“Doetos Dordianos” Mais um texto a duas mãos.

Puxou o fecho das calças duas ou três vezes para cima com violência já depois de estar fechado. Depois assoou-se aos dedos, limpou-os à parede e cuspiu para o chão da casa de banho pública. O velho cheirava tão mal que as poucas pessoas que ali estavam apressaram-se a sair. A cena criou em mim uma mistura de repulsa e pena. Quem seria e como é que teria chegado àquele ponto. No chão estava uma mochila velha, descosida e com um saco cama mal enrolado por cima, e uma garrafa de vinho.

– Ainda se lembra onde é que ela ficou? Ela ficou lá atrás não foi? A sua vida ficou lá atrás, não foi? Como é que ela se chamava? Nunca mais a viu?

O velho levantou a cabeça surpreendido pelas minhas perguntas e ficou a observar-me de alto a baixo. Depois apontou para o espelho e percebi que era para eu olhar para o meu próprio reflexo.

– Em vez de fazeres perguntas a ti próprios, tens que deixar de olhar para o espelho e partir atrás dela. Só dessa forma não chegas a este estado…

Olhei de novo para ele para lhe responder, mas a casa de banho pública estava deserta.

O velho tinha-se esfumado e o cheiro tinha-se dissipado, olhei para o espelho e pareceu-me que o rosto dele me fazia lembrar algo no meu. Relembrei Charles Dickens e o conto de natal. Seria o meu futuro a tentar avisar-me de algo?

-Que raios, a minha vida estará assim tão má e sem sentido?

Pensei em voz alta na tentativa de obter uma resposta que não obtive. Nessa noite quando saí, em cada mendigo que surgia nas esquinas tentei encontrar o velho, na tentativa de afastar a sensação de premonição que me assolava. Realmente tinha feito tanta porcaria que, certamente iria sofrer as consequências. Do velho nem sinal mas dei por mim a pensar no que teria transformado essas criaturas em meros fantasmas de vidas mal vividas. Teria de mudar o rumo da minha, não queria terminar como eles.

Já noite alta, quando finalmente consegui adormecer, o cheiro nauseabundo voltou a castigar as minhas narinas e, na tentativa de lhe fugir, acordei sobressaltado.

No dia seguinte resolvi visitar os meus pais. Velhos e cansados mereciam mais atenção da minha parte, tinha de os visitar mais vezes. Sai de coração cheio com o reflexo da felicidade no rosto dos meus velhotes e nessa noite dormi tranquilamente.

Ontem resolvi passar para o papel todos estes sinais que fui recebendo ao longo desta vida. Todas estas experiências mereciam ser do conhecimento de mais pessoas.

– Mas agora passas o tempo a escrever nesse bloco? O que é que se passa contigo? Já acabaste o relatório que te pedi?

Números e mais números! Já não tenho paciência para nada daquilo! Nem para o meu chefe nem para estes relatórios! Sempre quis ser escritor, actor, poeta, aviador! Até rimou! Mas os meus pais não queriam nada daquilo e toda a minha vida foi uma luta contra esta frustração que vivo hoje.

– Ainda aqui está? Já lhe mandou o poema? Agora com os computadores é tudo mais fácil!

O velho! O velho estava ali no escritório! O velho, o cheiro nauseabundo, a mochila, a garrafa de vinho! Olhei em redor à procura do olhar de admiração dos meus colegas, mas o escritório tinha ficado misteriosamente vazio!

– E mande, finalmente, o livro que anda a escrever para uma editora! Está mais que pronto!

– Mas como é que você sabe disso?

A pergunta saiu alta de mais e todos os meus colegas ouviram. Porque agora o escritório já estava cheio…

– É pá! Então agora já falas sozinho? Vê lá se atinas.

O meu chefe entrou de rompante e perguntou, de olhar agastado e voz irritada.

– Que se passa aqui? Quem é que endoideceu e fala sozinho? Nesta casa exige-se seriedade e profissionalismo, se querem continuar comigo têm de se deixar dessas tretas.

Fixei os olhos no chão e sai de mansinho, afinal precisava do parco salário para sobreviver.

Nessa noite pouco consegui dormir. Quando pegava no sono o desgraçado do velho repetia sempre o mesmo, tinha de enviar o poema e o livro para a editora. Levantei-me de madrugada e agarrei-me ao computador, enviei o poema e, cheio de esperança enviei o livro para a editora.

Os dias seguiram-se e quase perdi a esperança no maldito livro. Do velho nunca mais tive notícias. Nessa mesma noite, enquanto assistia ao noticiário, o velho sentou-se a meu lado. Surpreendentemente o mau cheiro tinha sido substituído pelo aroma dos livros novos. Perguntei o que queria de mim e ele deu uma gargalhada e disse:

– Vim despedir-me, o meu tempo terminou.

Na manhã seguinte, no correio, uma carta registada pedia para me apresentar na editora. Hoje estou na plateia e chamam-me para receber um prestigiado prémio da literatura.

Ao fundo o velho sorri e retira-se sem qualquer comentário ou odor.

João Dordio/Fortunata Fialho

Um dos textos a duas mãos, com João Dordio, numa excelente obra: “Duetos Dordianos”

NO DIA EM QUE O SOL NÃO BRILHOU

A noite tinha chegado e nas casas apagaram-se as luzes, as crianças adormeceram e até os animais descansaram. Os gatos partiram para a caça.

Sons de caçadas noturnas ecoavam pelos campos e, pela calada da noite amantes clandestinos trocavam carícias e beijos envoltos em promessas de luta e amor eterno.

Em cada casa imperava a escuridão e, de tempos a tempos, uma criança chamava pelos pais. Nos leitos, entre alvos lençóis, corpos incendiavam-se e, num frenesim apaixonado, soltavam-se suspiros e orgasmos. Por fim, os corpos cansados também adormeceram.

As horas foram-se sucedendo, o sono fugia, as crianças despertaram, os animais acordaram, mas os gatos não voltaram. Pelas janelas nem um diminuto raio de luz se vislumbrava, a escuridão não se iluminava. Ao longe um burburinho surgia e agigantava-se alastrando de casa em casa. Em cada soleira de porta a mesma pergunta:

– O sol não devia já estar alto?

Nesse dia, o meu coração ficou negro. Preto! Tudo em meu redor passou a nascer já morto. Os animais. As plantas. As pessoas. Mortas! Pretas! O Carlos tinha partido para a cidade. Porque a cidade tinha luz e aqui nesta merda não se sobrevive, gritou antes bater com a porta. E quando a porta da rua se fechou atrás dele, nunca mais se voltou a abriu. A porta da rua e a porta do meu coração, Carlos. Ficas a saber que agora o sol já não vai nascer nesta casa!

– Vai lá dar de comer aos animais! Pára de escrevinhar nesse caderno! Achas que os animais também se alimentam de letras?

O sol já devia ter nascido e eles nem sequer repararam. O Carlos foi-se embora e eles também não viram. O olhar deles anda negro. Preto! Tudo em redor nasce morto e o meu coração só bate para marcar o ritmo do relógio de cuco que a bisavó Felisberta nos deixou.

Já não consigo ouvir mais o incessante tic-tac do maldito relógio. Parece que me empurra cada vez mais para este precipício negro. Na cidade existe luz. Deve ser… vida de pobre é negra em qualquer lugar. Pobre! Não! Pobre de espírito é o que ele é. Toda a vida me deu uma luz pobre e difusa como o seu pessimismo. Então porque ficou tão negro o meu coração?

Estúpida! Não vês que nesta aldeia também pode existir luz. Abre o coração e deixa o sol entrar, verás que ele brilhará. O Carlos que se dane, foi ele que não deixou o meu sol brilhar. Maldito relógio deixa de me assombrar.

O relógio parou por alguns segundos e, quando retomou o seu tic-tac, parecia já um compasso de esperança.

Maria abriu as janelas que rangeram enquanto rodaram as dobradiças ferrugentas pela falta de uso. Lá fora, ao longe, o sol parecia que queria renascer incendiando o ar e o seu coração negro recuperou o tom rubro que nunca deveria ter deixado de ter.

– Mas ainda aí estás? Vai já dar de comer aos animais! Não te aviso mais nenhuma vez!

Ontem fomos ao cemitério fazer mais um culto aos mortos. Maldito ritual que valoriza mais as memórias dos que já não estão do que aqueles que ainda não morreram! Detesto ver a minha mãe a chorar daquela forma. O meu pai nunca vai, mas sei que chora por dentro. Quem acaba por pagar o sofrimento reprimido é o fígado.

No cemitério não se ouve o relógio e a lembrança do Carlos não passa do portão ferrugento que tem um ranger parecido com a janela do meu quarto.

– Vamos lavar a campa da avó Felisberta e depois vamos embora. Temos que ir arrancar o teu pai do café!

Há muitos anos que o sol também tinha deixado de brilhar para a bisavó Felisberta. O sol que o Carlos levou foi outro. O da minha mãe também era diferente. O meu brilha e aquece por dentro quando escrevo e descrevo a minha não vida…

O das pessoas normais continua lá em cima à espera que a lua venha para lhe fechar os olhos. Mas dizem por aqui que isso é apenas a noite a chegar. Eles sabem lá!

Fortunata Fialho / João Dordio

Quero ser…

Quero ser…

Quero ser fogo e incendiar ao mínimo toque teu.

Quero ser chama que ilumina a noite escura e se reflete no teu olhar.

Quero ser o reflexo de dois amantes abraçados.

Quero ser o brilho de um sorriso teu,

O desejo refletido no teu olhar,

A sucessão dos teus dias, lentos… tranquilos….

Caminhando em busca do infinito inalcançável.

Quero ser amor que cresce de forma exponencial,

Amor crescente e profundo… delicado…

Amor ardente.

Quero ser o mundo e acolher toda a gente.

Mar temperamental e apaixonado,

Riacho tranquilo e lutador, que se agiganta…

Cresce e corre em busca do mar que ama.

Quero ser uma simples gota de água que sobe aos céus

E cai alegremente sobre um campo verdejante.

Quer ser flor singela e bela crescendo

Num campo verde brilhante… húmido…

Enfeitado por um colar de diamantes de orvalho.

Quero ser gargalhada na boca de uma criança.

Pura, cristalina, inocente e plena de esperança.

Quero ser ingénua, sonhadora, pura e transparente.

Sonhar o impossível, lutar pelo futuro…

Agarrar a vida… afastar a morte.

Quero viver eternamente…

Nem que seja na lembrança das gentes.

Quero ser uma estrela brilhante…

Mesmo que perca o brilho em cada amanhecer.

Quero ser palavra que se transmite

No imaginário de algum livro em cada estante.

Fortunata Fialho

A minha participação em “Liberdade” da Chiado Editora.

Soltem as amarras.

Soltem as amarras, libertem-se das prisões.

Mundo cruel que vos prende sem grades,

Seres frágeis, humilhados… desprovidos de vontade própria.

Quando perderam a vossa razão de lutar?

Como vos convenceram de que nada valem?

Como permitis que vistam vosso corpo de roxo?

O mundo também é vosso e lá fora há um mundo.

A liberdade é um direito de todo o ser humano.

Tu és um ser humano… tens direitos…

Tens deveres também…

Tens o dever de lutar e de te libertar.

Abre as janelas e respira… sente o aroma da liberdade.

Sai, foge sem olhar para trás…

Se, por acaso olhares, que seja para dizer até nunca.

Livra-te da tua prisão… solta as amarras…

Alimenta o teu ego e ri, grita, chora…

Promete que para sempre serás livre,

Promete procurar a felicidade, o amor… a autoestima…

Se te voltarem a tentar encarcerar grita por ajuda,

Luta com todas as armas que puderes…

Promete a ti próprio(a)… liberdade.

Solta-te para sempre das amarras e… vive livre.

Fortunata Fialho

Reflexo.

Reflexo.

Na beira de um rio uma criança olha o seu reflexo.

De olhar iluminado pela surpresa, agita a água.

A água brinca com a sua imagem,

Desliza e foge levando o seu reflexo,

Lentamente devolve o reflexo do seu rosto.

Um raio solar ajuda na brincadeira,

Projeta-se na água calma e ilumina aquele rostinho.

A criança ri de contentamento e surpresa.

Como pode estar um espelho no meio do riacho?

Deve ser magia! Só pode ser magia.

Eleva o olhar e repara no reflexo do sol numa gota de orvalho.

Sob os seus olhos brilha o mais belo diamante,

Um diamante líquido e efémero que brilha como o seu olhar.

Salta e grita de felicidade, ri numa saudável loucura,

O mundo é seu e o sol brilha só para ele.

No reflexo dos seus olhos vive toda a felicidade.

No reflexo dos seus olhos mora o mundo.

O sol reflete-se no riacho projetando raios,

Lindos raios coloridos que enfeitam as folhas,

As flores, os animais… os brinquedos.

Sim os brinquedos tinham tons de arco-íris.

Nunca tinham sido tão bonitos.

Cansado, olha os reflexos no riacho…

De sorriso no rosto adormece e sonha…

Sonha que viaja num raio de sol

Feito barco no riacho que corre.

Fortunata Fialho

Sabes?

Sabes?

                Neste fim do mundo onde me encontro depois de tantos anos a tentar esquecer o passado tenho coragem de, com todo o amor, te dizer que afinal quem errou foste tu.

            Debaixo destas rugas que invadiram o meu rosto sem que o pudesse evitar, envelhecendo-me precocemente, remoendo num abandono que não cometi estou tentando fazer as pazes com o passado.

 Amei muito, amei até quando o coração se tinha partido e o cérebro deixou de poder tomar decisões conscientes. Amei tanto até o amor se ter tornado medo… desespero. Ansiava pela tua presença e temia a tua chegada. Confundi violência com carinho e proteção, um carinho que me deixava marcas negras, uma proteção que me algemava e amordaçava… uma gaiola dourada era o nosso lar.

            Um dia, depois de mais uma cena lamentável de injúrias e violência gratuita só porque sim, e em que uma visita ao hospital mais próximo se impôs, perdi o nosso filho.

De volta a casa, fraca e cansada, acusaste-me de ser uma assassina.

Apanhei… fui eu que matei!

            Como desejei ter partido com ele!

            No dia seguinte saí… queria desaparecer… morrer. Desapareci por esses caminhos mas alguém me encontrou e não deixou que regressa-se. Chorei, gritei, e até tentei fugir. Ainda bem que não consegui. Mudei o meu nome e fui viver longe. Um dia alguém me disse que me procuravas, que dizias que eu iria pagar caro a fuga, talvez com a própria vida. Chorei e vacilei, e se tu me encontrasses?

             Durante vários dias não consegui sair de casa… estava aterrorizada.

            Os dias passaram e a eles seguiram-se anos, consegui uma vida nova.

Tinha fechado as portas a uma nova relação mas, o amor lutou para me conquistar. Vivi com carinho e compreensão, fui presenteada com filhos, com dias calmos, carinho imenso e respeito absoluto. No meu corpo os negros desapareceram e no seu lugar restaram algumas cicatrizes quase invisíveis, só nas noites de pesadelos elas se evidenciavam. Sim tive muitos pesadelos.

            Agora, olho para os netos que brincam com um avô, que daria a vida por eles, como um grupo de crianças das mesmas idades e escrevo na tentativa de apagar para sempre um passado que está longe mas ainda me assombra. Não sei se te enviarei esta carta, talvez ainda sinta medo desse amor que dizias ter por mim. Amor? Não, não era amor, era posse e maldade. Se não tiver coragem espero que quem a encontre te a faça chegar.

            Despeço-me dizendo que te amei muito, muito mesmo, teria dado a vida por ti. Tu mentiste quando prometes-te proteger-me e em troca retiraste-me tudo… o nosso filho… e até a minha vida tu tentaste tirar.

            Amor em troca de ódio, como pudeste?

            Não te posso perdoar… não te quero perdoar… nunca te perdoarei.

Desta que muito te amou e aprendeu a temer

Uma Maria como tantas outras Marias.

Fortunata Fialho

Novidade:

Cito:

“Cara Fortunata,

Ficamos bastante agradecidos pelo envio do seu trabalho para constar no Volume III da Colectânea de Cartas de Amor, da Chiado Books.

Depois de o analisarmos, informamos que o mesmo foi selecionado.”

Sabes?

                Neste fim do mundo onde me encontro depois de tantos anos a tentar esquecer o passado tenho coragem de, com todo o amor, te dizer que afinal quem errou foste tu.

            Debaixo destas rugas que invadiram o meu rosto sem que o pudesse evitar, envelhecendo-me precocemente, remoendo num abandono que não cometi estou tentando fazer as pazes com o passado.

  Amei muito, amei até quando o coração se tinha partido e o cérebro deixou de poder tomar decisões conscientes. Amei tanto até o amor se ter tornado medo… desespero. Ansiava pela tua presença e temia a tua chegada. Confundi violência com carinho e proteção, um carinho que me deixava marcas negras, uma proteção que me algemava e amordaçava… uma gaiola dourada era o nosso lar.

            Um dia, depois de mais uma cena lamentável de injúrias e violência gratuita só porque sim, e em que uma visita ao hospital mais próximo se impôs, perdi o nosso filho.

De volta a casa, fraca e cansada, acusaste-me de ser uma assassina.

Apanhei… fui eu que matei!

            Como desejei ter partido com ele!

            No dia seguinte saí… queria desaparecer… morrer. Desapareci por esses caminhos mas alguém me encontrou e não deixou que regressa-se. Chorei, gritei, e até tentei fugir. Ainda bem que não consegui. Mudei o meu nome e fui viver longe. Um dia alguém me disse que me procuravas, que dizias que eu iria pagar caro a fuga, talvez com a própria vida. Chorei e vacilei, e se tu me encontrasses?

             Durante vários dias não consegui sair de casa… estava aterrorizada.

            Os dias passaram e a eles seguiram-se anos, consegui uma vida nova.

Tinha fechado as portas a uma nova relação mas, o amor lutou para me conquistar. Vivi com carinho e compreensão, fui presenteada com filhos, com dias calmos, carinho imenso e respeito absoluto. No meu corpo os negros desapareceram e no seu lugar restaram algumas cicatrizes quase invisíveis, só nas noites de pesadelos elas se evidenciavam. Sim tive muitos pesadelos.

            Agora, olho para os netos que brincam com um avô, que daria a vida por eles, como um grupo de crianças das mesmas idades e escrevo na tentativa de apagar para sempre um passado que está longe mas ainda me assombra. Não sei se te enviarei esta carta, talvez ainda sinta medo desse amor que dizias ter por mim. Amor? Não, não era amor, era posse e maldade. Se não tiver coragem espero que quem a encontre te a faça chegar.

            Despeço-me dizendo que te amei muito, muito mesmo, teria dado a vida por ti. Tu mentiste quando prometes-te proteger-me e em troca retiraste-me tudo… o nosso filho… e até a minha vida tu tentaste tirar.

            Amor em troca de ódio, como pudeste?

            Não te posso perdoar… não te quero perdoar… nunca te perdoarei.

Desta que muito te amou e aprendeu a temer

Uma Maria como tantas outras Marias.

Fortunata Fialho

Vida. “Espontâneos de Natal 2019”

Vida

Nascer… viver… reproduzir… morrer…

Nesta vida há muitos natais felizes e cheios de esperança.

Natal é sempre que uma criança nasce,

Adorada por um séquito de familiares

Que a embalam e cuidam com toda a ternura.

Com ele transporta toda a nossa herança,

Aposta num mundo onde o amor cresce.

Menino(a) aí Jesus em casa de seus pais.

Luz que ilumina mais que o sol numa tarde de verão.

O tempo passa e os meninos crescem,

Orgulho dos pais somam anos,

Birras, sorrisos, vitórias e algumas desilusões.

Perdem a inocência, ficou em pedaços pelo caminho,

Somam novos sonhos e também mais algumas ilusões.

Também eles concebem frutos para novos natais.

Nas suas casas também se vai adorar os meninos.

A vida não perdoa e os natais serão os seus netos,

Novos aí Jesus de seus avós,

Cobertos por abraços e beijos de puro amor.

Neles depositamos a esperança no futuro…

A vida é tão curta e a morte não perdoa,

Implacável… em surdina… rouba-nos a vida.

Entre lágrimas e desespero… surge a saudade.

Milagrosamente, no leito de uma criança que nasce,

Uma estrela brilhante brilha mais intensamente

Sobre um berço, pobre ou rico, não interessa.

No seu intenso brilho… protege… porque…

Sempre que alguém morre sobe mais uma estrela aos céus.

Fortunata Fialho

Sim é Natal

Sim é Natal

Por todo o lado são colocadas luzes natalícias,

As montras brilham apelando ao consumo,

Nas casas enfeitam-se árvores com fitas coloridas,

Pendentes de mil cores ostensivas.

Meias exageradamente grandes pendem das lareiras.

As crianças espreitam pelos cantos

Procuram embrulhos escondidos,

Ocultos ao seu olhar, longe das suas mãos.

Algures, no mundo, uma criança anseia por paz,

O Natal é um conto de fadas perdido no tempo,

As luzes são o tracejar de munições cruzando o céu.

No seu mundo os sonhos estão perdidos,

Presos na miséria e na dor, envoltos em sangue e lágrimas.

No meio dos escombros, busca um pedacinho de céu,

Num naco de pão para mitigar a fome.

Não deseja prendas mas sim um abraço,

Embrulhado em fé e esperança, enfeitado num raio de sol.

Pobre menino sem infância, pobre menino sem sonhos.

Este Natal só desejo paz, amor, ternura e …

Que todas as crianças possam ver o sol,

Que pelo mundo ecoem gargalhadas de felicidade,

Que em todos os olhos brilhe todo o esplendor do sol

Todo o brilho das estrelas…

Que a maior prenda seja paz embrulhada em carinho e amor.

Fortunata Fialho