Coisas que acontecem…

            Parece insólito mas, no outro lado da rua pasta uma grande manada de elefantes.

Ontem, quando voltava do mercado, carregada de sacos com hortícolas, um estrondo assustou os paquidermes. Creio que acreditaram que tinha sido eu a má da fita e investiram direito a mim. Assustada tentei abrir a porta de casa e, não sei se por medo ou nervosismo, as chaves eram sempre as erradas. Como foi possível o meu porta-chaves ter tantas chaves? Finalmente, quando estavam quase a alcançar-me, uma das chaves serviu.

            Infelizmente estavam tão próximos que começaram a placar a pobre porta. Eles empurravam de fora e eu, desesperadamente, empurrava por dentro. Por vezes uma tromba entrava e eu logo a empurrava.

            Vitória ou milagre, a porta fechou-se e os animais recuaram.

            Subitamente o interruptor do corredor começou a dar pequenos estalidos, espreitei e, surpresa, um bebé elefante usava a sua pequena tromba para acender e apagar a luz. Com ternura e paciência peguei-lhe ao col e coloquei o pequeno na rua para que se reunisse com a mãe.

            A calma tinha voltado, os elefantes estavam tranquilos e pastavam placidamente. Não é que soa um tiro e a saga continuou. Os desgraçados voltaram a investir e a minha porta voltou a sofrer placagens e encostos monumentais. Eu pedi ajuda a uma visita que tinha surgido e usámos os sofás como muralha e, lá estava eu segurando novamente a desgraçada da porta.

            Devem estar a perguntar-se se eles conseguiram invadir a minha casa e como consegui vencer tantos elefantes. Lamento, eu também não sei. É que entretanto… acordei.

Fortunata Fialho

No profundo silêncio da tua alma sussurras “quero” — O poeta e os outros poemas

No profundo silêncio da tua alma sussurras “quero” Na solidão que nos damos, silêncioApenas duas respirações cortadas por um beijoSuave, quente, que te nasce na nucaUm morder de lábios, aprisionando o desejo… No toque toda a destreza da perfeiçãoA brisa das vestes que caem subtilmenteUma a uma, lenta e desejavelmenteCada uma sincronizadamente beijada! Nudez da […]

No profundo silêncio da tua alma sussurras “quero” — O poeta e os outros poemas

O tempo será só meu.

escreversonhar

Juntos tivemos partilha, vida, sonhos, vitórias… bons tempos.

Recordo a tua pele na minha pele, o teu sexo no meu sexo …

Parece que ainda sinto a intensidade dos nossos orgasmos e o êxtase dos nossos sentidos.

Sem limites dediquei-te toda a minha vida, toda a minha essência.

Vivi para os nossos encontros, para a intensidade dos nossos sentidos.

Nos teus braços esqueci-me de mim … eu não era nada sem ti.

No meio de muitas desculpas, disseste que o nosso tempo se gastou.

Não entendo como se pode gastar o tempo, o meu não se gasta.

Partiste … eu fiquei. Contigo levas-te o nosso tempo e, pensava eu, a minha vida.

Chorei a perda, chorei o abandono, chorei o desamor … chorei o nosso tempo.

Chorei até se me acabarem as lágrimas, e mesmo assim continuei chorando.

Continuo a amar-te mas, finalmente, revivi. Gastou-se o nosso tempo, não a…

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“A soma dos nossos dias”

….

Numa conversa informal falou-se num miúdo que tinha problemas em se despir em frente dos colegas por ter o peito um pouco mais desenvolvido do que o habitual. Para seu desconforto os coleguinhas não perdoavam e apelidaram-no de menina. Nós sabemos que os jovens deste nível etário são bastante cruéis e que não perdoam estas situações. Eu recordei uma primeira aula, já há alguns anos, em que eu me dirigi a um dos alunos tratando-o como se fosse uma rapariga. O aluno ficou magoado e eu pedi, humildemente, desculpas pois não tinha sido propositado. Nas aulas seguintes tinha sempre muito cuidado, na forma como me dirigia ao mesmo, para não voltar a enganar-me. Este aluno tinha uma cara de menina, por sinal, bonita e até o seu físico era bastante afeminado revelando um desenvolvimento do peito igual ao das raparigas da sua idade. O jovem não tinha culpa, mas a confusão era uma constante, mesmo pela parte dos outros adultos. Para ele, a situação devia ser traumatizante.

Situações destas são muito mais frequentes do que se pensa e, nós adultos erramos muitas vezes sem qualquer intenção. Os miúdos aproveitam, quase sempre, estas situações para atingirem os colegas. É urgente investir em sessões que ajudem os alunos a aceitar e, sobretudo respeitar, as diferenças e não as usarem como arma de arremesso. Em casa os pais têm a obrigação moral de educarem os filhos para viverem em sociedade respeitando todas as pessoas como a eles próprios.

Quero um abraço

Quero um abraço.

Quero um abraço quente e apertado.

Um abraço consolo, um abraço amizade,

Um abraço paixão, um abraço amor.

Quero todo o sentimento num abraço de paz,

Num abraço de respeito… aceitação.

Quero um abraço sem cor, um abraço sem credo,

Um abraço partilha de puro amor.

Quero um abraço que cure, um abraço que dure.

Quero a eternidade num abraço,

No teu abraço… no meu abraço…

Que em todos os lugares se ofereçam abraços,

Se partilhem e passem de corpo em corpo,

Que essa partilha só termine no fim dos tempos.

Um abraço é um bem inestimável,

Saber abraçar é uma arte.

Quem abraça é o maior artista…

Que planta bondade em todos os corações,

Carinho em todos os olhares,

Amor em todo o ser vivo.

Quero o meu abraço especial… precioso,

Aceita o meu abraço… guarda-o no teu coração.

Fortunata Fialho

“A soma dos nossos dias”

Os miúdos de uma das turmas levaram uma caixa de sapatos quase cheia de rebuçados para uma atividade de Educação Moral e Religiosa Católica e, como era óbvio, sobraram imensos. Para onde tinham de vir? Para a minha aula. O regulamento interno diz que é proibido comer nas salas de aula. Eu bem que queria que assim fosse. Tarefa inglória, assim que voltava as costas lá se distribuíam rebuçados e só se ouvia o desembrulhar dos chamativos e apetitosos doces. Venceram-me e eu acabei por pedir, ou melhor exigir que não aparecessem papéis no chão. Até eu acabei por ter de aceitar alguns. Claro que não os comi, tenho que dar o exemplo, mas bem que me apetecia um. Resisti orgulhosamente marcando a minha posição, não comeria na sala de aula.

Um copo.

escreversonhar

Um copo.

Um copo meio cheio repousa na mesa do café.

Uma mão trémula hesita em lhe pegar.

No rosto um sorriso doce e idiota aflora.

Os raios do sol incidem no líquido e iluminam o seu rosto.

O sol, aprisionado no copo, é seu e brilha como nunca.

Ninguém sabe mas ele é a pessoa mais feliz do mundo.

Possui o maior tesouro do mundo… vai ser pai.

A esposa telefonou e a novidade chegou… são gémeos!

Devia estar assustado… dois de uma só vez… felicidade a dobrar…

Pelo rosto rola uma lágrima e cai no líquido que estremece.

Desiste… está feliz demais para beber.

Deposita o dinheiro na mesa e sai.

Precisa de ar, rir como um idiota, dançar e talvez gritar.

Gritar ao mundo que é feliz, que o mundo lhe pertence.

Vai ser pai… vai ser pai…

E o copo? O copo continua meio cheio numa…

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Neste momento

Neste momento

Neste momento o silêncio abraça-me e eu sinto a sua terna carícia.

Os pensamentos surgem em cascata e não consigo parar,

Recordo vivências passadas tentando compensar tristezas do presente.

Na sombra desta árvore, protegida dos raios solares que me teimam tocar

Usando o espaço vazio entre as folhas presenteiam-me com subtis carícias,

A cascata de pensamentos formaram um rio de saudades.

Por entre os segundos que passam rolam coisas que o meu coração sente.

Infelizmente algumas boas recordações evaporam-se.

Preciso que as chuvas mas tragam de volta… urgentemente!

Felizmente o vento compreendeu o meu olhar e soprou.

Soprou felicidades do presente e sonhos realizados,

Envolveu os meus cabelos numa sensação de plenitude.

Recordo risos apaixonados, gargalhadas ingénuas,

Beijos ardentes, beijos babados… abraços apaixonados.

Neste momento o sorriso volta e os olhos brilham.

O vento sopra-me ao ouvido: Aproveita o presente,

Vive, ri, ama, sonha… orgasma de felicidade os teus dias.

O sol brilha, o vento acaricia, o futuro promete…

Levanto-me e caminho, sorriso ao sol, agradeço ao vento.

Olho o rio, antes de saudades, cheio de esperanças e sonhos,

Danço com a vida e faço amor com a vida.

Neste momento o mundo é o meu limite e a tristeza passado.

Neste momento eu sou mais eu e a felicidade em mim habita…

Fortunata Fialho

Um simples toque

Um simples toque.

Sentada num banco de jardim apreciava a paisagem. A calma e dourada planície era como um bálsamo, o dia tinha sido demasiado stressante e estava cansada.

Não o ouviu chegar… o silêncio era tão bom!

Subitamente um toque, os seus dedos no seu pescoço rolavam suave e delicadamente. Uma suave caricia percorria o seu corpo. Fechou os olhos e uma onda de prazer avançou em si como as ondas, de um mar calmo, se espraiam pela areia. Todos os seus sentidos se concentraram naquele toque. O seu corpo tornou-se areia e aquele toque o seu mar, calmo e dócil, mas fresco e reconfortante.

Encostou a cabeça naquele peito quente e o bater daquele coração soou como acordes celestiais. Cerrou os olhos, queria sentir sem pensar. Como era boa aquela sensação! Como desejou que aquelas mãos descessem pelo seu corpo e a abraçassem terna e firmemente, que aqueles lábios percorressem o seu corpo e despertasse toda a volúpia escondida em si.

Já não era dona de si mesma, só queria ser dele, fazer parte dele. O seu corpo ansiava por aquele corpo que se vestia com a sua pele.

Nas imediações não se via viva-alma e o arvoredo escondia-os de quem passava… estavam completamente sós.

Lentamente os botões do seu casaco soltavam-se revelando parte de uns seios que revelavam a sua excitação através dos mamilos que se elevavam sob o cetim da sua blusa.

Queria pedir mais mas não conseguiu, uns lábios macios e quentes calaram o seu som, absorveram as suas súplicas. Respiração com respiração, língua com língua, nada mais existia, compreendiam-se sem necessitar falar.

Protegida dos olhares indiscretos no seu jardim particular, perdeu a noção da realidade.

Lentamente as suas roupas deslizaram para o chão misturando-se com as dele.

Quatro mãos num corpo só, tateavam cada poro desses corpos unos e nus. E aquele toque! Como era divinal e como a fazia vibrar de prazer.

            As carícias percorriam o seu corpo sem deixarem um pedacinho de pele por acariciar. Como que impulsionada por magia as suas mãos percorriam aquele corpo que a enlouquecia. No seu baixo-ventre uma onda de desejo pedia mais… o toque daquele membro viril enlouquecia-a.

            Sofregamente abraçou-o e beijou-o como que suplicando por mais… muito mais. Delicadamente, ele elevou-a e sentou-a no seu colo. Inevitavelmente os seus corpos uniram-se e os sentidos mandaram. Não conseguia pensar, só sentir aquele prazer e devolvê-lo com toda a intensidade do seu desejo.

            Ondulando ao sabor do prazer, primeiro como em águas calmas, depois num mar tempestuoso, os corpos perdiam-se de si próprios. As carícias sucediam-se de uma forma louca, animal e instintiva. Só o prazer importava, só eles existiam. O suor percorria os seus corpos. Um odor animal pleno de aromas emanados da paixão e do desejo fazia inveja ao perfume das mais aromáticas flores que os rodeavam.

            O ritmo aumentava e sons de prazer ecoavam pelo ar. Puros e sem maldade, simplesmente impulsionados por um amor verdadeiro e uma paixão incontrolável, donos do seu sentir deixavam-se levar, ou melhor, elevar ao infinito.

            Finalmente explodiram num orgasmo intenso, um orgasmo a dois. Incapazes de controlar os seus corpos sentiram todo aquele prazer imenso, prazer que nunca pensaram poder sentir.

            Esgotados e realizados continuaram abraçados trocando carícias, agora sem desejo mas sim com uma ternura imensa. Recusavam-se a voltar à realidade, queriam prolongar eternamente aqueles momentos.

            O arrefecer do suor dos seus corpos e a sensação de frio que os envolveu, recordou-lhes a ausência das suas roupas. Rindo como duas crianças vestiram-se e, abraçados, permaneceram naquele banco observando a paisagem e sentindo o conforto que só o amor pode dar.   

Fortunata Fialho