Gafanhoto _ “Sentidos ao Ventos (Momentos)”

Gafanhoto

Ontem, no meu quintal

Fixei-me num gafanhoto.

Estava empoleirado numa folha,

Quando eu olhava, ele rodava.

Eu mexia a cabeça para a direita,

Ele rodava para a esquerda.

Virava a cabeça para a esquerda,

Rodava para a direita.

Na sua ingenuidade de inseto

Pensava estar invisível ao meu olhar.

Continuamos no jogo das escondidas.

Eu sorria e estava encantada,

Ele, pelo contrário, devia estar saturado.

Fartou-se e saltou,

Eu saltei também.

Não é que o bicho saltou direito a mim!

Pregou-me um pequeno susto

E desapareceu do meu horizonte. 

Fortunata Fialho

Um sonho.

            A noite cai e o sono instala-se. Cansado cai na cama e adormece quase de imediato. O dia foi desgastante mas não consegue esquecer a imagem da garota a quem cedeu passagem. O cheiro que dela emanava e o esvoaçar dos cabelos negros e brilhantes deixaram-no preso nesse momento.

            Tinha prometido a si próprio não se deixar envolver por nenhuma mulher, compromissos não estavam incluídos no seu projeto de vida. Mulheres só por um dia nada mais. Afinal um homem tem necessidades.

            Subitamente estava no centro comercial e a garota agradeceu-lhe com um sorriso. No seu olhar pareceu ler: segue-me. Ele seguiu-a.

            Entrou no mesmo restaurante e pediu uma mesa. Com a desculpa de estar tudo ocupado, perguntou-lhe se podia sentar-se a seu lado. Ela, com um sorriso, aceitou. No final da refeição já partilhavam as sobremesas. A conversa fluía com uma tremenda facilidade e a sessão da tarde, do cinema, foi vista a dois. Um braço apoiou-se nos seus ombros e ela não se desviou. No écran um filme de amor lamechas, outrora insuportável, tornava o seu serão bem melhor. Imaginem, ele a gostar de um filme para mulheres!

            O cinema terminou e ofereceu-se para a levar a casa. Segundo ele ficava em caminho. Aqui para nós, a caminho para o lado oposto da cidade.

            Na entrada da sua casa, em jeito de despedida, um beijo na face que, sorrateiramente, deslizou para o canto dos lábios.

            Nessa noite o sonho voltou mais intenso do que nunca. O beijo sorrateiro tinha-o incendiado e, agora sonhava, que num impulso ela tinha saboreado a sua boca. Primeiro timidamente e depois com toda a intensidade do desejo. Os seus corpos rolavam na cama fundindo-se e incendiando-se.

            Como tinha ido parar à cama o sono não lhe revelou, só soube que os seus corpos explodiram e todo aquele fogo se transformou num riacho de águas calmas. Nesse momento repousavam abraçados envoltos em suor e, nos rostos um sorriso de pura satisfação.

            O despertador tocou e o sonho acabou mas o sentimento de satisfação não terminou. A cama era a sua mas faltava alguém…

            Estava decidido, tinha de trazer o sonho para a realidade. Pegou no casaco e dirigiu-se para o outro lado da cidade…

Fortunata Fialho

Ler

Ler

Qual a melhor forma de passar o tempo?

Como podemos viajar sem sair do lugar?

Quando o desejo de fugir da rotina é muito.

Nada melhor que uma visita à estante, lá estão viagens, romance, cultura… companhia. Um livro não nos dececiona tem sempre alguma coisa a contar ou ensinar.

Tenho viajado muito pouco mas, conheço tantos lugares. Viajo pelo mundo nas páginas de um bom livro, ou revista, de reportagens sobre o que nos rodeia. Para onde vou a minha capacidade linguística não me incapacita, viajou em português. A comida não é problema, como com os olhos. Não dizem que os olhos também comem? Então acreditem é assim que me alimento nas minhas tranquilas viagens e ainda nunca adoeci.

Enquanto alguns se dedicam a saber da vida alheia, eu também o faço. Abro um livro com um bom romance e desfrutou das vidas nele, contidas. E como eu gosto de viver as suas histórias! Choro de emoção, rio de alegria e, por vezes até me apetece participar nas suas conversas.

Nas minhas estantes encontram-se mundos tão diversos mas muito emocionantes. Ajudam-me a passar o tempo e ainda me presenteiam com conhecimento e inspiração.

Como eu adoro ler!

Fortunata Fialho

Um simples toque.

Um simples toque.

Sentada num banco de jardim apreciava a paisagem. A calma e dourada planície era como um bálsamo, o dia tinha sido demasiado stressante e estava cansada.

Não o ouviu chegar… o silêncio era tão bom!

Subitamente um toque, os seus dedos no seu pescoço rolavam suave e delicadamente. Uma suave caricia percorria o seu corpo. Fechou os olhos e uma onda de prazer avançou em si como as ondas, de um mar calmo, se espraiam pela areia. Todos os seus sentidos se concentraram naquele toque. O seu corpo tornou-se areia e aquele toque o seu mar, calmo e dócil, mas fresco e reconfortante.

Encostou a cabeça naquele peito quente e o bater daquele coração soou como acordes celestiais. Cerrou os olhos, queria sentir sem pensar. Como era boa aquela sensação! Como desejou que aquelas mãos descessem pelo seu corpo e a abraçassem terna e firmemente, que aqueles lábios percorressem o seu corpo e despertasse toda a volúpia escondida em si.

Já não era dona de si mesma, só queria ser dele, fazer parte dele. O seu corpo ansiava por aquele corpo que se vestia com a sua pele.

Nas imediações não se via viva-alma e o arvoredo escondia-os de quem passava… estavam completamente sós.

Lentamente os botões do seu casaco soltavam-se revelando parte de uns seios que revelavam a sua excitação através dos mamilos que se elevavam sob o cetim da sua blusa.

Queria pedir mais mas não conseguiu, uns lábios macios e quentes calaram o seu som, absorveram as suas súplicas. Respiração com respiração, língua com língua, nada mais existia, compreendiam-se sem necessitar falar.

Protegida dos olhares indiscretos no seu jardim particular, perdeu a noção da realidade.

Lentamente as suas roupas deslizaram para o chão misturando-se com as dele.

Quatro mãos num corpo só, tateavam cada poro desses corpos unos e nus. E aquele toque! Como era divinal e como a fazia vibrar de prazer.

As carícias percorriam o seu corpo sem deixarem um pedacinho de pele por acariciar. Como que impulsionada por magia as suas mãos percorriam aquele corpo que a enlouquecida. No seu baixo-ventre uma onda de desejo pedia mais… o toque daquele membro viril enlouquecia-a.

 Sofregamente abraçou-o e beijou-o como que suplicando por mais… muito mais. Delicadamente, ele elevou-a e sentou-a no seu colo. Inevitavelmente os seus corpos uniram-se e os sentidos mandaram. Não consegui pensar, só sentir aquele prazer e devolvê-lo com toda a intensidade do seu desejo.

Ondulando ao sabor do prazer, primeiro como em águas calmas, depois num mar tempestuoso, os corpos perdiam-se de si próprios. As carícias sucediam-se de uma forma louca, animal e instintiva. Só o prazer importava, só eles existiam. O suor percorria os seus corpos. Um odor animal pleno de aromas emanados da paixão e do desejo fazia inveja ao perfume das mais aromáticas flores que os rodeavam.

O ritmo aumentava e sons de prazer ecoavam pelo ar. Puros e sem maldade, simplesmente impulsionados por um amor verdadeiro e uma paixão incontrolável, donos do seu sentir deixavam-se levar, ou melhor, elevar ao infinito.

Finalmente explodiram num orgasmo intenso, um orgasmo a dois. Incapazes de controlar os seus corpos sentiram todo aquele prazer imenso, prazer que nunca pensaram poder sentir.

Esgotados e realizados continuaram abraçados trocando carícias, agora sem desejo mas sim com uma ternura imensa. Recusavam-se a voltar à realidade, queriam prolongar eternamente aqueles momentos.

O arrefecer do suor dos seus corpos e a sensação de frio que os envolveu, recordou-lhes a ausência das suas roupas. Rindo como duas crianças vestiram-se e, abraçados, permaneceram naquele banco observando a paisagem e sentindo o conforto que só o amor pode dar.   

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet.

Horizonte.

escreversonhar

Olho pela janela e aprecio a paisagem.

Campos ainda verdejantes,

Manchados de castanho.

Árvores de folha caduca despem as suas vestes.

O sol brilha tornando a paisagem luminosa.

Ao longe, o grande lago,

Parece um pequeno oceano!

Grande lençol de água que a vista não alcança.

Bandos de aves cruzam os ares.

Voam por todo o lado, pousando nas árvores.

Voam folhas levadas pelo vento.

Levam os nossos sonhos a outras gentes.

Os campos mudam a sua roupagem.

O horizonte é o mesmo,

A paisagem diferente.

Continuo a contemplar…

A minha imaginação transforma a paisagem,

Num sonho de amor e calma.

Sinto-me tranquila e feliz.

Fortunata Fialho

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História de uma noite.

Um homem abre a carteira e subitamente uma embalagem de preservativos, não usada, cai. No seu rosto desenha-se um sorriso, na noite anterior não tinha sido necessária.

            Finalmente tinha saído com aquela criatura louca e exuberante que lhe despertava todas as sensações e o deixava louco de desejo. O grupo de amigos tinha-se dispersado e eles tinham ficado sós. Caminhando pela rua as suas mãos tinham-se unido e os seus corpos tocavam-se como que atraídos por um desejo não confessado.

            Um aguaceiro desabou sobre si e, encharcados, tinham-se refugiado no apartamento dela. Rindo ela indicou-lhe a casa de banho para que pudesse secar um pouco e tentou encaminhar-se para o quarto para mudar de roupa. Sem que pudessem evitar e porque os seus corpos não lhes obedeciam, permaneceram imóveis com os seus olhares fixos nos rostos que quase se tocavam. Os seus cabelos negros cobriam-lhe a testa e, afastando-os acariciou o seu rosto. Beijou, suave mas intensamente, aquela boca que tremia de desejo. As roupas deslizaram para o chão e os corpos uniram-se num só. Louco de desejo, sentou-a na mesa e tentou penetrá-la. Ela retraiu-se… que diabos!

             “É a minha primeira vez.”

            Não podia ser verdade!

            Uma ternura imensa invadiu-o e, pegando-lhe ao colo, levou-a para o quarto. Suavemente percorreu cada recanto da sua pele, com a sua boca, excitando todo o seu corpo. Suavemente acariciou o seu sexo e ela não se retraiu. Excitada e recetiva, ela deixou que a estimulasse e, quando a sentiu pronta, penetrou-a suavemente. Com movimentos lentos e carícias suaves fez todo o seu corpo vibrar de prazer. Finalmente o ritmo dos seus corpos aumentou explodindo num orgasmo imenso. Carícias lentas nos corpos cansados prolongaram aquele momento.

            Temendo acordar daquele sonho, envolveu-a num abraço e… adormeceram.

            Aquele preservativo continuou intacto.

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet.

Folhas caídas.

Folhas caídas

Pelos campos o inverno avança sorrateiramente.

As árvores protegem-se largando as suas folhas.

Privadas do seu alimento, as folhas caiem

Tristes perderam a sua cor… secaram.

No chão um tapete castanho de folhas caídas.

Um tapete castanho de beleza perdida.

Folhas caídas jazem sem vida,

Tombaram inertes num descanso eterno.

Passeio sofrido acariciado pelo frio.

O vento chega e olha-as com pena.

Recolhe-as nos seus braços e eleva-as.

Projeta-as para longe fazendo-as voar.

Como asas de pássaros agitam-se,

Parecem reviver… voando contentes.

Cruzam os ares, viajam sem rumo.

Docemente pousam inertes

Desfazem-se em mil pedaços.

Folhas caídas… alimentam a terra.

Alimentam as sementes…

Na primavera renascerão novamente.

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet