Uma guerra interessante.

Uma guerra interessante.

Num reino branco distante

Um lápis e uma borracha guerreavam.

O lápis rabiscava, a borracha apagava.

O lápis corria, rodopiando em eterna fuga.

A borracha perseguia e apagava.

Na sua fuga o lápis a folha riscava,

Em perseguição a borracha apagava.

A corrida tornou-se vertiginosa,

O lápis parecia o vento forte,

A borracha tropeçava.

O lápis saltava, voava e aterrava.

Subitamente perdeu o bico.

A borracha foi definhando.

Um afia apareceu e ao lápis o bico devolveu.

Á borracha, pobre borracha, ninguém lhe valeu.

Com o tempo o lápis também se gastou,

A borracha quase faleceu.

Cansados e moribundos pararam,

Sem folgo para trás olharam.

Como podia tal ter acontecido?

Sob o seu olhar o mais belo poema…

Poema de amor e paz,

Poema de ajuda e partilha,

Poema maravilha… belo, de encantar.

Olhando um para o outro ambos sorriram,

Finalmente, lápis e borracha, puderam descansar.

Fortunata Fialho

Descoberta na net, mas que tem tudo a ver…

Reflexo.

Reflexo.

Na beira de um rio uma criança olha o seu reflexo.

De olhar iluminado pela surpresa, agita a água.

A água brinca com a sua imagem,

Desliza e foge levando o seu reflexo,

Lentamente devolve o reflexo do seu rosto.

Um raio solar ajuda na brincadeira,

Projeta-se na água calma e ilumina aquele rostinho.

A criança ri de contentamento e surpresa.

Como pode estar um espelho no meio do riacho?

Deve ser magia! Só pode ser magia.

Eleva o olhar e repara no reflexo do sol numa gota de orvalho.

Sob os seus olhos brilha o mais belo diamante,

Um diamante líquido e efémero que brilha como o seu olhar.

Salta e grita de felicidade, ri numa saudável loucura,

O mundo é seu e o sol brilha só para ele.

No reflexo dos seus olhos vive toda a felicidade.

No reflexo dos seus olhos mora o mundo.

O sol reflete-se no riacho projetando raios,

Lindos raios coloridos que enfeitam as folhas,

As flores, os animais… os brinquedos.

Sim os brinquedos tinham tons de arco-íris.

Nunca tinham sido tão bonitos.

Cansado, olha os reflexos no riacho…

De sorriso no rosto adormece e sonha…

Sonha que viaja num raio de sol

Feito barco no riacho que corre.

Fortunata Fialho

😊Mais em “Quero um poema…”😃

Lágrimas

No seu rosto correm lágrimas

Como gotas de orvalho, deslizam imponentes.

Sobras de um mar que oculta a visão,

Nascidas da mágoa e da dor.

Neste rosto de criança correm ligeiras.

Caiu? Que perdeu? Não…

Apenas o seu mundo ruiu.

Criança órfã crescendo no medo.

Criança vitima, criança tristeza…

Criança sem sorriso, criança tristeza.

Vive sob um rio de lágrimas de leito cinzento.

Num oceano de dor e que não conhece o sol,

Nunca cheirou uma flor, nunca escutou um trinado.

Criança sem teto crescida no horror.

Criança poema negro… criança pesadelo.

No seu mundo não há sonhos de encantar.

Criança sem saber sonhar.

Criança lágrima, criança dor… criança guerra…

Criança que… deveria ser só amor.

Fortunata Fialho

Coisas de crianças em “Simplesmente… Histórias”

Durante a minha infância, na minha aldeia, morei numa casa em que três portas se alinhavam.

Porta do quintal, que dava para a cozinha, porta da cozinha para a sala de jantar e a porta da rua.

A iluminação era feita através de candeeiros a petróleo os quais tornavam o ambiente um pouco irreal e propicio a divagações na minha cabecinha de criança.

Durante o serão reuníamo-nos na cozinha e não havia o hábito de se fecharem as portas, hábito que ainda mantenho atualmente.

Os meus brinquedos estavam arrumados na parte inferior da mesa da cozinha, nada se podia estragar. Ali estavam seguros e longe das mãos que as podiam estragar. Sim porque eu estimava muito todos os meus brinquedos.

Como todas as crianças adorava brincar imitando os adultos.

O serão passava e as brincadeiras continuavam.

Passeava por toda a cozinha mas, tinha um grande problema, quando cruzava a porta da sala de jantar um vulto negro passava ao mesmo tempo.

Nos meus poucos aninhos eu não percebia e, para evitar a sua presença, corria para que ela não me alcançasse.

Sorte malvada, ela acompanhava-me sempre.

A correria continuava sempre que passava pela dita porta.

Só algum tempo mais tarde percebi que, este meu inimigo não era mais que a minha sombra.

O candeeiro projetava-me de uma forma tão especial que tornava assustadora e irreal a minha própria sombra. Coisas de crianças!

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet

Porque hoje é um dia muito especial, a minha neta Mariana faz anos. Muitos parabéns Marianita, que as histórias dos outros tempos te façam sonhar.

Há muito, muito tempo…

A lareira crepitava e as chamas aqueciam,

As cadeiras arrastadas formavam uma roda.

Os corpos aqueciam esquecendo o frio da rua.

Na boca de uma idosa nascia uma história.

Nos brilhantes olhos das crianças fazia-se magia.

Há muito, muito tempo, os animais falavam

A vegetação dialogada e até as pedras contavam segredos.

Numa casinha pobre e isolada vivia a alegria.

O pão escasseava enquanto o carinho aumentava.

As crianças eram felizes e o cão latia…

Latia palavras envolvidas em latidos e lambidelas,

Palavras de amor e esperança.

O gato ofertada as mais suculentas peças de caça e

Num miado dizia: Comam, matem a fome.

Os pássaros cantavam belas canções de embalar

Acompanhadas do coro das árvores

E dos acordes melodiosos das suas folhagens.

No tempo em que todos os seres falavam

A felicidade habitava em todos os recantos.

Os homens criaram armas e os animais silenciaram-se.

Inventaram machados e as plantas calaram-se.

E o mundo tornou-se mais pobre.

Agora só as crianças escutavam os seus segredos.

As crianças, maravilhadas, escutavam.

O sono chegou e nessa noite o sonho imperou.

Sonharam com um mundo de comunicação,

Um mundo amor.

Noite fora o lume calou-se, as chamas apagaram-se,

As cadeiras arrumaram-se e o silêncio voltou.

Fortunata Fialho

Que para sempre sejas feliz meu amorzinho.

Sonho lindo em “Quero um poema…”

Sonho lindo.

Tive um sonho lindo!

Tinha asas e voava sem parar.

Percorria o planeta procurando armas.

Nos quartéis penduravam-se flores,

Os campos de batalha eram prados coloridos.

Soldados marchavam ao som de sinfonias.

Disparavam-se pétalas que perfumavam os corpos.

O chão cobria-se de corpos…

Que, de olhar sonhador, observavam as nuvens.

De punho erguido prometiam-se sonhos.

Vozes fortes falavam de amor.

Ameaças de carinho ecoavam os ares.

Todas as religiões partilhavam o mesmo templo,

Em vez de ódio pregavam amor.

E os animais?

Ai, aos animais disparavam carícias.

O riso das crianças ecoavam no ar,

Levando sorrisos a todos os rostos.

Não encontrei armas… procurei lágrimas…

Em todos os rostos brilhava a felicidade.

Finalmente encontrei lágrimas…

Envoltas em sorrisos… enfeitadas de gargalhadas,

Brilhavam como estrelas num céu de verão.

Cansada pousei e… adormeci.

Que sonho tão lindo esta noite vivi!

Fortunata Fialho

👻Vulto caminhante. 👻

Vulto caminhante.

No escuro do caminho um vulto se acerca. Vindo de onde? Ninguém sabe.

Na aldeia um reboliço. Primeiro em surdina depois em gritos aflitos escuta-se que uma sombra sinistra tinha sido vista nas ruas menos movimentadas.

O sol começa a espreitar, uma claridade, fraca e ilusória, projeta uma iluminação muito ténue. O vulto silencioso e andrajoso prossegue o seu caminho.

A vida tinha-lhe pregado a mais terrível e injusta das partidas. Sem eira nem beira os seus dias consistiam numa deambulação permanente por entre as sombras dos caminhos. Enfraquecido pela fome e pelo frio o seu corpo estava dormente, insensível. A sua voz esconderam-se o os sons pouco davam a ouvidos alheios. O seu rosto outrora dono do mais belo e puro sorriso, tinha-se fechado e, o rosto outrora lindo, estava sulcado de rugas profundas.

Sinistro? Não, sinistra foi a vida que tudo lhe prometeu e tudo lhe roubou.

Na sua memória uma lembrança vaga de um lar e uma família, das gargalhadas de crianças felizes de rostos lambuzados pelos doces que avidamente devoravam.

Uma noite enquanto todos dormiam, a claridade tinha envolvido a sua casa. Um calor imenso, sufocante e crepitante saído do mais terrível dos pesadelos. A casa envolta em chamas era avidamente devorada em conjunto com os seus habitantes. Subitamente por milagre ou castigo divino, uma torrente de água abateu-se sobre ela devolvendo-a à escuridão. Sem saber como, percorreu todas as divisões mas o que encontrou foram cinzas e corpos carbonizados.

O brilho dos olhos desapareceu levando consigo a razão.

Diz quem viu que dos olhos nenhuma lágrima rolou, o fogo secou-as definitivamente. Como um autómato sem alma, entrou em perpétuo movimento e, de repente, um vulto sinistro começou a ser avistado nos caminhos, um vulto de morto-vivo. Um corpo onde a vida teimou ficar e a morte se tinha instalado na alma.

Nas aldeias vizinhas o povo dizia ser visitado por um fantasma que assustava os mais supersticiosos, mesmo nunca tendo ameaçado ninguém. Um fantasma que unicamente percorria os caminhos num caminhar de loucura pacífica feita de um desespero nunca chorado, talvez na procura de um grito que soltasse a dor ou de um choro que lhe lavasse a alma.

O vulto passava, e o tempo tornou-o lenda.

Ele? Ela? Não interessa.

Os anos passaram mas, ainda hoje há sempre alguém a afirmar que a sua caminhada continua, desesperadamente, pelas sombras dos caminhos.  

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet ( Blog: Conte Histórias)

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