Eram criados os“Flintstones “ — Cais da Memória

20 Janeiro 1960 A série Os Flintstones foi o primeiro desenho animado de William Hanna e Joseph Barbera e é também uma das mais rentáveis criações da dupla para a TV até hoje. O desenho que originalmente se chamaria “Os Gladstones”, foi lançado em 1960 e a princípio teve 166 episódios de meia hora. O […]

Eram criados os“Flintstones “ — Cais da Memória

Primeiro dia de escola.

                Querida Mamã.

Mamã desculpa de ter chorado tanto quando me deixas-te. Eu estava com tanto medo e tentei tanto que tu me levasses para casa novamente. Sabes? Tu não irias ficar para me proteger e era tudo tão grande e novo, eram só caras que eu nunca tinha visto e a escola era muito mais grande que a nossa casa.

                Quando tu te foste embora, uma senhora simpática pegou-me pelos ombros e sorriu. O seu sorriso era tão bonito! Ao meu ouvido disse para eu não ter medo que ela ia cuidar bem de mim e deu-me um abraço muito apertado. Sabes mãe, ela foi muito boazinha para mim e é a minha professora.

                Muitos outros meninos e meninas estavam tão assustados como eu e ela consolou-os a todos. Eu também ajudei um pouco com o meu sorriso. Foi isso que a professora me disse.

                Sabes a minha mochila é igual á de outro menino, vamos ter de ter muito cuidado para não as trocarmos. Fizemos desenhos numas folhas grandes que a professora deu. O meu estava muito bonito e a professora viu logo que eras tu e o papá que me estavam a segurar a mão. Ela perguntou porque é que a tua barriga estava tão grande e eu respondi que a minha maninha ainda morava na tua barriga e precisava de todo esse espaço. Estava a crescer para poder sair e vir brincar comigo.

                Quando fui ao recreio não me senti sozinho pois tinha muitos amigos novos para brincar. Brincámos até ficarmos mesmo muito cansados.

                A professora diz que vou aprender a ler e escrever. Eu queria começar já mas tenho que ter paciência porque vai levar algum tempo. Sabes, eu quero escrever que gosto muito de vocês e que tenho os melhores papás do mundo.

                Beijinhos.

Fortunata Fialho

Mafalda no seu melhor.

No tempo em que…

No tempo em que…

            No tempo em que os animais falavam o planeta era um lugar onde a harmonia imperava.

            No tempo em que as plantas falavam o campo era um lugar bem mais seguro.

No tempo em que tudo e todos falavam a solidão não existia.

            Pelos campos ecoavam melodias de esperança e felicidade. As crianças adormeciam embaladas por belas melodias e sonhavam com um mundo de magia. Os pais viviam despreocupados pois as amas tinham as mais diversas formas, árvores que lhes forneciam sombra, animais que os acompanhavam, flores que os entretinham… As ervas dos campos acolhiam-nos no seu regaço e embalavam-nos ao sabor do vento. O vento segredava-lhes ao ouvido histórias de mundos encantados, fadas e elfos, ogres e bruxas, de lutas entre o bem e o mal nas quais era o bem que sempre saía vitorioso.

            No tempo em que tudo e todos falavam não existiam machados, armas… maldade. O sol aquecia, o vento acariciava, os rios refrescavam e, puros como nunca, matavam a sede até do mais sequioso. As árvores forneciam sombras frondosas, frutas deliciosas maduras e suculentas. As plantas, deliciosas, ofereciam-se para matar a fome e os homens agradeciam ajudando a que se multiplicassem. O lixo, ninguém sabia o que era, tudo se aproveitava e renovava num ciclo interminável de fartura e beleza. A poluição era uma palavra de tempos ainda não vindos. O ar um bem precioso onde odores se misturavam criando o mais inebriante perfume nascido da natureza.

            No tempo em que tudo e todos falavam pobreza e riqueza eram palavras ainda não inventadas. Nas mesas não faltava alimento e ao seu redor, os mais velhos contavam histórias reais, propagadoras de conhecimento. Todo o idoso era um professor e toda a criança um aprendiz atento. A sabedoria crescia sem parar nas vozes de quem contava aumentando nos ouvidos atentos de quem escutava. Doença… essa ninguém tinha, saúde era uma dádiva divina.

            No tempo em que tudo e todos falavam os deuses não existiam, só a natureza era sagrada. A dor era desconhecida, a morte um adormecer da forma atual para um acordar em tudo o que nos rodeava. Os entes queridos continuavam vivos nas lembranças, nos animais, nas plantas… nunca desapareciam… nunca nos abandonavam. Seres protetores e sábios habitavam a luz e as sombras. O mal tinha o seu reino, isolado, estanque de onde não lhe era permitido sair. Eram maus entre eles e assim também eram felizes.

            O tempo em que tudo e todos falavam perdeu-se. Perdeu-se no gume de um machado, a ponta de uma flexa, na lâmina de uma faca, nas bocas dos intriguistas… O mal derrubou as suas fronteiras e, sub-repticiamente, foi-se infiltrando em todos os lugares. Na infinita sucessão dos dias o bem continua a sua luta e eu acredito, algum dia irá vencer. Ainda um dia vou poder dialogar com as árvores, com o vento, com um riu, com os animais, e em conjunto reaprender. Ainda um dia as crianças brincarão com fadas e duendes, todas serão príncipes e princesas num reino de felicidade e alegria.

            Ainda um dia voltará o tempo em que tudo e todos falavam…

Fortunata Fialho

Tempo. “Poesia Colorida”

Tempo

O tempo não tem idade… não sabe onde nasceu.

O tempo é órfão e não sabe.

O tempo é Deus… é saudade…

É Fénix renascendo sempre que se fina.

É imortal… intemporal… eterno.

O tempo tarda… o tempo foge…

Espirito indomável… amante ciumento,

Possessivo, intenso… doce e terno.

Tempo dos amantes… terno e apaixonado,

Tempo dos inocentes… ingénuo e sonhador.

O tempo é criança traquina e apressado.

O tempo é velho… sábio e sensato.

O tempo é meu e não me pertence.

Traidor inclemente passa e não se detém.

Teimoso insensível, nunca volta atrás.

Lento e indolente, teima a tardar,

Rápido foge e não se deixa apanhar.

O tempo não tem tempo… que estranho!

Por vezes corre, outras é tão lento… que raiva!

Quero o meu tempo para te dar tempo,

Para isso preciso do tempo que o tempo não dá.

Tempo (in)justo, (in)clemente, padrasto… pai…

Acalma-te não te apreces, ainda tens muito tempo…

Sossega, descansa… passeia por aqui.

Tempo não me deixes… preciso de ti.

Fortunata Fialho

Insólito. “Simplesmente… Histórias”

Todos os vizinhos juntos, caso raro, mas aconteceu.

Por meio de conversas sem grande importância surgiu uma ideia mirabolante. ‘’Vamos assistir á concentração de carros’’.

Pegam nos seus veículos e, como estão a alguma distância uns dos outros, decidem encurtar a mesma. Carros a trabalhar e marcha atrás metida a loucura começa.

Como pode um grupo de homens feitos ter este tipo de comportamentos?

No meio da loucura e, em marcha acelerada, os carros recuam quase colados uns aos outros.

No meio da loucura e com medo, a namorada do meu sobrinho grita: ‘’Ai, ai… ai’’ mas rindo como uma criança!

De repente arrancam em grande velocidade. Em tão insólito cortejo a rua fica vazia, não sem que o meu esposo me faça adeus de dentro da carrinha.

Confusa e furiosa observo aquela loucura tentando absorver e compreender tamanho insólito. Observo a rua e não acredito no que vejo, o meu esposo nem se dignou dizer que se ia embora e, para minha surpresa, alinhou em toda aquela loucura… deve ter enlouquecido… só pode!

O telefone toca, o meu ou o dele, não consigo recordar-me.

– Que loucura foi essa? Como podes ter-te ido embora sem dizeres nada?

Do outro lado ele ri que nem um perdido e eu consigo visualizar o ambiente envolvente, devia ser uma videochamada!

– Qualquer dia, abalo sem te dizer nada e, quando chegar, telefono a dizer: ‘’Estou aqui, vim passear’’, a ver se tu gostas.

O riso, do outro lado aumenta assim como a minha irritação. Pronta a dizer mais qualquer coisa acordo, olho para o lado e ele dorme profundamente.

Que raios… o que uma pessoa sonha!

Fortunata Fialho

Hora do almoço, por todo o lado surgem marmitas. Só um micro-ondas complica tudo, mesmo assim tem de ser tratado com carinho… se ele avaria estamos tramados.
Forma-se fila de espera para aquecer o almoço.
Já aqueces-te? Posso?
Eu já estava à espera, por isso aguenta um pouco.
Marmitar está na moda. Um desfile de marmitas último modelo, sucede-se. Outras, como a minha (sim porque eu também marmito), parecem vindas de outros tempos.’
Que tens hoje para o almoço?
Que bem cheira a tua comidinha! Tens de me dar a receita.
Entre modelitos de conjuntos de refeição e conversas da treta o almoço vai decorrendo. Entenda-se que a conversa da treta não é depreciativa, a conversa até é interessante, os temas é que não são de grande interesse. Não poderia ser de outra forma… conversas sérias podem causar indigestão. Temas leves é o que interessa, para chatear já basta o que temos de aturar durante toda a manhã.
Entre dentadas o tempo passa, com os estômagos aconchegados os ânimos recuperam. Sim porque um estômago cheio tudo fica mais animador e menos stressante.

De estômago vazio o mundo fica sombrio e todos os demónios aparecem, pelo contrário, estômago reconfortado faz brilhar o sol e surgir o paraíso. Paraíso… paraíso, não digo, mas que tudo melhora… melhora.
Está na altura de recolher a louça suja e esconder a sua fealdade dentro das lindas, ou não, marmitas.
Aproveita-se o tempo para aferir algumas estratégias e procedem-se a alguns desabafos. O turno da tarde avizinha- se e a disposição parece estar a voltar… lentamente, que professor não é de ferro.
Encaminhando-se para as salas, de pastas a tiracolo e um sorriso no rosto, só de alguns… claro, porque outros já não conseguem, vamos para mais uma linda e estimulante aula.
Fazendo do sorriso arma de arremesso, tentamos cultivar com algum conhecimento, as mentes dos nossos alunos.
Entretanto vai chegar a hora do tão almejado descanso.
Amanhã será um novo dia e, de pasta a tiracolo e de marmita na mão começaremos mais um dia de trabalho.

Fortunata Fialho

A cor da minha poesia. “Poesia Colorida”

A cor da minha poesia.

Azul… sem dúvida a minha poesia é azul.

Azul como o céu, azul como o sonho, azul como o mar.

Azul… como o sentimento… como o amor.

Azul como o carinho do teu olhar.

Por vezes vermelha de dor, vermelha… como um vulcão.

De um vermelho tão intenso que cega e… onde me perco.

Vermelha… quando ardemos de paixão.

Hoje… amarela, brilhante, como o sol e os seus raios.

Laranja como esta fruta que me delicia.

Verde como os campos na primavera.

Verde como as frondosas copas das árvores.

Verde como a relva onde nos deitamos lado a lado.

Cor de mel como os teus olhos, profundos… intensos…

Dourada… prateada… como o brilho das estrelas.

Cintilante… esplendor dos nossos céus noturnos.

Cinzenta e negra como a dor de perder alguém.

Cinzenta como a tristeza… como a saudade.

Negra como um coração maldoso… insensível.

Eu quero uma poesia colorida… alegre… intensa.

Quero uma poesia arco-íris…

Decompor a luz branca e… escrever colorido.

Quero uma poesia plena de cor… plena de amor.

Afinal a minha poesia é… de todas as cores.

Fortunata Fialho

Sopro. “Quero um poema…”

Sopro.

Num sopro, suave e quase inaudível, o vento conta segredos.

Numa carícia fala de amores clandestinos,

Transporta gemidos de prazer… gemidos de felicidade.

Sofregamente beija-nos o corpo e envolve-nos num terno abraço.

Num sopro aquece a alma e faz-nos sonhar.

Eleva-nos aos céus, transporta-nos ao Olimpo.

Num sopro confesso o quanto te amo.

Num sopro convido-te para a minha cama.

Partilhamos os corpos e, num sopro do tempo, enchemo-nos de beijos.

Soprando carícias, perdemos a noção do tempo.

Num sopro violento os nossos corpos explodem de prazer.

Num pequeno sopro, nossos corpos se separam,

Nossos lábios se colam, nossos olhos se fecham…

Nas asas do sono descansamos… abraçados.

Ao sopro das nossas respirações acordamos.

Num sopro de tempo nascemos… vivemos… morremos…

Fortunata Fialho

Lembro. “Poesia Colorida”

Lembro

Lembro o tempo em que nos banhávamos juntos,

Em que os nossos corpos se incendiavam rebeldes,

Nos amávamos fisicamente sem tabus.

Lembro todos os suores lavados das nossas peles,

De todos os orgasmos partilhados,

Das palavras abafadas pelo som da água corrente.

Fecho os olhos e consigo ver o teu corpo desnudo,

Sinto o suave acariciar das tuas mãos,

O doce calor dos teus lábios percorrendo o meu corpo.

Lembro as entregas totais aos nossos sentidos,

As frases banais cheias de sentido,

As promessas eternas que se esqueceram com o tempo,

Os olhares incendiados, esfomeados… sensuais.

Lembro a sensualidade do teu corpo,

O inebriante cheiro da tua pele,

A intensidade o teu desejo no meu desejo.

Lembro as noites tórridas e os dias apaixonados.

Lembro quando nos deitávamos amuados

E acordávamos abraçados.

Lembro os beijos doces, as carícias marotas,

Os corpos em desejo, a entrega total,

A explosão final e o abraço do repouso.

Fortunata Fialho

Vida. “Espontâneos de Natal 2019”

Vida

Nascer… viver… reproduzir… morrer…

Nesta vida há muitos natais felizes e cheios de esperança.

Natal é sempre que uma criança nasce,

Adorada por um séquito de familiares

Que a embalam e cuidam com toda a ternura.

Com ele transporta toda a nossa herança,

Aposta num mundo onde o amor cresce.

Menino(a) aí Jesus em casa de seus pais.

Luz que ilumina mais que o sol numa tarde de verão.

O tempo passa e os meninos crescem,

Orgulho dos pais somam anos,

Birras, sorrisos, vitórias e algumas desilusões.

Perdem a inocência, ficou em pedaços pelo caminho,

Somam novos sonhos e também mais algumas ilusões.

Também eles concebem frutos para novos natais.

Nas suas casas também se vai adorar os meninos.

A vida não perdoa e os natais serão os seus netos,

Novos aí Jesus de seus avós,

Cobertos por abraços e beijos de puro amor.

Neles depositamos a esperança no futuro…

A vida é tão curta e a morte não perdoa,

Implacável… em surdina… rouba-nos a vida.

Entre lágrimas e desespero… surge a saudade.

Milagrosamente, no leito de uma criança que nasce,

Uma estrela brilhante brilha mais intensamente

Sobre um berço, pobre ou rico, não interessa.

No seu intenso brilho… protege… porque…

Sempre que alguém morre sobe mais uma estrela aos céus.

Fortunata Fialho