Negro.

Negro

O negro desce sobre a terra e a luz perde-se no horizonte.

Um manto negro cobre tudo nas horas tardias.

No calor de uma lareira tosca de um pobre monte

Uma criança procura as estrelas através das vidraças.

Suas roupas são negras e as lágrimas correm no seu rosto.

Lá no alto as estrelas brilham como joias maravilhosas.

Uma brilha mais intensamente sempre que ele a olha,

No seu rostinho um sorriso se revela.

– Olha pai, é a mamã a mandar beijos.

Tinham-lhe dito que as pessoas não morrem,

Transformam-se em lindas estrelinhas no céu.

O seu coração brilhou por instantes soltando um desejo

– Vem ver-me todas as noites, brilha para mim…

Quero aceitar e devolver os teus beijos.

Um raio de luz surge, é o dia que se levanta.

Sob o parapeito da janela a criança adormeceu.

No seu rosto um sorriso brilha…

Tornando o coração do seu pai, que o observa,

Um pouco menos negro… e a dor esmoreceu.

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet.

À luz da poesia.

À luz da poesia.

À luz da poesia revelam-se sonhos e quimeras.

Como a chama de uma vela, sombras irreais criam magia.

Pelos olhos desfilam mundos fantásticos… (i)reais.

À luz da poesia não existe frio e o calor só acaricia.

Todas as sombras se enchem de luz e os corações brilham.

Brilham intensamente, irradiando inocência e esperança.

Iluminada por essa luz imensa sonho…

Sonho com mundos encantados, céus de mil cores,

Campos cobertos de diamantes gotas de orvalho.

Campos verdejantes até onde a vista alcança… e mais além.

Verdes salpicados de mil flores arco-íris… mágicas… fantásticas…

Riachos de águas frescas e cristalinas matam a sede.

Nas suas águas refrescam-se corpos envolvidos pela sua carícia húmida.

À luz da poesia os amantes são mais amantes,

A pele mas sensível, os beijos mais intensos.

E os orgasmos? Ai esses são puramente divinais.

À luz da poesia não tenho idade… nem fronteiras.

Sou pura e inocente como uma criança…

Sábia… vivida… feroz… protetora…

Doce e ardente como a paixão… despida de preconceitos e tabus.

Iluminada, as palavras soltam-se compondo belos poemas.

Textos poéticos de frases melódicas… doces… eternas…

À luz da poesia… algures… nasce mais um poeta,

Mensageiro de beleza… esperança e sonho.

Fortunata Fialho

História de uma noite.

                Um homem abre a carteira e subitamente uma embalagem de preservativos, não usada, cai. No seu rosto desenha-se um sorriso, na noite anterior não tinha sido necessária.

            Finalmente tinha saído com aquela criatura louca e exuberante que lhe despertava todas as sensações e o deixava louco de desejo. O grupo de amigos tinha-se dispersado e eles tinham ficado sós. Caminhando pela rua as suas mãos tinham-se unido e os seus corpos tocavam-se como que atraídos por um desejo não confessado.

            Um aguaceiro desabou sobre si e, encharcados, tinham-se refugiado no apartamento dela. Rindo ela indicou-lhe a casa de banho para que pudesse secar um pouco e tentou encaminhar-se para o quarto para mudar de roupa. Sem que pudessem evitar e porque os seus corpos não lhes obedeciam, permaneceram imóveis com os seus olhares fixos nos rostos que quase se tocavam. Os seus cabelos negros cobriam-lhe a testa e, afastando-os acariciou o seu rosto. Beijou, suave mas intensamente, aquela boca que tremia de desejo. As roupas deslizaram para o chão e os corpos uniram-se num só. Louco de desejo, sentou-a na mesa e tentou penetrá-la. Ela retraiu-se… que diabos!

             “É a minha primeira vez.”

            Não podia ser verdade!

            Uma ternura imensa invadiu-o e, pegando-lhe ao colo, levou-a para o quarto. Suavemente percorreu cada recanto da sua pele, com a sua boca, excitando todo o seu corpo. Suavemente acariciou o seu sexo e ela não se retraiu. Excitada e recetiva, ela deixou que a estimulasse e, quando a sentiu pronta, penetrou-a suavemente. Com movimentos lentos e carícias suaves fez todo o seu corpo vibrar de prazer. Finalmente o ritmo dos seus corpos aumentou explodindo num orgasmo imenso. Carícias lentas nos corpos cansados prolongaram aquele momento.

            Temendo acordar daquele sonho, envolveu-a num abraço e… adormeceram.

            Aquele preservativo continuou intacto.

Fortunata Fialho

Um sonho.

Um sonho.

            A noite cai e o sono instala-se. Cansado cai na cama e adormece quase de imediato. O dia foi desgastante mas não consegue esquecer a imagem da garota a quem cedeu passagem. O cheiro que dela emanava e o esvoaçar dos cabelos negros e brilhantes deixaram-no preso nesse momento.

            Tinha prometido a si próprio não se deixar envolver por nenhuma mulher, compromissos não estavam incluídos no seu projeto de vida. Mulheres só por um dia nada mais. Afinal um homem tem necessidades.

            Subitamente estava no centro comercial e a garota agradeceu-lhe com um sorriso. No seu olhar pareceu ler: segue-me. Ele seguiu-a.

            Entrou no mesmo restaurante e pediu uma mesa. Com a desculpa de estar tudo ocupado, perguntou-lhe se podia sentar-se a seu lado. Ela, com um sorriso, aceitou. No final da refeição já partilhavam as sobremesas. A conversa fluía com uma tremenda facilidade e a sessão da tarde, do cinema, foi vista a dois. Um braço apoiou-se nos seus ombros e ela não se desviou. No écran um filme de amor lamechas, outrora insuportável, tornava o seu serão bem melhor. Imaginem, ele a gostar de um filme para mulheres!

            O cinema terminou e ofereceu-se para a levar a casa. Segundo ele ficava em caminho. Aqui para nós, a caminho para o lado oposto da cidade.

            Na entrada da sua casa, em jeito de despedida, um beijo na face que, sorrateiramente, deslizou para o canto dos lábios.

            Nessa noite o sonho voltou mais intenso do que nunca. O beijo sorrateiro tinha-o incendiado e, agora sonhava, que num impulso ela tinha saboreado a sua boca. Primeiro timidamente e depois com toda a intensidade do desejo. Os seus corpos rolavam na cama fundindo-se e incendiando-se.

            Como tinha ido parar à cama o sono não lhe revelou, só soube que os seus corpos explodiram e todo aquele fogo se transformou num riacho de águas calmas. Nesse momento repousavam abraçados envoltos em suor e, nos rostos um sorriso de pura satisfação.

            O despertador tocou e o sonho acabou mas o sentimento de satisfação não terminou. A cama era a sua mas faltava alguém…

            Estava decidido, tinha de trazer o sonho para a realidade. Pegou no casaco e dirigiu-se para o outro lado da cidade…

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet.

Um bom politico.

escreversonhar

Nasceu
numa pequena aldeia do interior e tinha uma ambição maior que o mundo. No meio
era conhecido pela sua mente muito produtiva. Aquele Xico Aldrabas!…

Um dia resolveu tentar a sua sorte na grande capital. Depois de muitas portas se terem fechado por falta de habilitações, meteu-se na política e prosperou na vida. Era um encanto ouvi-lo discursar.Sábado o seu discurso deixou os seus conterrâneos boquiabertos.

– Caros contribuintes (fica sempre bem começar assim
um discurso) como sabem, neste momento o país está cada vez com menos ricos e
com muito menos pobres. A riqueza está bem dividida e em casa de todos existe
abundância, nós abdicamos de aumentos salariais para que os pobres recebam um
pouco mais…

Uma ovação soou no edifício e na taberna do Ti’Jaquim.

-Querem lá ver o homem, fala bem c’um caraças, até parece que a minha carteira ficou mais pesada. Ganda malandro!

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✒📕✏

… Hoje estou feliz. O sol brilhou e o dia correu muito bem. Não sei porquê, os alunos até estavam muito agitados e eu não me deixei afetar, até me ri de algumas das suas piadas. Numa das aulas, enquanto se trabalhava em grupo, surgiu uma conversa sobre uns calções de banho que tinham que ser comprados. Devia ser para Educação Física, segundo me apercebi. Um deles disse que não fazia diferença o que iria comprar pois usava sempre uns boxers por baixo. Toda a turma olhou com surpresa para ele e, eis que lá do fundo da sala, uma voz se fez ouvir. Um dos alunos ergueu-se e agitando uma das mãos como se estivesse solta diz:

– Há já entendi, tens é medo que quando te mexas, tudo lá em baixo se abane assim.

Eu bem que quis ralhar mas tudo o que consegui foi deixar sair uma sonora gargalhada, foi mais forte que eu. O conjunto entre gesto, expressão do rosto e frase foi hilariante. O riso foi contagiante e os únicos que se mantiveram em silêncio foram eles os dois, um porque não percebeu e o outro por não o ter dito como uma piada. Gostava que tivessem assistido.

Como podem ver, há dias em que tudo parece correr melhor e compensam outros bem mauzinhos. O certo é que hoje me sinto muito bem…

Fortunata Fialho

Hoje tomei conhecimento de uma crítica, inédita, por parte de um encarregado de educação: ‘’A professora é uma querida e os alunos adoram-na, só deveria ser mais dura e dar a matéria mais rápido’’ . Depois de já ter sido considerada tanta coisa menos agradável por parte de alguns pais esta deixou-me sem palavras, nem sei que conclusão tirar e estou a tentar perceber se a crítica é boa ou terá algo escondido. Como é bom alimentar o ego e estes miúdos são, eles sim, uns queridos, vou acreditar que é positiva. Oxalá não me venha a arrepender.   

Há alguns anos disseram, na minha cara, que o filho não estudava por não gostar de mim. Logo eu era a culpada. A condição para um aluno estudar é gostar do professor e os professores têm de fazer tudo o possível e imaginário para os alunos gostarem dele, não interessa ser profissional e tentar dar o seu melhor, tem é de ser um porreiraço e fazer tudo o que os alunos querem assim eles vão gostar e os pais ficam contentes.

Na primeira aula, um dos miúdos entra na sala a sangrar de uma mão. Momentos depois entram dois funcionários e uma pergunta: ‘‘Desculpe professora mas precisamos de saber. Quem partiu o vidro?’’ Depois de uma breve troca de olhares entre mim e o aluno este assume com a maior das facilidades que foi ele: ‘’Dei uma porrada no vidro para chamar a atenção lá em baixo e o vidro partiu-se’’. Depois de ver tantos a recusarem assumir culpas semelhantes, finalmente um tomou uma atitude digna e assumiu as consequências.

Noutra aula, depois de uma chamada de atenção a uma aluna mal comportada, a mesma em tom provocador fez-me a seguinte pergunta: Sabe quem é o senhor …? É o meu pai. Eu, vendo a intenção, respondi: Sabes quem é o senhor …? É o meu pai. E depois? A tentativa de intimidação com a figura paterna falhou. Talvez a sua atitude seja reflexo da atitude do referido adulto! Haja paciência, querem lá ver que agora tenho de conhecer os respetivos pais e, ainda por cima, para os temer. Devem ser os bichos-papão dos professores…

Fortunata Fialho

Saudade. “Simplesmente… Histórias”

Saudade, palavra que só o nosso povo entende, sentimento tão nosso, dor que dói sem saber onde. Quem ainda não a sentiu não consegue compreender.

Sentido de perda total, desespero por não a conseguir superar.

Hoje acordei com tantas saudades. Saudades daqueles que amo e já não tenho comigo. Saudades do tempo já vivido. Saudades de tantos bons momentos. Tantas saudades…

Como posso sentir tanta saudade?

Porque não consigo superar este sentimento?

Queria conversar com minha mãe, colocar-lhe todas as minhas incertezas e ouvir a sua opinião. Contar-lhe todas as novidades e desafiá-la na sua ideia de educação.

Somos tão diferentes mas, ao mesmo tempo, tão iguais. Ambas daríamos a própria vida pelos nossos filhos. Ambas colocamos a família à frente de tudo. Ambas amamos incondicionalmente.

Nunca mais esqueço o dia em que tinha acabado de entrar, em minha casa, e perguntou por nós. Quando soube que eu e o meu filho estávamos a tomar banho juntos disse:

“- Isto aqui já é uma democracia!”

A sua indignação foi notória, não era esse o tipo de educação que ela achava correto.

Sempre me foi mais fácil falar com o meu pai, mas esse ainda tenho comigo, com a minha mãe, devido à sua visão muito particular, era mais difícil criar um diálogo.

Por incrível que pareça, possuía um humor bastante característico com uma subtileza incrível, que não passava despercebido e nos atingia de uma forma acutilante.

Tenho tantas saudades… as lágrimas percorrem o meu rosto.

 Limpo, apressadamente, as lágrimas.

Não posso continuar assim.

Vou fingir que falo com ela. Vou ouvir as suas respostas, no meu coração, e vou sentir a sua presença.

Tenho tantas saudades tuas, minha mãe!

Tenho saudades de tanta gente…

Queria ter comigo o irmão que perdi tão precocemente e que a vida me negou de forma tão cruel. Como pôde roubar-mo? Tinha tanto para lhe ensinar, tanto para brincarmos tanto para partilharmos., nunca pude correr nem brincar com ele. Crescermos juntos e juntos, percorrermos o sinuoso caminho que é a vida.

Como teria sido tão bom ter um irmão da minha idade.

 Porque será que o tive de perder antes ainda de o poder desfrutar?

Quero o meu irmão de volta.

Quero parte da vida que não vivi.

Os dois teríamos estragado, duplamente, a reguila da mais nova com mimos. Talvez tivesse sido pior, ou não. Talvez devesse ser assim.

Preciso dos meus avós para me estragarem com mimos, para me dizerem o quanto eu sou o seu orgulho, para dizerem todos aqueles elogios que só os avós sabem dar.

Preciso de tantos entes queridos que já não estão presentes…

Quero matar saudades dos bons momentos que vivi.

Quero reviver felicidades antigas não esquecendo as atuais.

Quero tanta coisa que não posso ter…

Quero… não, queria, pois o passado nunca voltará a ser presente.

O passado será sempre passado e deixará sempre esta saudade.

Tanta saudade, no meu peito.

Tanta saudade…

Fortunata Fialho

“Quero um poema…”

Quero um poema…

Quero um poema que não chore, um poema que ria.

Quero um poema que cure, um poema feliz.

Um poema doçura, um poema inocência.

Quero acordar e rir como nunca ri,

Olhar um mundo sem sombra de dor.

Quero o poema inocente dos olhos de uma criança,

Luminoso como o sol que incendeia o ar,

Pálido e romântico como o luar.

Quero o mais belo poema jamais inventado,

Quero um poema orgasmo de amor,

Brincadeira de criança que sabe voar.

Quero… viver esse poema… sonhar com ele…

Nas suas mãos ser os versos, as estrofes…

E em êxtase… calmamente… rimar.

Quero um poema amor, um poema flor.

Viver nos olhos de um leitor, no sonho de um escritor.

Quero ser palavra… quero ser verso…

Quero ser o livro de poemas idolatrado,

Durante séculos nos lábios dos enamorados.

Quero um poema eterno de paz e felicidade imensa.

Quero um poema doce… terno… quente.

Ao mesmo tempo puro… inocente.

Um poema futuro, um poema esperança.

Um poema que iguale todas as gentes.

Um poema sem cor, um poema amor.

Fortunata Fialho

Tempo. “Poesia Colorida”

Tempo

O tempo não tem idade… não sabe onde nasceu.

O tempo é órfão e não sabe.

O tempo é Deus… é saudade…

É Fénix renascendo sempre que se fina.

É imortal… intemporal… eterno.

O tempo tarda… o tempo foge…

Espirito indomável… amante ciumento,

Possessivo, intenso… doce e terno.

Tempo dos amantes… terno e apaixonado,

Tempo dos inocentes… ingénuo e sonhador.

O tempo é criança traquina e apressado.

O tempo é velho… sábio e sensato.

O tempo é meu e não me pertence.

Traidor inclemente passa e não se detém.

Teimoso insensível, nunca volta atrás.

Lento e indolente, teima a tardar,

Rápido foge e não se deixa apanhar.

O tempo não tem tempo… que estranho!

Por vezes corre, outras é tão lento… que raiva!

Quero o meu tempo para te dar tempo,

Para isso preciso do tempo que o tempo não dá.

Tempo (in)justo, (in)clemente, padrasto… pai…

Acalma-te não te apresses, ainda tens muito tempo…

Sossega, descansa… passeia por aqui.

Tempo não me deixes… preciso de ti.

Fortunata Fialho