores se misturavam criando o mais inebriante perfume nascido da natureza.

            No tempo em que tudo e todos falavam pobreza e riqueza eram palavras ainda não inventadas. Nas mesas não faltava alimento e ao seu redor, os mais velhos contavam histórias reais, propagadoras de conhecimento. Todo o idoso era um professor e toda a criança um aprendiz atento. A sabedoria crescia sem parar nas vozes de quem contava aumentando nos ouvidos atentos de quem escutava. Doença… essa ninguém tinha, saúde era uma dádiva divina.

            No tempo em que tudo e todos falavam os deuses não existiam, só a natureza era sagrada. A dor era desconhecida, a morte um adormecer da forma atual para um acordar em tudo o que nos rodeava. Os entes queridos continuavam vivos nas lembranças, nos animais, nas plantas… nunca desapareciam… nunca nos abandonavam. Seres protetores e sábios habitavam a luz e as sombras. O mal tinha o seu reino, isolado, estanque de onde não lhe era permitido sair. Eram maus entre eles e assim também eram felizes.

            O tempo em que tudo e todos falavam perdeu-se. Perdeu-se no gume de um machado, a ponta de uma flexa, na lâmina de uma faca, nas bocas dos intriguistas… O mal derrubou as suas fronteiras e, sub-repticiamente, foi-se infiltrando em todos os lugares. Na infinita sucessão dos dias o bem continua a sua luta e eu acredito, algum dia irá vencer. Ainda um dia vou poder dialogar com as árvores, com o vento, com um riu, com os animais, e em conjunto reaprender. Ainda um dia as crianças brincarão com fadas e duendes, todas serão príncipes e princesas num reino de felicidade e alegria.

            Ainda um dia voltará o tempo em que tudo e todos falavam…

Fortunata Fialho

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