Crónica de um mexerico.

Crónica de um mexerico.

Sim, não tomei conhecimento por terceiros, eu estava lá quando tudo começou.

Era um final de dia em que o calor teimava em não amainar, subitamente a porta abriu-se e eles entraram. Estavam cobertos de suor mas pareciam pessoas honestas. Eram desconhecidos no bairro e procuravam alguém de quem não consegui ouvir o nome. O empregado pelos vistos também não conhecia essa pessoa pois a resposta foi curta e simples “Nunca conheci esse senhor, não deve ser desta zona”. O assunto parecia ter terminado ali, as pessoas agradeceram, olharam em redor e saíram.

No dia seguinte passei por um grupo de vizinhos que me olharam de forma estranha. Sem me importar segui caminho quando, subitamente, me tocaram no braço e perguntaram “É verdade que ontem uns sujeitos, de aspeto duvidoso, ameaçaram as pessoas no bar por não lhe terem dito onde morava a pessoa por quem perguntavam?”.

A minha surpresa foi total, de onde tinha vindo toda esta conversa?

Amavelmente desfiz o equívoco e expliquei o que realmente tinha presenciado e segui caminho, pensava eu que tudo tinha ficado esclarecido. No dia seguinte a campainha da porta tocou, um agente da autoridade identificou-se e pediu para eu lhe contar o que se tinha passado pois tinha recebido uma queixa de que uns indivíduos suspeitos andavam rondando o bairro e os moradores andavam assustados. Supostamente eram os mesmos que eu tinha visto no bar.

Era uma realidade, as pessoas tinham-se transformado em bandidos perseguidores altamente perigosos. Pobres criaturas que nunca mais tinham aparecido no bairro nem nas imediações.

Perante toda esta confusão provocada pelos mexericos de quem não tem mais nada a fazer, se me perguntarem se a língua do povo é perigosa para o coitado que for seu alvo, eu diria, sem hesitação, que sim.

Fortunata Fialho

Natal sem sorrisos.

Natal sem sorrisos.

            Num país não muito distante, numa cidade ou aldeia como tantas outras, um grupo de crianças esperava ansiosamente pelo Natal. Os pais, numa azáfama contínua, preparavam diligentemente as festividades. Escolhia-se o pinheiro mais frondoso que lhes pudesse fornecer o ramo mais bonito para ser a sua árvore de Natal. Compravam-se enfeites, enfeitavam-se as casas, confecionavam-se doces especiais e planeavam-se os encontros em família. No ar viajavam aromas que faziam salivar de antecipação o palato de qualquer um.

As crianças espreitavam por todos os cantos das casas na busca desesperada por indícios dos seus presentes. Onde estariam escondidos? Só iriam levantar um pouquinho o papel para espreitar ou chocalhar a caixa e escutar na tentativa de adivinhar o que tinham dentro.

            Não muito longe, num qualquer gabinete, um governante do alto do seu pedestal decidia sobre o futuro de uma nação que podia muito bem ser a nossa. Seguro da sua segurança, longe do centro de qualquer conflito decidia começar as hostilidades com um outro país vizinho, declarou a guerra.

            Faltavam poucas horas para as festividades e olhinhos sonhadores perscrutavam as estrelas tentando vislumbrar o trenó do Pai Natal. Entre risos e brincadeiras inocentes um deles gritou:

            – Olha estrelas cadentes. Talvez sejam os olhos brilhantes das renas. É o Pai Natal com os presentes.

            Todos saltaram de contentamento gritando de alegria e, entre risadas e nervosismo, aguardaram.

            O barulho era estranho e ensurdecedor, as estrelas cadentes caíram, explodiram sobre as suas casas, sobre as suas cabeças… Nas ruas abriam-se crateras, as casas desapareciam envoltas em fogo, gritos de angústia ecoavam pelos ares. De olhares atónitos e incrédulos não percebiam o que se estava a passar.

Algumas das crianças desapareceram… pulverizaram-se. Outras fugiram de encontro… à morte. O sangue cobria as ruas e os seus pobres corpos, os seus familiares não os puderam proteger e, agora, nunca mais os poderiam confortar.

De início choraram depois, as lágrimas secaram, desapareceram levando consigo o brilho dos olhares, a inocência… a pureza. Nos rostinhos morreu o sorriso e um trejeito de dor instalou-se na carinha dos sobreviventes.

            O céu não lhes tinha dado as estrelas, o Natal não era para eles. Os presentes foram a orfandade, a solidão e o sofrimento. Os doces foram a fome e as feridas nos frágeis corpinhos e, sobretudo, na alma.

            Este é o Natal de tantas crianças por este mundo fora, um Natal oferecido por quem não tem piedade, por quem investe em armas e guerra, por quem lucra com a infelicidade alheia.

Pobres crianças, pobres de todos nós que não conseguimos ver a alegria nos rostos infantis.

Um Natal sem sorrisos não pode voltar a acontecer… Cabe a cada um de nós evitar que volte a acontecer.

Natal tem de ser paz, amor, carinho, risos cristalinos e o brilho das estrelas nos olhos de todas as crianças.

Fortunata Fialho

Um sonho.

Um sonho.

            A noite cai e o sono instala-se. Cansado cai na cama e adormece quase de imediato. O dia foi desgastante mas não consegue esquecer a imagem da garota a quem cedeu passagem. O cheiro que dela emanava e o esvoaçar dos cabelos negros e brilhantes deixaram-no preso nesse momento.

            Tinha prometido a si próprio não se deixar envolver por nenhuma mulher, compromissos não estavam incluídos no seu projeto de vida. Mulheres só por um dia nada mais. Afinal um homem tem necessidades.

            Subitamente estava no centro comercial e a garota agradeceu-lhe com um sorriso. No seu olhar pareceu ler: segue-me. Ele seguiu-a.

            Entrou no mesmo restaurante e pediu uma mesa. Com a desculpa de estar tudo ocupado, perguntou-lhe se podia sentar-se a seu lado. Ela, com um sorriso, aceitou. No final da refeição já partilhavam as sobremesas. A conversa fluía com uma tremenda facilidade e a sessão da tarde, do cinema, foi vista a dois. Um braço apoiou-se nos seus ombros e ela não se desviou. No écran um filme de amor lamechas, outrora insuportável, tornava o seu serão bem melhor. Imaginem, ele a gostar de um filme para mulheres!

            O cinema terminou e ofereceu-se para a levar a casa. Segundo ele ficava em caminho. Aqui para nós, a caminho para o lado oposto da cidade.

            Na entrada da sua casa, em jeito de despedida, um beijo na face que, sorrateiramente, deslizou para o canto dos lábios.

            Nessa noite o sonho voltou mais intenso do que nunca. O beijo sorrateiro tinha-o incendiado e, agora sonhava, que num impulso ela tinha saboreado a sua boca. Primeiro timidamente e depois com toda a intensidade do desejo. Os seus corpos rolavam na cama fundindo-se e incendiando-se.

            Como tinha ido parar à cama o sono não lhe revelou, só soube que os seus corpos explodiram e todo aquele fogo se transformou num riacho de águas calmas. Nesse momento repousavam abraçados envoltos em suor e, nos rostos um sorriso de pura satisfação.

            O despertador tocou e o sonho acabou mas o sentimento de satisfação não terminou. A cama era a sua mas faltava alguém…

            Estava decidido, tinha de trazer o sonho para a realidade. Pegou no casaco e dirigiu-se para o outro lado da cidade…

Fortunata Fialho

História de uma noite.

                Um homem abre a carteira e subitamente uma embalagem de preservativos, não usada, cai. No seu rosto desenha-se um sorriso, na noite anterior não tinha sido necessária.

            Finalmente tinha saído com aquela criatura louca e exuberante que lhe despertava todas as sensações e o deixava louco de desejo. O grupo de amigos tinha-se dispersado e eles tinham ficado sós. Caminhando pela rua as suas mãos tinham-se unido e os seus corpos tocavam-se como que atraídos por um desejo não confessado.

            Um aguaceiro desabou sobre si e, encharcados, tinham-se refugiado no apartamento dela. Rindo ela indicou-lhe a casa de banho para que pudesse secar um pouco e tentou encaminhar-se para o quarto para mudar de roupa. Sem que pudessem evitar e porque os seus corpos não lhes obedeciam, permaneceram imóveis com os seus olhares fixos nos rostos que quase se tocavam. Os seus cabelos negros cobriam-lhe a testa e, afastando-os acariciou o seu rosto. Beijou, suave mas intensamente, aquela boca que tremia de desejo. As roupas deslizaram para o chão e os corpos uniram-se num só. Louco de desejo, sentou-a na mesa e tentou penetrá-la. Ela retraiu-se… que diabos!

             “É a minha primeira vez.”

            Não podia ser verdade!

            Uma ternura imensa invadiu-o e, pegando-lhe ao colo, levou-a para o quarto. Suavemente percorreu cada recanto da sua pele, com a sua boca, excitando todo o seu corpo. Suavemente acariciou o seu sexo e ela não se retraiu. Excitada e recetiva, ela deixou que a estimulasse e, quando a sentiu pronta, penetrou-a suavemente. Com movimentos lentos e carícias suaves fez todo o seu corpo vibrar de prazer. Finalmente o ritmo dos seus corpos aumentou explodindo num orgasmo imenso. Carícias lentas nos corpos cansados prolongaram aquele momento.

            Temendo acordar daquele sonho, envolveu-a num abraço e… adormeceram.

            Aquele preservativo continuou intacto.

Fortunata Fialho