Deixa-me ser poesia.

Deixa-me ser poesia.

Deixa-me ser poesia…

Escreve-me de todas as formas.

Escreve-me com beijos e rima-me com carícias.

Transforma os meus gemidos em poemas,

Envolve meus seios em quadras,

Transforma o meu ventre em sonetos.

Destrói os meus medos em sátiras,

Chove-me em gotas de rimas.

Transforma as minhas lágrimas em poemas de amor,

Os nossos orgasmos em vulcões de odes ao divino.

Os momentos mortos em poemas de paixão,

Os dias em epopeias versejadas,

Os segundos em viagens de poemas.

A vida em enciclopédias poéticas,

A dor em poema triste,

A felicidade em declarações poéticas.

Ama-me em ondas de poesia,

Segredo-me aos ouvidos poemas divinos.

Beija-me com palavras de amor.

Envolve-me em ti, minha poesia.

Torna-te o meu eterno poema apaixonado,

O meu poema eroticamente sonhado…

Deixa-me ser para sempre a tua poesia…

Fortunata Fialho

Caminhar…

Caminhar…

Na infinita sucessão dos dias melancolia e felicidade caminham lado a lado.

Melancolia observa o nascer do sol com lágrimas nos olhos,

Felicidade sorri com todo o esplendor do seu colorido.

E os dias caminham sem se deixarem travar… sucedem-se…

Rumo ao infinito inalcançável sem se cansarem.

Melancolia recorda os tempos passados e tenta olhar para trás.

Pobre melancolia, o passado já não pode enxergar.

Felicidade tenta ver o futuro que se oculta no horizonte.

Pobre felicidade, a impaciência não para de a atormentar.

Os dias sucedem-se, tomam-se anos… séculos.

A idade não os afeta, nunca envelhecem… não lhe é permitido.

 Melancolia tem saudades do passado… entristece.

Pobre melancolia, precisa da felicidade para a amparar.

Felicidade envolve-a num abraço que enternece,

Beija-lhe o rosto… limpa-lhe as lágrimas…

Fala-lhe de amor e esperança, canta com voz de veludo,

Canções de paixão e de sonho… plenas de esperança no futuro.

Melancolia e felicidade apaixonam-se e, entre abraços e beijos,

Caminham de mãos dadas rumo ao futuro lentamente,

Sem pressa aproveitam o momento,

E cada nascer-do-sol é o mais belo… e cada pôr-do-sol o mais radiante.

Fortunata Fialho

Rir "Simplesmente…Histórias"

Rirmos juntas foi tão bom… rir de felicidade… rir de verdade.

Sim ri, e em casa todos ouviram e riram também. Rimos… que bom!

Quero rir sempre assim, hoje… amanhã… sempre… rir, sim só rir…

Quero secar meus olhos, fechar esta cascata, triste e sombria.

Tenho que sorrir, deixar o sol entrar, secar estas lágrimas de sangue.

Quero ser feliz, quero acalmar minha dor, quero… ser feliz.

Meu Deus como quero, como tento… já consigo rir por entre as lágrimas.

Como seria bem mais fácil se pudesse ser novamente criança.

Fortunata Fialho

Egoístas…

Egoístas…

            Tão egoístas que as pessoas são! Teimam em querer prender nesta vida aqueles que amam mesmo sabendo que o seu sofrimento é atroz. Não veem que a morte será uma bênção? Egoístas, são uns egoístas.

            Então porque choro por todos os que perdi e teimo em desejar tê-los de volta? Não sou egoísta mas choro. Quero todos de volta, quero abraçá-los, dizer-lhes o quanto preciso deles. E choro… choro com a impossibilidade de que isso aconteça.

            Insensíveis pedem a Deus que os não leve, que os não deixe partir. Loucos insensíveis!

            Então porque choro? Porque sangra tanto o meu pobre coração? Não… não sou egoísta, mas choro como todos os egoístas… não sou egoísta…

            Mundo de egoístas não querem abrir mão de quem amam.

            E eu? Eu também não quero! Quero junto a mim as mesmas pessoas que eles. Também não quero que partam.

            Então se não sou egoísta eles também não são… ou serei eu uma grande egoísta?

            Choro as minhas perdas e as perdas deles que, no fundo, também são minhas. Choro e também pergunto porquê eles… porque será Deus tão injusto e permite tanto sofrimento?

            Perdoem-me todos os crentes mas tenho tantas dúvidas. Como posso esquecer que deixou dois inocentes netos assistirem à morte de uma avó que tanto amavam.

            Egoísta… sim talvez eu seja egoísta mas choro e o tempo só consegue silenciar o meu choro mas não seca as minhas lágrimas.

            Egoístas… somos tão egoístas…

Fortunata Fialho

Melancolia.

Melancolia.

Olho pela janela e, de repente, uma rajada de vento agita as árvores.

Algumas gotas de chuva caem, tímidas e quentes, levantando poeira.

Ao longe as árvores cobrem-se de mil tons amarelados,

O verde viçoso e brilhante esconde-se envergonhado.

As folhas entristecem e, numa tentativa vã de desespero, escurecem.

Onde outrora o verde era rei agora o amarelo outonal lidera.

O verde não se deixou derrotar e renasce em cada tronco de árvore,

Em cada pedrinha sombria e até no solo húmido.

Um viçoso musgo cobre de tons esverdeados os mais recônditos lugares.

A chuva cai cada vez com mais intensidade mas isso não importa.

O seu molhar ainda é ligeiramente quente e retemperador.

Afinal quem não gosta de caminhar à chuva,

Sentar-se num tronco de árvore e admirar as paisagens?

Sentir na pele o doce contacto da água, fresco e reconfortante?

Sentir o suave toque do musgo que se agiganta, cobrindo tudo em seu redor.

O vento acorda e fustiga o arvoredo soltando as pobres folhas cansadas.

Agora a chuva não é só água, é também chuva de folhas.

Ao longe avistam-se alguns troncos nus que se tentam cobrir de musgo.

Pudicamente, tentam esconder a sua nudez. Tarefa inglória…

É outono e os amarelos pintam as paisagens.

Numa infinidade de lindos tons cobrem tudo o que a vista pode alcançar.

O verde era mais belo? Não sei, o amarelo é deliciosamente tranquilo… encantador.

É outono, os troncos cobrem-se de musgo e o chão de folhas mortas.

Chove cada vez mais e o meu coração é inundado de melancolia…

Doce e terna melancolia que, mesmo assim, me faz feliz.

Fortunata Fialho

Deixa para lá…

Deixa para lá

Se a vida te prega uma partida deixa para lá.

Tenta pagar-lhe da mesma moeda,

Troca-lhe as voltas, levanta-te e sorri.

Não lhe mostres as lágrimas, por vezes ela é má.

Nos bons dias proporciona-te boas surpresas,

Premeia o teu esforço de formas que nem imaginas.

Presenteia-te com o mais lindo raio de luz,

Com as estrelas mais brilhantes,

Com os perfumes mais inebriantes,

Com a felicidade de um sorriso que seduz.

Se a noite é tenebrosa e negra deixa para lá.

Procura a lua e pede-lhe as estrelas.

Projeta a luz das tuas lanternas,

Rasga-a com belos raios de luz.

Pinta-a de lindas estrelas brilhantes,

Salpica-a de pingos de intensa luz.

Terás o céu mais brilhante e…

No teu rosto brilhará a felicidade.

Se a tristeza te bater à porta deixa para lá.

Busca a felicidade, procura o amor,

Veste as roupas mais bonitas e sai.

Baila com todo o teu furor…

Percorre os campos floridos,

Lê o livro que reclama na estante,

Viaja nas suas páginas e adormece feliz.

Fortunata Fialho

Postais antigos.

Novidade:

Cito:

“Cara Fortunata,

Ficamos bastante agradecidos pelo envio do seu trabalho para constar no Volume III da Colectânea de Cartas de Amor, da Chiado Books.

Depois de o analisarmos, informamos que o mesmo foi selecionado.”

Sabes?

                Neste fim do mundo onde me encontro depois de tantos anos a tentar esquecer o passado tenho coragem de, com todo o amor, te dizer que afinal quem errou foste tu.

            Debaixo destas rugas que invadiram o meu rosto sem que o pudesse evitar, envelhecendo-me precocemente, remoendo num abandono que não cometi estou tentando fazer as pazes com o passado.

  Amei muito, amei até quando o coração se tinha partido e o cérebro deixou de poder tomar decisões conscientes. Amei tanto até o amor se ter tornado medo… desespero. Ansiava pela tua presença e temia a tua chegada. Confundi violência com carinho e proteção, um carinho que me deixava marcas negras, uma proteção que me algemava e amordaçava… uma gaiola dourada era o nosso lar.

            Um dia, depois de mais uma cena lamentável de injúrias e violência gratuita só porque sim, e em que uma visita ao hospital mais próximo se impôs, perdi o nosso filho.

De volta a casa, fraca e cansada, acusaste-me de ser uma assassina.

Apanhei… fui eu que matei!

            Como desejei ter partido com ele!

            No dia seguinte saí… queria desaparecer… morrer. Desapareci por esses caminhos mas alguém me encontrou e não deixou que regressa-se. Chorei, gritei, e até tentei fugir. Ainda bem que não consegui. Mudei o meu nome e fui viver longe. Um dia alguém me disse que me procuravas, que dizias que eu iria pagar caro a fuga, talvez com a própria vida. Chorei e vacilei, e se tu me encontrasses?

             Durante vários dias não consegui sair de casa… estava aterrorizada.

            Os dias passaram e a eles seguiram-se anos, consegui uma vida nova.

Tinha fechado as portas a uma nova relação mas, o amor lutou para me conquistar. Vivi com carinho e compreensão, fui presenteada com filhos, com dias calmos, carinho imenso e respeito absoluto. No meu corpo os negros desapareceram e no seu lugar restaram algumas cicatrizes quase invisíveis, só nas noites de pesadelos elas se evidenciavam. Sim tive muitos pesadelos.

            Agora, olho para os netos que brincam com um avô, que daria a vida por eles, como um grupo de crianças das mesmas idades e escrevo na tentativa de apagar para sempre um passado que está longe mas ainda me assombra. Não sei se te enviarei esta carta, talvez ainda sinta medo desse amor que dizias ter por mim. Amor? Não, não era amor, era posse e maldade. Se não tiver coragem espero que quem a encontre te a faça chegar.

            Despeço-me dizendo que te amei muito, muito mesmo, teria dado a vida por ti. Tu mentiste quando prometes-te proteger-me e em troca retiraste-me tudo… o nosso filho… e até a minha vida tu tentaste tirar.

            Amor em troca de ódio, como pudeste?

            Não te posso perdoar… não te quero perdoar… nunca te perdoarei.

Desta que muito te amou e aprendeu a temer

Uma Maria como tantas outras Marias.

Fortunata Fialho

Escrever…

Escrever…

Nestas páginas que escrevo deixo a minha alma. Escrevo o que sinto, o que desejo, o que me alegra, me entristece e me consola.

            Escrevo sem medos e sem reservas.

            Escrever transporta-me para um mundo só meu, um mundo sem regras, um universo muito meu onde tudo é possível e onde não existe censura, dor, tristeza… escuridão.

            As letras dançam criando histórias de encantar ou de assustar… sei lá. Nas páginas surgem duendes, fadas, príncipes, princesas, ogres… homens, mulheres, crianças… animais.

Paisagens desfilam pelas páginas, riachos percorrem as linhas, mares transbordam de sonhos e realidades.

            Mundos coloridos surgem como por milagre.

Sonhos e desejos são expressos em palavras simples e modestas.

Cascatas coloridas surgem envoltas em bruma e magia.

Por todo o lado as palavras dançam e traçam paisagens de encantar.

            Palavras feias quebram-se e reconstroem-se belas e leves como o sonho ou como o, ingénuo, balbuciar de uma criança.

            Palavra atrás de palavra constrói-se o texto sem que tenha sido pensado. Ao sabor da escrita, surge e toma as mais diversas formas. Envoltas em segredos esperam ser lidas e tomar forma na imaginação do leitor. Onde mais podemos visualizar mundos tão nossos? Onde mais a história vive do imaginário de quem a lê?

            Imagens descritas por mim e visualizadas de tantas formas quanto o número de leitores. Um mundo de mundos diferentes.

            Por tudo isto escrevo… brinco com palavras e… espero que sejam lidas e, por alguém, revividas. Por amar tanto as palavras quero que nunca se calem, nunca se conformem e, sobretudo, que nunca deixem de se reconstruir.

            Adoro escrever… adoro ler… adoro sonhar…

Fortunata Fialho

👶Criança poema.👶

Criança poema.

            Um choro, ténue e desesperado, soa num quarto qualquer. Poema de vida em construção. Um abrir de olhos que apreende um mundo novo cheio de luz.

            Chora pela perda da segurança do ventre de sua mãe e, quem sabe se da dor sentida durante o seu nascimento.

            Num mundo desconhecido, inicia o seu percurso. Só… não, com a ajuda dos que o amam, escolhe o seu caminho. Nascer foi o início de uma, esperemos, longa caminhada.

            Pode haver poema mais belo que o riso de uma criança? Cristalino, puro, inocente, contagia todos ao seu redor. Quem nunca riu ao escutar o riso solto de uma criança? Eu nunca resisto a fazer-lhe coro. Remédio infalível que cura toda a tristeza, bálsamo que torna a vida bem mais suave e feliz.

            Envolta em sonhos onde imperam príncipes e princesas, cavalos brancos, seres mágicos… desenvolve-se. Dona de poderes imensos voa como um pássaro, nada com as sereias e corre como o vento. No seu mundo o bem vence sempre o mal, os bons são fortes e invencíveis e os maus caiem como folhas secas ao sabor do vento.

            Neste mundo mágico de histórias de encantar, cresce… escrevendo múltiplas linhas, doces e puras, no livro em branco da sua vida.

            Como eu recordo o início de vida os meus dois poemas, dos seus olhinhos brilhantes, das suas perguntas ingénuas… e até das suas maldades sem malícia. Crianças poema nascidas do amor que cresceram a escutar histórias e acreditando serem reais.

            Deambulo pelos caminhos e cruzo-me com tantos poemas em construção. Pelo ar ecoam gargalhadas e correrias sem fim. Lutas fingidas e ternuras imensas. Livros em branco com poucas páginas preenchidas, crianças poema em início de vida.

Fortunata Fialho

Retirada da internet