Mentira.

Mentira

Ele chegou com um brilho no olhar, um sorriso travesso e prometeu amor eterno. O namoro foi um interminável desfilar de promessas de um futuro de felicidade.

Ela apaixonou-se e amou sem medos. Sentia-se a mais sortuda das mulheres. Todas as horas eram passadas juntos num qualquer cantinho isolado.

Os encontros com os amigos tornaram-se escaços, pelo menos para ela.

Quando os amigos lhe falavam, os olhos dele adquiriam um brilho estranho e, ela não percebia. Com uma desculpa qualquer forçava-a a retirar-se. Por vezes surgia uma cena de ciúmes injustificados.

Ela, iludida num amor incondicional, ouvia as desculpas e desculpava. Afinal quem ama tem ciúmes.

Infelizmente há diferentes tipos de ciúme.

De casamento marcado os preparativos sucederam-se e uma exigência surgiu. O vestido de noiva não deveria ser muito decotado, ele não gostava. Não estranhou o facto de não poder escolher livremente todas as características do seu vestido de sonho.

No altar prometeram amar, respeitar e protegerem-se até que a morte os separasse. Todos pensaram que iriam viver longos e felizes anos. Afinal todas as pessoas que se amam pensam assim e tudo fazem para que seja verdade.

A lua-de-mel foi fantástica, o local escolhido era idilicamente isolado e paradisíaco.

De volta a casa as rotinas foram-se instalando. Quando o marido chegava era obrigatório estar em casa e de refeições confecionadas, se falhava ele ficava rabugento e de mau humor. Não fazia mal afinal era homem e os homens são mesmo assim. Quando pensava sair com amigos(as) ele inventava sempre um pretexto para adiar.

Lentamente ficou isolada e até a própria família se tornou distante.

As refeições começaram a estar mal confecionadas, a casa com pó, as roupas mal tratadas e as receções pouco calorosas. Na sua ingenuidade não estranhou, não reparou que algo de errado se passava e não era só com ela.

O que vinha sendo anunciado aconteceu, um dia em que o jantar estava ligeiramente atrasado, uma valente bofetada surgiu. De cara marcada e lágrimas nos olhos não queria acreditar. Ele desdobrou-se em desculpas incriminatórias e prometeu que nunca mais aconteceria. Ela apaixonada acreditou e desculpou, afinal a culpa tinha sido sua deveria ter feito a comida mais cedo.

Os dias sucederam-se e a qualquer suposto erro as recriminações sucediam-se fazendo-a acreditar ser culpa sua.

Um dia em que chegou mal disposto, não interessa porquê, as Agrações sucederam-se. De corpo marcado e a necessitar de cuidados médicos, foi ao hospital, tinha caído das escadas. Novamente, ele se desdobrou em desculpas e falsas promessas de um amor imenso, ela crédula ou amedrontada não fez queixa e voltou com ele. Nos dias seguintes foram flores e beijos envolvendo-a, assim na sua teia.

O trabalho corria-lhe mal e ao chegar a casa, vendo um pouco de pó na entrada, começou agredindo com palavras e, quando ela se tentou defender… uma sova.

Envergonhada e humilhada deu entrada no hospital. A polícia chegou, era óbvio que tinha sido brutalmente espancada, e ela olhando para a figura do marido que a olhava do corredor, declarou ter tido um acidente (pouco convincente) no trajeto para casa. O medo tinha tomado posse de si e a necessária força para se libertar suprimida.

De volta a casa os dias eram vividos no terror de falhar alguma coisa e no medo das más disposições dele. As agressões continuaram e ela foi ficando um farrapo incapaz de se defender.

Engravidou e acreditou que a vinda desse filho seria a sua salvação. Com a vinda de um filho ele iria mudar e tornar-se uma pessoa melhor.

Falsa esperança, já na gravidez foi agredida e uma grande contusão tomou conta da sua barriga. A criança nasceu e, como todas as crianças, chorava de noite com fome. Um dia, perante o seu horror a criança foi agredida para se calar.

Pegou no bebé e fugiu, pediu ajuda na polícia e o esposo ficou impedido de se aproximar deles… mas em liberdade.

A criança tinha-lhe dado forças para se libertar mas a justiça pouco ajudou.

Um dia, perante o olhar incrédulo da família, dois corpos jaziam nos mosaicos da sala. Um bebé ainda de meses e, a sua mãe jaziam num mar de sangue.

Ele era seu dono e eles não podiam viver sem ser a seu lado. Tinha o direito de fazer o que quisesse e, se não eram dele, não seriam de mais ninguém.

Numa mentira infame prometeu-lhe amor e, em vez disso deu-lhe terror e morte.

( Este texto é ficção mas quantas mulheres, crianças e homens vivem vidas de terror e violência das quais não têm força para fugir e, quando o tentam perdem a própria vida?)

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet.

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