"Simplesmente… Histórias"

Nostalgicamente ouço a chuva cair, lenta e incessante cobre tudo á minha volta. O sol retirou-se e as nuvens cinzentas tapam toda a alegria dos seus raios. Cá dentro impera o silêncio, tal como o dia os nossos semblantes estão taciturnos. Faz falta um raio de sol para iluminar os nossos rostos.

Como é possível que a chuva nos consiga deprimir tanto?

Enrolados numa manta falamos de trivialidades, do tempo, da vida, do futuro… no estado da vida em geral. Fazemos planos e confrontamos os nossos sonhos. Tantos sonhos ainda não realizados… não faz mal, ainda temos muito tempo.

Chove lá fora e aconchegamo-nos um ao outro, tanta cumplicidade, tanta ternura…

Que foi? Porque me olhas assim?

Já não posso?

Que bom. Ainda nos olhamos com prazer apesar de terem passado todos estes anos. Uma vida em comum que não trocaria por nada deste mundo. Tantos amigos com casamentos desfeitos e o nosso tem sobrevivido com carinho, amor e muita cumplicidade. Não somos prefeitos, mas temos sido perfeitos um para o outro. Tanta perfeição no meio de todas as nossas imperfeições. Imperfeitos mas felizes.

Chove lá fora, as beiras correm e a noite é escura e triste. Aqui, no aconchego do lar, somos um só. Falamos sem palavras, comunicamos pelo toque. Aconchegando-nos no quentinho falamos baixinho, comentamos trivialidades. Trivialidades tão importantes para nós.

Que se lixem as coisas importantes, a vida é feita de coisas pequenas e triviais que se transformam em pequenos grandes sucessos, nos nossos sucessos.

Continua a chover e é tão bom este silêncio. Não há lua mas as estrelas brilham no nosso olhar. Apago as luzes, na televisão passa um filme antigo, um filme muito bom por sinal. O tempo passa… adormeceu… não me vou mover, vou deixar que durma encostado ao meu ombro. É tão bom velar o seu sono. Aconchega-se melhor… parece sonhar, no seu rosto desenha-se um sorriso, deve ser um bom sonho… não o vou perturbar.

As horas passam e a chuva não se cansa de cair. O filme termina e eu não me novo, não quero interromper o seu sono. Penso na sorte que temos em nos termos um ao outro. Por vezes discordamos e até nos desentendemos mas nunca por muito tempo. São mangas breves passageiras. Quem não se zanga de vez em quando? Não somos diferentes de ninguém… não somos iguais a ninguém.

Irra que chuva chata, não para nem por nada. Espero que amanhã faça sol, nem que seja por breves momentos, o sol faz-me tanta falta…

Acordou.

Amor vamos para a cama?

Fortunata Fialho

Saudade. "Poesia Colorida"

Saudade

Sou portuguesa… no meu peito habita a saudade.

Saudade dos tempos de infância e de toda a minha inocência.

Saudade do colo da minha mãe, o meu lugar seguro.

Saudade da sua voz, do seu cheiro… do seu humor tão próprio.

O tempo passa… a saudade aumenta.

As lágrimas diminuíram mas… a dor não.

Saudade dos dias despreocupados… sem obrigações.

Saudade dos tempos que já não voltam,

Das aventuras que vivi e… das que não pude viver.

Saudade da juventude que lentamente teima em me deixar.

Saudade dos nossos passeios, de mãos dadas, sem rumo.

Como era bom poder sonhar com o futuro,

Idealizar a nossa vida a dois, amar, sentir e sonhar.

Saudades dos amigos que perdi… o tempo os levou…

Saudades da infância dos nossos filhos,

Das suas gargalhadas felizes, das suas doces carícias,

E até das suas birras sem sentido.

O tempo passou e eles cresceram… inevitável!

Saudades daqueles que a morte me levou…

Dizem que mais tarde os encontrarei.

Não sei… será que é verdade?

Saudades… tantas saudades…

Saudade do tempo em que não tinha saudade.

Fortunata Fialho

Sinto. "Quero um poema…"

Sinto.

É noite e eu sinto… sinto que o tempo não para,

Que o silêncio invade o meu pequeno mundo,

Lenta e sorrateiramente, avança e rouba-me as palavras.

Sinto que o sol se escondeu e o escuro acaricia a minha pele.

Como um amante, terno e apaixonado, percorre o meu corpo,

Invade todos os meus sentidos e… eu gosto.

Fecho os olhos e reconheço o seu toque, o seu cheiro…

E como cheira o silêncio!

Cheira a ti e nele me perco para me encontrar.

Nele não, em ti me entrego, em ti me encontro.

Levemente depositas um beijo nos meus lábios.

Entreabertos pedem mais e mais…

Todos os beijos do mundo… todos os teus beijos…

Com o teu toque de seda percorres o meu corpo.

Aquieto-me e sinto… sinto que o amor existe.

Sinto que a paixão não é uma quimera… é real.

Que toda eu sou fogo, paixão… sentidos.

Sinto que ainda vivo… que ainda desejo…

Perdida neste mar revolto de sensações, deixo-me ir… vir.

Não sou dona do meu corpo, não és dono do teu.

Somos unos… propriedade da paixão.

Sinto… é noite e eu sinto…

Paixão… desejo… realização.

Sinto… só sei que sinto… sentimos.

Fortunata Fialho

Quero um abraço.

Quero um abraço.

Quero um abraço quente e apertado.

Um abraço consolo, um abraço amizade,

Um abraço paixão, um abraço amor.

Quero todo o sentimento num abraço de paz,

Num abraço de respeito… aceitação.

Quero um abraço sem cor, um abraço sem credo,

Um abraço partilha de puro amor.

Quero um abraço que cure, um abraço que dure.

Quero a eternidade num abraço,

No teu abraço… no meu abraço…

Que em todos os lugares se ofereçam abraços,

Se partilhem e passem de corpo em corpo,

Que essa partilha só termine no fim dos tempos.

Um abraço é um bem inestimável,

Saber abraçar é uma arte.

Quem abraça é o maior artista…

Que planta bondade em todos os corações,

Carinho em todos os olhares,

Amor em todo o ser vivo.

Quero o meu abraço especial… precioso,

Aceita o meu abraço… guarda-o no teu coração.

Fortunata Fialho

Deixa-me ser poesia.

Deixa-me ser poesia.

Deixa-me ser poesia…

Escreve-me de todas as formas.

Escreve-me com beijos e rima-me com carícias.

Transforma os meus gemidos em poemas,

Envolve meus seios em quadras,

Transforma o meu ventre em sonetos.

Destrói os meus medos em sátiras,

Chove-me em gotas de rimas.

Transforma as minhas lágrimas em poemas de amor,

Os nossos orgasmos em vulcões de odes ao divino.

Os momentos mortos em poemas de paixão,

Os dias em epopeias versejadas,

Os segundos em viagens de poemas.

A vida em enciclopédias poéticas,

A dor em poema triste,

A felicidade em declarações poéticas.

Ama-me em ondas de poesia,

Segredo-me aos ouvidos poemas divinos.

Beija-me com palavras de amor.

Envolve-me em ti, minha poesia.

Torna-te o meu eterno poema apaixonado,

O meu poema eroticamente sonhado…

Deixa-me ser para sempre a tua poesia…

Fortunata Fialho

Caminhar…

Caminhar…

Na infinita sucessão dos dias melancolia e felicidade caminham lado a lado.

Melancolia observa o nascer do sol com lágrimas nos olhos,

Felicidade sorri com todo o esplendor do seu colorido.

E os dias caminham sem se deixarem travar… sucedem-se…

Rumo ao infinito inalcançável sem se cansarem.

Melancolia recorda os tempos passados e tenta olhar para trás.

Pobre melancolia, o passado já não pode enxergar.

Felicidade tenta ver o futuro que se oculta no horizonte.

Pobre felicidade, a impaciência não para de a atormentar.

Os dias sucedem-se, tomam-se anos… séculos.

A idade não os afeta, nunca envelhecem… não lhe é permitido.

 Melancolia tem saudades do passado… entristece.

Pobre melancolia, precisa da felicidade para a amparar.

Felicidade envolve-a num abraço que enternece,

Beija-lhe o rosto… limpa-lhe as lágrimas…

Fala-lhe de amor e esperança, canta com voz de veludo,

Canções de paixão e de sonho… plenas de esperança no futuro.

Melancolia e felicidade apaixonam-se e, entre abraços e beijos,

Caminham de mãos dadas rumo ao futuro lentamente,

Sem pressa aproveitam o momento,

E cada nascer-do-sol é o mais belo… e cada pôr-do-sol o mais radiante.

Fortunata Fialho

Rir "Simplesmente…Histórias"

Rirmos juntas foi tão bom… rir de felicidade… rir de verdade.

Sim ri, e em casa todos ouviram e riram também. Rimos… que bom!

Quero rir sempre assim, hoje… amanhã… sempre… rir, sim só rir…

Quero secar meus olhos, fechar esta cascata, triste e sombria.

Tenho que sorrir, deixar o sol entrar, secar estas lágrimas de sangue.

Quero ser feliz, quero acalmar minha dor, quero… ser feliz.

Meu Deus como quero, como tento… já consigo rir por entre as lágrimas.

Como seria bem mais fácil se pudesse ser novamente criança.

Fortunata Fialho

Egoístas…

Egoístas…

            Tão egoístas que as pessoas são! Teimam em querer prender nesta vida aqueles que amam mesmo sabendo que o seu sofrimento é atroz. Não veem que a morte será uma bênção? Egoístas, são uns egoístas.

            Então porque choro por todos os que perdi e teimo em desejar tê-los de volta? Não sou egoísta mas choro. Quero todos de volta, quero abraçá-los, dizer-lhes o quanto preciso deles. E choro… choro com a impossibilidade de que isso aconteça.

            Insensíveis pedem a Deus que os não leve, que os não deixe partir. Loucos insensíveis!

            Então porque choro? Porque sangra tanto o meu pobre coração? Não… não sou egoísta, mas choro como todos os egoístas… não sou egoísta…

            Mundo de egoístas não querem abrir mão de quem amam.

            E eu? Eu também não quero! Quero junto a mim as mesmas pessoas que eles. Também não quero que partam.

            Então se não sou egoísta eles também não são… ou serei eu uma grande egoísta?

            Choro as minhas perdas e as perdas deles que, no fundo, também são minhas. Choro e também pergunto porquê eles… porque será Deus tão injusto e permite tanto sofrimento?

            Perdoem-me todos os crentes mas tenho tantas dúvidas. Como posso esquecer que deixou dois inocentes netos assistirem à morte de uma avó que tanto amavam.

            Egoísta… sim talvez eu seja egoísta mas choro e o tempo só consegue silenciar o meu choro mas não seca as minhas lágrimas.

            Egoístas… somos tão egoístas…

Fortunata Fialho

Melancolia.

Melancolia.

Olho pela janela e, de repente, uma rajada de vento agita as árvores.

Algumas gotas de chuva caem, tímidas e quentes, levantando poeira.

Ao longe as árvores cobrem-se de mil tons amarelados,

O verde viçoso e brilhante esconde-se envergonhado.

As folhas entristecem e, numa tentativa vã de desespero, escurecem.

Onde outrora o verde era rei agora o amarelo outonal lidera.

O verde não se deixou derrotar e renasce em cada tronco de árvore,

Em cada pedrinha sombria e até no solo húmido.

Um viçoso musgo cobre de tons esverdeados os mais recônditos lugares.

A chuva cai cada vez com mais intensidade mas isso não importa.

O seu molhar ainda é ligeiramente quente e retemperador.

Afinal quem não gosta de caminhar à chuva,

Sentar-se num tronco de árvore e admirar as paisagens?

Sentir na pele o doce contacto da água, fresco e reconfortante?

Sentir o suave toque do musgo que se agiganta, cobrindo tudo em seu redor.

O vento acorda e fustiga o arvoredo soltando as pobres folhas cansadas.

Agora a chuva não é só água, é também chuva de folhas.

Ao longe avistam-se alguns troncos nus que se tentam cobrir de musgo.

Pudicamente, tentam esconder a sua nudez. Tarefa inglória…

É outono e os amarelos pintam as paisagens.

Numa infinidade de lindos tons cobrem tudo o que a vista pode alcançar.

O verde era mais belo? Não sei, o amarelo é deliciosamente tranquilo… encantador.

É outono, os troncos cobrem-se de musgo e o chão de folhas mortas.

Chove cada vez mais e o meu coração é inundado de melancolia…

Doce e terna melancolia que, mesmo assim, me faz feliz.

Fortunata Fialho

Deixa para lá…

Deixa para lá

Se a vida te prega uma partida deixa para lá.

Tenta pagar-lhe da mesma moeda,

Troca-lhe as voltas, levanta-te e sorri.

Não lhe mostres as lágrimas, por vezes ela é má.

Nos bons dias proporciona-te boas surpresas,

Premeia o teu esforço de formas que nem imaginas.

Presenteia-te com o mais lindo raio de luz,

Com as estrelas mais brilhantes,

Com os perfumes mais inebriantes,

Com a felicidade de um sorriso que seduz.

Se a noite é tenebrosa e negra deixa para lá.

Procura a lua e pede-lhe as estrelas.

Projeta a luz das tuas lanternas,

Rasga-a com belos raios de luz.

Pinta-a de lindas estrelas brilhantes,

Salpica-a de pingos de intensa luz.

Terás o céu mais brilhante e…

No teu rosto brilhará a felicidade.

Se a tristeza te bater à porta deixa para lá.

Busca a felicidade, procura o amor,

Veste as roupas mais bonitas e sai.

Baila com todo o teu furor…

Percorre os campos floridos,

Lê o livro que reclama na estante,

Viaja nas suas páginas e adormece feliz.

Fortunata Fialho

Postais antigos.