Sabes?

Sabes?

                Neste fim do mundo onde me encontro depois de tantos anos a tentar esquecer o passado tenho coragem de, com todo o amor, te dizer que afinal quem errou foste tu.

            Debaixo destas rugas que invadiram o meu rosto sem que o pudesse evitar, envelhecendo-me precocemente, remoendo num abandono que não cometi estou tentando fazer as pazes com o passado.

 Amei muito, amei até quando o coração se tinha partido e o cérebro deixou de poder tomar decisões conscientes. Amei tanto até o amor se ter tornado medo… desespero. Ansiava pela tua presença e temia a tua chegada. Confundi violência com carinho e proteção, um carinho que me deixava marcas negras, uma proteção que me algemava e amordaçava… uma gaiola dourada era o nosso lar.

            Um dia, depois de mais uma cena lamentável de injúrias e violência gratuita só porque sim, e em que uma visita ao hospital mais próximo se impôs, perdi o nosso filho.

De volta a casa, fraca e cansada, acusaste-me de ser uma assassina.

Apanhei… fui eu que matei!

            Como desejei ter partido com ele!

            No dia seguinte saí… queria desaparecer… morrer. Desapareci por esses caminhos mas alguém me encontrou e não deixou que regressa-se. Chorei, gritei, e até tentei fugir. Ainda bem que não consegui. Mudei o meu nome e fui viver longe. Um dia alguém me disse que me procuravas, que dizias que eu iria pagar caro a fuga, talvez com a própria vida. Chorei e vacilei, e se tu me encontrasses?

             Durante vários dias não consegui sair de casa… estava aterrorizada.

            Os dias passaram e a eles seguiram-se anos, consegui uma vida nova.

Tinha fechado as portas a uma nova relação mas, o amor lutou para me conquistar. Vivi com carinho e compreensão, fui presenteada com filhos, com dias calmos, carinho imenso e respeito absoluto. No meu corpo os negros desapareceram e no seu lugar restaram algumas cicatrizes quase invisíveis, só nas noites de pesadelos elas se evidenciavam. Sim tive muitos pesadelos.

            Agora, olho para os netos que brincam com um avô, que daria a vida por eles, como um grupo de crianças das mesmas idades e escrevo na tentativa de apagar para sempre um passado que está longe mas ainda me assombra. Não sei se te enviarei esta carta, talvez ainda sinta medo desse amor que dizias ter por mim. Amor? Não, não era amor, era posse e maldade. Se não tiver coragem espero que quem a encontre te a faça chegar.

            Despeço-me dizendo que te amei muito, muito mesmo, teria dado a vida por ti. Tu mentiste quando prometes-te proteger-me e em troca retiraste-me tudo… o nosso filho… e até a minha vida tu tentaste tirar.

            Amor em troca de ódio, como pudeste?

            Não te posso perdoar… não te quero perdoar… nunca te perdoarei.

Desta que muito te amou e aprendeu a temer

Uma Maria como tantas outras Marias.

Fortunata Fialho

Novidade:

Cito:

“Cara Fortunata,

Ficamos bastante agradecidos pelo envio do seu trabalho para constar no Volume III da Colectânea de Cartas de Amor, da Chiado Books.

Depois de o analisarmos, informamos que o mesmo foi selecionado.”

Sabes?

                Neste fim do mundo onde me encontro depois de tantos anos a tentar esquecer o passado tenho coragem de, com todo o amor, te dizer que afinal quem errou foste tu.

            Debaixo destas rugas que invadiram o meu rosto sem que o pudesse evitar, envelhecendo-me precocemente, remoendo num abandono que não cometi estou tentando fazer as pazes com o passado.

  Amei muito, amei até quando o coração se tinha partido e o cérebro deixou de poder tomar decisões conscientes. Amei tanto até o amor se ter tornado medo… desespero. Ansiava pela tua presença e temia a tua chegada. Confundi violência com carinho e proteção, um carinho que me deixava marcas negras, uma proteção que me algemava e amordaçava… uma gaiola dourada era o nosso lar.

            Um dia, depois de mais uma cena lamentável de injúrias e violência gratuita só porque sim, e em que uma visita ao hospital mais próximo se impôs, perdi o nosso filho.

De volta a casa, fraca e cansada, acusaste-me de ser uma assassina.

Apanhei… fui eu que matei!

            Como desejei ter partido com ele!

            No dia seguinte saí… queria desaparecer… morrer. Desapareci por esses caminhos mas alguém me encontrou e não deixou que regressa-se. Chorei, gritei, e até tentei fugir. Ainda bem que não consegui. Mudei o meu nome e fui viver longe. Um dia alguém me disse que me procuravas, que dizias que eu iria pagar caro a fuga, talvez com a própria vida. Chorei e vacilei, e se tu me encontrasses?

             Durante vários dias não consegui sair de casa… estava aterrorizada.

            Os dias passaram e a eles seguiram-se anos, consegui uma vida nova.

Tinha fechado as portas a uma nova relação mas, o amor lutou para me conquistar. Vivi com carinho e compreensão, fui presenteada com filhos, com dias calmos, carinho imenso e respeito absoluto. No meu corpo os negros desapareceram e no seu lugar restaram algumas cicatrizes quase invisíveis, só nas noites de pesadelos elas se evidenciavam. Sim tive muitos pesadelos.

            Agora, olho para os netos que brincam com um avô, que daria a vida por eles, como um grupo de crianças das mesmas idades e escrevo na tentativa de apagar para sempre um passado que está longe mas ainda me assombra. Não sei se te enviarei esta carta, talvez ainda sinta medo desse amor que dizias ter por mim. Amor? Não, não era amor, era posse e maldade. Se não tiver coragem espero que quem a encontre te a faça chegar.

            Despeço-me dizendo que te amei muito, muito mesmo, teria dado a vida por ti. Tu mentiste quando prometes-te proteger-me e em troca retiraste-me tudo… o nosso filho… e até a minha vida tu tentaste tirar.

            Amor em troca de ódio, como pudeste?

            Não te posso perdoar… não te quero perdoar… nunca te perdoarei.

Desta que muito te amou e aprendeu a temer

Uma Maria como tantas outras Marias.

Fortunata Fialho

Vida. "Espontâneos de Natal 2019"

Vida

Nascer… viver… reproduzir… morrer…

Nesta vida há muitos natais felizes e cheios de esperança.

Natal é sempre que uma criança nasce,

Adorada por um séquito de familiares

Que a embalam e cuidam com toda a ternura.

Com ele transporta toda a nossa herança,

Aposta num mundo onde o amor cresce.

Menino(a) aí Jesus em casa de seus pais.

Luz que ilumina mais que o sol numa tarde de verão.

O tempo passa e os meninos crescem,

Orgulho dos pais somam anos,

Birras, sorrisos, vitórias e algumas desilusões.

Perdem a inocência, ficou em pedaços pelo caminho,

Somam novos sonhos e também mais algumas ilusões.

Também eles concebem frutos para novos natais.

Nas suas casas também se vai adorar os meninos.

A vida não perdoa e os natais serão os seus netos,

Novos aí Jesus de seus avós,

Cobertos por abraços e beijos de puro amor.

Neles depositamos a esperança no futuro…

A vida é tão curta e a morte não perdoa,

Implacável… em surdina… rouba-nos a vida.

Entre lágrimas e desespero… surge a saudade.

Milagrosamente, no leito de uma criança que nasce,

Uma estrela brilhante brilha mais intensamente

Sobre um berço, pobre ou rico, não interessa.

No seu intenso brilho… protege… porque…

Sempre que alguém morre sobe mais uma estrela aos céus.

Fortunata Fialho

Sim é Natal

Sim é Natal

Por todo o lado são colocadas luzes natalícias,

As montras brilham apelando ao consumo,

Nas casas enfeitam-se árvores com fitas coloridas,

Pendentes de mil cores ostensivas.

Meias exageradamente grandes pendem das lareiras.

As crianças espreitam pelos cantos

Procuram embrulhos escondidos,

Ocultos ao seu olhar, longe das suas mãos.

Algures, no mundo, uma criança anseia por paz,

O Natal é um conto de fadas perdido no tempo,

As luzes são o tracejar de munições cruzando o céu.

No seu mundo os sonhos estão perdidos,

Presos na miséria e na dor, envoltos em sangue e lágrimas.

No meio dos escombros, busca um pedacinho de céu,

Num naco de pão para mitigar a fome.

Não deseja prendas mas sim um abraço,

Embrulhado em fé e esperança, enfeitado num raio de sol.

Pobre menino sem infância, pobre menino sem sonhos.

Este Natal só desejo paz, amor, ternura e …

Que todas as crianças possam ver o sol,

Que pelo mundo ecoem gargalhadas de felicidade,

Que em todos os olhos brilhe todo o esplendor do sol

Todo o brilho das estrelas…

Que a maior prenda seja paz embrulhada em carinho e amor.

Fortunata Fialho