Uma viagem.

escreversonhar

Finalmente,
depois de muitas tentativas para o retirar de casa, fizemos as malas e partimos
rumo ao desconhecido.

Sem programa definido pois a caravana tinha tudo o que
necessitávamos, partimos.

Adoramos passear sem rumo, partir á descoberta, ir
onde a estrada nos levar, comer onde nos chegar a vontade e, sobretudo,
absorver tudo o que nos rodeia. Parar na berma para trocar um beijo e uma
carícia ou para conversar sobre o que nos der na real gana.

A estrada estava pouco movimentada o que nos
proporcionou tempo e descontração para observar as paisagens. Foi um prazer
desfrutar de vistas de cortar a respiração, respirar ar puro e sobretudo
estarmos sós sem condicionantes.

Ao almoço desgostámos umas migas de cogumelos, simplesmente
deliciosas, e ao jantar um cabrito assado no forno que fazia crescer água na
boca. Cansados decidimos escolher um recanto paradisíaco, longe de olhares e
ouvidos curiosos e indesejáveis…

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Sons.

Sons

O sol começa a raiar, oculta a noite que se retirou para descansar.

Ao longe soam os chilreios dos bandos de pássaros que acordam.

Rasgando o ar, o vento faz as árvores cantar.

Os insetos, cansados de tanto murmurarem na noite, dormem.

Outros se levantam ecoando músicas românticas,

Em simultâneo com bailados ricamente coreografados.

As flores murmuram à brisa promessas de amor

Em envelopes feitos de puro perfume selados de margia.

Uivam os lobos, ladram os cães, balem as ovelhas,

Cacarejam as galinhas, piam os pássaros…

Nos lares ecoam gargalhadas cristalinas de crianças.

Pés apressados soam nas calçadas,

Tamborilam correrias nas ruas da cidade.

Conversas apressadas, bons dias apressados… beijos de despedida.

Por todo o lado ecoam sons, uns a medo sussurrando,

Outros gritantes, estridentes, exuberantes…

Sons campestres… sons citadinos… sons de vida.

Sons da minha infância, premonições de futuro.

Sons da alma, sons de sonho, sonhos de amor.

Sons… simplesmente sons…

Fortunata Fialho

Alentejo

Alentejo…

Olho e sou rodeada por um mundo de cores envolto em suaves odores.

Planícies… não, telas coloridas surgem de todos os lados.

Alguns génios pintores brincaram com paletas de cores.

Pinceladas, sabiamente distribuídas, surgem sob o meu olhar.

Alentejo, terra verde e florida, abraçada por luminosos raios solares.

O sol sempre que nasce, perante tal beleza, oferece-lhes o brilho dos cristais.

Pelos campos correm riachos, chilreiam pássaros, pastam animais.

Ranchos de trabalhadores espraiam-se pelos campos.

Trabalhadores, alegres, brincam e cantam enquanto labutam.

Enfrentam o sol e o frio, corajosamente, sem um queixume, sem um lamento.

Alentejo de gentes felizes e valentes, de vinhas e cearas sem fim.

Terra de noites calmas ao som do silêncio dos campos.

Silêncio repleto de barulhos noturnos.

Alentejo terra tranquila, de quentes verões e gélidos invernos.

De riachos transparentes e alvas aldeias,

Onde cada porta se abre a quem vier por bem.

Terra de brandos costumes e corações imensos,

Onde com abraços, pão e vinho se acolhem as gentes.

Alentejo, terra linda, de gentes tranquilas e amáveis.

Meu berço… meu lar…. minha paixão.

Nasci no Alentejo… que sorte… que prazer…

Terra onde nasci… cresci… amei…

Terra onde desejo… um dia bem longe… morrer.

Fortunata Fialho

Surpresa.

Surpresa.

Surpresa… iniciou-se uma vida!

Um choro pertinente de quem se surpreende com a mudança!

Chora saudosamente um mundo perdido,

Chora de medo do novo mundo desconhecido.

Cada dia que passa o mundo cresce sobe o seu olhar,

Aprende a falar para poder aprender e questionar,

Aprende a gatinhar para o mundo alcançar.

Caminha para poder correr em busca de novidades.

Envolve-o um mundo de surpresas e desafios.

Surpreendentemente a criança está a tornar-se adulta,

De surpresa em surpresa o mundo conquista.

O mundo está a ficar tão pequeno!

Surpreendentemente descobre o universo!

Sonha em viajar pelo cosmos e ir além das estrelas.

Investe nos estudos e inventa naves para ir além da atmosfera.

Surpreende-se por não conseguir viajar… deixou o tempo passar.

A vida surpreendeu-o correndo depressa demais

E… em jeito de surpresa… surgiu a morte.

Os seus sonhos ficaram e… alguém um dia os irá concretizar.

Surpresa… toda a vida é uma eterna surpresa.

Fortunata Fialho

Sonhei…

Sonhei…

Sonhei… sonhei que o tempo tinha recuado…

Sonhei que estávamos todos juntos e… riamos.

Era outra vez adolescente e despreocupada.

No meio de um serão familiar foram lançados desafios.

Cada um dava o seu melhor mas eu só observava.

Quando todos esperavam pela minha participação

Levantei-me e declamei:

“Quero ser leve como uma pena e voar.

Passear pelo mundo sempre nos braços da brisa,

Pousar em cada sorriso de felicidade,

Beijar todos os lábios portadores de felicidade,

Acariciar todos os rostos felizes.

Quero ser palavra encantada… escutada…

Escutada por todos os ouvidos disponíveis,

Partilhada por todos os sonhadores, por todos os amantes.

Quero ser sentimento puro… sempre disponível.

Habitar em todos os corações expulsando o rancor,

Enchendo-os de amor, paixão e esperança.

Oferecer-me a todos aqueles que pratiquem o bem.

Quero ser alma e corpo amante,

Mergulhar no mar, cavalgar as suas ondas,

Rebentar em algum areal limpo e sem poluição.

Ser os lábios do mar docemente beijando a areia.

Finalmente, alisar uma cama de areia e finalmente…

Dormir feliz acariciada pelos raios solares.”

Ao verem como os meus olhos brilhavam,

E como o meu rosto irradiava felicidade…

Faltaram-lhes as palavras e sorriram.

Depois… depois não sei… acordei.

Fortunata Fialho

Sonho

Sonho

Sonho com campos em flor.

Flores de todas as cores.

Corro, danço e riu como uma criança.

Lindos pássaros chilreiam,

Todos eles são aves canoras.

As suas penas brilham como raios de sol.

Ao longe um riacho corre calmamente,

 O leito é tão transparente que, reflete tudo à

Sua volta.

Bebo da sua água, que é tão pura.

Tomo um banho refrescante e deito-me ao sol.

Sobre mim voam as mais lindas borboletas,

O seu voo é de uma graciosidade tal que me

parece assistir ao mais belo bailado de sempre.

A erva acaricia o meu corpo como se fosse seda.

Será que foi tecida pelos bichos-da-seda que

Habitam na amoreira da outra margem?

-Acorda dorminhoca é necessário trabalhar.

– Que sorriso é esse no teu rosto?

-Conta-me o teu sonho.

Fortunata Fialho

“Simplesmente… Histórias.”

Juntos tivemos partilha, vida, sonhos, vitórias… bons tempos.

Recordo a tua pele na minha pele, o teu sexo no meu sexo …

Parece que ainda sinto a intensidade dos nossos orgasmos e o êxtase dos nossos sentidos.

Sem limites dediquei-te toda a minha vida, toda a minha essência.

Vivi para os nossos encontros, para a intensidade dos nossos sentidos.

Nos teus braços esqueci-me de mim … eu não era nada sem ti.

No meio de muitas desculpas, disseste que o nosso tempo se gastou.

Não entendo como se pode gastar o tempo, o meu não se gasta.

Partiste … eu fiquei. Contigo levas-te o nosso tempo e, pensava eu, a minha vida.

Chorei a perda, chorei o abandono, chorei o desamor … chorei o nosso tempo.

Chorei até se me acabarem as lágrimas, e mesmo assim continuei chorando.

Continuo a amar-te mas, finalmente, revivi. Gastou-se o nosso tempo, não a minha vida.

Agora vou viver, talvez encontre outro grande amor… se não encontrar não importa…

Hoje o tempo é meu, finalmente recuperei-o. A minha vida, o meu tempo, já não és tu.

Hoje vou sair e divertir-me, flirtar, rir, amar, sentir o cheiro do mundo,

Escutar os sons da natureza, desfrutar do barulho do silêncio … viver o meu tempo.

Hoje vou obter o orgasmo dos meus sentidos e o êxtase da minha vida.

Hoje vivo o meu tempo, intensa e apaixonadamente. Não tenciono gastá-lo.

Caso se gaste o tempo não vou deixar que se gaste a vida. Vou continuar a viver, a sonhar e a amar.

Vou, eternamente, ser feliz e o tempo será só meu.

Fortunata Fialho

As estrelas brilham. “Quero um poema…”

escreversonhar

As estrelas brilham

Olho pela janela e o brilho das estrelas convida ao sonho.

Lá fora a noite envolve tudo em seu redor convidando os amantes.

Estou só! As horas passam e, finalmente a porta abre-se.

Sinto a tua presença e o meu rosto ilumina-se.

Continuo contemplando as estrelas e, ansiosamente espero.

O dia terminou e agora nada mais importa, o hoje já se foi e o amanhã ainda tarda.

O agora é só nosso e nada mais importa. Vem… faz o tempo parar.

As tuas mãos tocam os meus ombros e, lentamente, a roupa desliza pelo meu corpo.

O frio da noite mistura-se com o calor do teu corpo e estremeço.

Já não sinto frio, o calor invade a minha pele e… é tão bom.

Fecho os olhos e… sinto. Sinto o suave toque da tua pele… a carícia do teu respirar.

Quero mover-me e não consigo, o meu…

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Chove lá fora.

Chuva

Chove incansavelmente, os trovões ecoam e os raios iluminam a noite.

Longe vão os tempos em que o som da chuva batia na telha vã,

As crianças juntavam-se á lareira ouvindo histórias.

Adormecer embalada por tal sinfonia era delicioso.

Chove lá fora e brinco com as palavras,

O som da chuva é muito mais abafado mas embala.

Embala as letras e, num rio de águas calmas, as palavras surgem.

São tantas a precisarem de ser arrumadas… e eu arrumo.

Como trabalhadora diligente junto-as em frases,

Emparelha-as em parágrafos ou versos,

Guardo-as em caixas de textos ou de estrofes,

Armazeno-as nas prateleiras de livros.

Com ternura, mantenho-as limpas e arrumadas.

Não uso portas para todos as poderem ler.

Chove lá fora e as palavras nunca se acabam.

E eu brinco. Brinco de poeta, brinco de escritor…

Chove lá fora e aos meus ouvidos parece música.

No quentinho sonho que as gotas são palavras sopradas.

Sopradas por um ser mágico que me inspira e acaricia.

Chove lá fora e… eu sonho e escrevo.

Chove lá fora e, num doce embalar, premeia-me.

Presenteada com uma preguiça imensa

Arrumo as palavras e… vou dormir ao som da chuva.

Fortunata Fialho

Correndo contra o tempo

Quero ser livre, livre de amarras, livre de fronteiras… livre, simplesmente livre.

Livre no pensamento, livre nas decisões, livre no sentir… livre para amar.

O tempo passa… a vida avança e, lenta e sorrateiramente, aprisiona a minha liberdade.

Vida traiçoeira que muda tudo aquilo que sonho, vida madrasta, vida saudade.

Vida que modela o meu querer, o meu sentir… vida manipuladora… vida (in)justa.

Ingénua, deixo que me manipule, me comande mas, mesmo assim, me ensine a amar…

Vida… minha vida, vida que vivo, vida que amo e nunca vou querer abandonar.

Vida que adoro, vida que odeio, vida… minha vida, vida amor.

Pendeste-me, teceste, tal aranha, maravilhosa teia em que me enredo e me perco.

Deste-me amor, vida, sonho, ambição, alegria, porém, também tristeza e dor.

Roubaste-me muitos dos que mais amei e, em troca, deste-me aqueles que mais amo.

Sou uma prisioneira nas tuas garras e, engraçado, geralmente não me importo.

Teceste a mais linda e invisível gaiola e nela me encontro sem liberdade nem escolha.

Nunca pensei que vida era prisão, vida deveria ser liberdade, conquista, luta, sucesso…

Surpreendentemente, na minha prisão, sou livre. Amo, desejo, sinto, luto e… penso.

Já tentei a fuga… não consegui. A tua sombra envolveu-me e fiquei sem saída.

Teimosa, como só eu, continuei tentando… doce ilusão, tentativas vãs…

Em jeito de consolo as pessoas sempre me disseram: ‘’Filha é a vida, não a podes mudar!’’.

Agora sei… fugir da vida… só se morrer. Aprendi a aceitá-la e simplesmente viver.

A vida é mesmo assim e… ninguém disse que a vida tem de libertar.

Fortunata Fialho