Minha querida caneta.

Minha querida caneta.

Não sei que me deu quando resolvi abrir a gaveta.

No fundo, um pouco esquecida repousava uma caneta.

Coitada, com o tempo foi substituída por esferográficas.

Linda, elegante e artística, sorria e pedia para ser usada.

Tinha sede e ao tinteiro a levei a beber.

Agradecida acariciou a minha mão e disse ao meu ouvido:

Vamos passear no teu esquecido caderno.

Convite aceite. Há tanto tempo que nele não escrevia.

Na folha em branco, letras lindas surgiram.

As palavras sucederam-se num ritmo em crescendo,

As linhas ganharam vida enquanto o aparo bailava.

E a caneta escrevia sobre o sol que nascia,

Sobre as folhas que esvoaçavam, sobre o riacho que corria.

Descrevia o riso das crianças, o trinar dos pássaros,

O zumbido das abelhas e o murmurar das searas.

Escreveu sobre os amantes que se beijavam,

Sobre as carícias que trocavam e os orgasmos que gritavam.

Segredou-me as mensagens que o vento lhe contou…

Pediu-me segredo sobre as confissões dos amantes,

Sobre traquinices das crianças e sobre todos os beijos roubados.

Relatou-me viagens fantásticas, paisagens exuberantes e…

Juntas cavalgámos as ondas, abrimos asas e voámos.

Ensinou-me a olhar as estrelas no seu leito negro.

E esse negro nada era mais do que um manto de diamantes.

Minha querida caneta como te pude esquecer?

Prometo-te… a partir de hoje não mais deixaremos de passear

E no nosso caderno, juntas continuaremos a sonhar.

Fortunata Fialho

Loucos.

Loucos

Loucos, são loucos e acham-se grandes e justos.

Loucos que, em nome do bem comum, destroem tudo.

Homicidas em nome de um Deus maior,

Conquistadores em busca de fortuna.

Constante busca de glória envolta em tiros e violência.

Desprezam a vida e substituem-na por cinzas.

Tapam o sol com fumo negro e cheiro a morte.

Distribuem lágrimas envoltas em agonia.

Tomam para si bens que não lhes pertencem,

Empobrecem a humanidade e congratulam-se.

Loucos… tão loucos…

E são idolatrados… apelidados de heróis…

Heróis do nada, heróis da morte, heróis do desespero.

E o mundo recua… defina lentamente.

E as crianças choram apavoradas em busca de um colo…

De um colo que já não existe.

E as mães gritam por esposos e filhos que jazem no solo,

Aguardando respostas que jamais virão.

Loucos, insensíveis, cegos pela ira e ignorância.

Loucos e manipuladores que enviam para a morte,

Que mandam inocentes matar outros inocentes,

Que semeiam ódio e violência nas mentes em formação.

Loucos… cada vez há mais loucos…

Fortunata Fialho

Feliz dia da Poesia _ Uma guerra interessante.

Uma guerra interessante.

Num reino branco distante

Um lápis e uma borracha guerreavam.

O lápis rabiscava, a borracha apagava.

O lápis corria, rodopiando em eterna fuga.

A borracha perseguia e apagava.

Na sua fuga o lápis a folha riscava,

Em perseguição a borracha apagava.

A corrida tornou-se vertiginosa,

O lápis parecia o vento forte,

A borracha tropeçava.

O lápis saltava, voava e aterrava.

Subitamente perdeu o bico.

A borracha foi definhando.

Um afia apareceu e ao lápis o bico devolveu.

Á borracha, pobre borracha, ninguém lhe valeu.

Com o tempo o lápis também se gastou,

A borracha quase faleceu.

Cansados e moribundos pararam,

Sem folgo para trás olharam.

Como podia tal ter acontecido?

Sob o seu olhar o mais belo poema…

Poema de amor e paz,

Poema de ajuda e partilha,

Poema maravilha… belo, de encantar.

Olhando um para os outros ambos sorriram,

Finalmente, lápis e borracha puderam descansar.

Fortunata Fialho

Feliz dia da Mulher.

Diziam…
Outrora os velhos diziam, “ Mulher séria não abandona a família “
Outrora as mulheres diziam, “Quem manda é ele”
Outrora o povo dizia, “Entre marido e mulher ninguém meta a colher”
E as pessoas não falavam do suplício em que viviam.
Tinham vergonha e assumiam tudo como sendo o destino.
E o destino manipulava, manietava e maltratava.
O futuro não existia, o presente era imutável.
E uma mulher disse, “Vou quebrar as amarras”
E muitas mulheres a seguiram lutando.
O povo criticou, hostilizou e disse, “ Desenvergonhadas”
Elas fingiram não ouvir e continuaram.
Os homens assustaram-se e tentaram pará-las.
Então um disse, “ Ganharam o meu respeito”
E a ele outros se juntaram e novamente coabitaram.
E o povo disse, “Os tempos estão mudados” e tiveram medo.
Mulheres e homens, num tempo de mudança, evoluíram.
As crianças cresceram e aprenderam o respeito mútuo.
Nas casas predomina harmonia e respeito.
E o mundo disse, “Fim com a violência doméstica”
E as autoridades tiveram de agir.
E o mundo exigiu, “ Que se respeite todo o ser humano”
E alguns assustaram-se e disseram, “No meu tempo é que era bom”
E o mundo respondeu, “Os tempos mudaram e todos somos iguais”
E eu, que sou mulher, digo, “Ninguém me irá inferiorizar”

Fortunata Fialho

Paz

Paz

Porque existem loucos neste mundo?

A pandemia não chegava?

Onde está o “Vamos ficar bem”?

Escondem-se os arco-íris… solta-se a morte.

Perde-se o brilho e os sorrisos…

Chegam as lágrimas e o desespero.

Irmãos contra irmãos sem perceberem o motivo.

Lutam por ordem de um lunático que se refugia na sua sombra.

Impera a loucura e o desejo de grandeza…

Matam-se e mutilam-se inocentes… destroem-se vidas.

Todos os povos gritam pela paz… inclusive muitos dos que guerreiam.

Pelos céus perdeu-se o azul… o vermelho e o cinzento o substituíram.

Pelas ruas correm rios de sangue e de lágrimas…

Pelos ares ecoam gritos, choros e lamentos…

As casas explodem em mil cacos…

Levando consigo vidas e sonhos…

As crianças que crescem e nascem merecem o futuro.

Calem-se as armas e distribuam-se amor e esperança,

Beijos e abraços, flores e esperança, risos e felicidade.

Que os olhos das crianças só brilhem de alegria,

Que pelos céus só voem aves e soprem ventos de bonança.

Que a paz vença e a guerra se torne tempo passado.

Fortunata Fialho

Tudo igual

Tudo igual.

Entrou o novo ano, sucederam-se as celebrações…

Depois de umas horas de sono… surpresa!

Tudo continua igual… nada mudou.

As guerras continuam, os pobres continuam pobres,

Os ricos estão cada vez mais ricos.

Os atentados continuam… mesmo na passagem do ano.

Constatar este facto dói… dói muito…

Como é possível que o ser humano esteja cada vez mais desumano?

Como é possível que não exista consciência?

Como pode a ambição sobrepor-se ao amor?

Como podem existir pedras em vez de corações?

É tão fácil respeitar o próximo e aceitar as diferenças.

É tão difícil arranjar formas de magoar e matar!

Todo o mal que fazemos vai virar-se contra nós.

Estamos a destruir o nosso mundo rápida e implacavelmente.

Está tudo igual e, como eu gostava que estivesse tudo diferente!

Que bom é observar a beleza que nos rodeia,

O sorriso nos rostos, a doçura nos olhares,

O perfume das flores, o trinado dos pássaros,

O chamamento das baleias…

Que bom é beber a água pura e cristalina dos riachos.

Tudo está igual e eu quero que tudo fique diferente… melhor…

Fortunata Fialho