Quem sou?

Quem sou?

Vagueando pelas ruas procuro encontrar-me.

Em cada passo que dou uma pergunta ecoa.

-Quem sou?

Serei real ou uma projeção do desejo de meus pais?

Vulto presente ou alma perdida na imensidão do tempo?

Troveja e uma gota perdida cai no meu rosto,

Sou real… estou sentindo…

Um dilúvio cai sobre mim e eu choro.

Assim ninguém irá reparar!

Choro a saudade que habita o meu peito.

Choro os dias que ainda não vivi.

Choro, sobretudo, aqueles que perdi.

Juntas, gotas e lágrimas, seguem o seu caminho.

Na água que corre pelas ruas viaja a tristeza…

Espero que para bem longe de mim.

-Quem sou?

Sou a soma dos dias, o amontoado do tempo.

Sou as experiências vividas…

As dores das perdas acumuladas.

Sou o espelho da vida vivida.

O riso das horas felizes, a doçura do riso,

A imagem do amor partilhado.

O perfume das flores primaveris,

O amarelo dos campos no verão,

A tranquilidade dos riachos que correm,

A violência das tempestades,

A esperança nos olhos de cada criança.

Afinal que serei eu?

Realidade, sonho, esperança ou dor e sofrimento?

Serei o tempo que tarda ou aquele que passa?

Serei sombra medo ou tristeza?

No fundo eu só quero ser…

Amor… luz… esperança… paz.

Fortunata Fialho

Um regresso a casa

Voltem férias.

Acordei e procurei avidamente pelas minhas férias,

Não encontrei… Malditas, abandonaram-me!

Será que se sentiram mal aproveitadas?

Será que se sentiram negligenciadas?

Este sentimento de perda e abandono é coisa séria.

Durante a noite ouvi vozes alteradas:

– Tens de partir, o teu tempo terminou.

– Não quero, não a posso abandonar.

Será que o trabalho ameaçou as minhas férias?

Será que aquelas cobardes se deixaram vencer?

Porque me abandonaram?

Se tivessem ficado o trabalho não entraria…

As manhãs de preguiça continuariam a ser só nossas.

Os serões longos e despreocupados eram tão doces…

Quero-as de volta, não quero viver sem elas!

Férias ingratas, medrosas, insensíveis…

Espreitei pelas janelas, corri para a rua,

Gritei por elas e já não as encontrei!

Com elas levaram o meu tempo livre,

Nem vestígios deixaram…

Vai trabalho implacável… deixa as minhas férias voltarem.

Tem pena de mim… não me deixes sofrer!

Férias ingrata voltem… sinto-me tão infeliz…

Fortunata Fialho