Caminho.

Caminho pelas ruas sem destino marcado.

Caminho para libertar os pensamentos aprisionados.

A cada passo que dou voa um pedaço de sonho,

Um pensamento oculto toma forma e vive.

Vive nas asas da brisa e viaja para longe.

Atrás dele muitos mais se lhe juntam,

Formam ideias, derrubam fronteiras…

Caminho na calada da noite sem hora para voltar.

Nos lábios transporto um sorriso sonhador.

Na garganta palavras de amor e paz.

Fujo do medo, persigo a coragem.

Todos acreditam que ambiciono utopias,

Que será melhor voltar para trás.

Já tentei, virei-me… não vi de onde vinha.

Caminho sempre em frente tentando voltar.

Todos sabem o mundo é redondo…

Um dia hei-de chegar.

 Caminho porque não consigo ficar quieta.

Caminho porque persigo sonhos.

Caminho porque se parar morro.

Caminho porque a vida é um caminhar…

… sem paragens nem retorno.

Caminho soltando ideias como borboletas,

Desejos como rajadas de vento,

Fé e esperança em forma de oceano.

Caminho pelo trilho da vida,

Por vezes tropeço… equilibro-me e continuo.

Talvez um dia o mundo mude.

Então, talvez possa parar…

Fortunata Fialho

Anúncios

Escuridão.

Escuridão

Escuridão, tanta escuridão…

Por mais que tentem não conseguem ver.

Olham ao redor e procuram luz… escondeu-se.

Escutam e procuram risos… silenciaram-se.

Com os corpos procuram calor humano… rareia.

O fumo dos fogos tapa o sol,

As crianças choram de medo,

Os corpos fogem cheios de desconfiança.

Pelos cantos ecoam sons de ódio,

Em cada lar cerram-se as portas e janelas,

Procuram proteção que não existe.

O sol brilha intensamente mas a escuridão impera.

Em cada coração encontrou guarida,

No medo encontrou a sua força.

Milagrosamente um coração rompeu-se,

Em vez de sangue irradia luz,

Como uma pandemia contamina outros como ele,

Tantos corações cheios de luz!

Que pandemia implacável… nada a detém.

As sombras, amedrontadas, recuam,

Os campos enchem-se de flores,

As ruas de crianças a brincar.

Gargalhadas ecoam pelos ares.

A coragem voltou… o amor venceu…

A esperança voltou para ficar.

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet.

Medo.

Medo

Medo… por todo o lado impera o medo…

Começa o inverno e com ele o medo do frio,

Medo da chuva, medo das longas noites…

Vem a primavera e com ela o medo da água ser pouca,

Medo de que a chuva não chegue e o frio não passe,

Medo do calor intenso antes do tempo.

O verão chega trazendo com ele o medo,

Medo que a seca seja rigorosa e que os campos se incendeiem,

Medo da sede, medo do calor escaldante,

Medo de que os riachos sequem,

Medo do sol inclemente, medo dos seus raios inclementes.

O outono reclama o seu lugar e o medo não parte.

Medo de que tempo não refresque, que a chuva não chegue,

Que os rios não encham, que os campos não se renovem,

Que por todo o lado o verde tarde, as árvores não se enfeitem,

Medo do encurtar dos dias e o avanço das noites.

E o ciclo continua… medo, sempre o medo…

Medo da revolta dos mares, da chuva… da natureza inclemente.

Substituam o medo por esperança, por fé e felicidade.

Ao frio sempre se sucederá o calor e ao calor o frio.

Os campos sempre mudarão de cores,

Amarelos, verdes, salpicados de mil cores…

Os riachos irão tornar-se rios e os rios mares.

A chuva sempre votará a beijar a terra…

Depois cavalgando um raio de sol, voltará a partir.

As pessoas poderão tornar este ciclo eterno,

Limpando as águas, os solos… purificando o ar.

Esqueçam o medo lutem pela esperança,

Lutem pelo futuro… sem nenhum medo.

E os mares acalmarão, as inundações retrair-se-ão,

  As tempestades rarearão e as chamas apagar-se-ão.

O ar voltará a ser puro e transparente.

A felicidade inundar o coração de toda a gente. 

Fortunata Fialho

Penso…

Penso…

Penso… não quero mas penso.

Penso no que aconteceria se o mundo rodasse ao contrário.

Se primeiro tivéssemos que morrer e só depois nascer,

Cometeríamos os mesmos erros?

Depois de tudo aprendido e vivido, seríamos diferentes?

Depois de ver o resultado dos nossos erros, cometê-los-íamos?

Será que o medo da morte se tornaria o medo do nascimento?

Será que a felicidade suprema seria alcançar a infância?

Que bom seria acabar a vida no colinho dos pais!

Que todas as perdas se tornassem retornos,

Que os entes queridos para nós voltassem,

Que as más recordações se apagassem,

Se só os bons momentos nos esperassem.

Será que a certeza de que morreríamos juntos

Nos faria amarmo-nos mais cedo?

Que saber que nunca perderíamos os nossos filhos

Faria com que mais facilmente os concebêssemos?

Será que ao vermos o planeta a sofrer o tentaríamos proteger?

Será que a poluição nunca precisaria de ser limpa,

Que os rios seriam para sempre puros,

Os mares mais azuis e cristalinos,

Os animais nunca se extinguiriam?

Depois penso… não quero mas penso.

Será que de tanto regredir nos apagaríamos?

Será que o mundo deixaria de ser mundo?

Que o universo nunca se formaria?

Então penso na impossibilidade…

Desejo que o mundo não mude a sua rota,

Que tudo volte aos seus eixos,

Que o homem acorde antes que seja tarde.

Fortunata Fialho

Uma carta…

Na quietude da penumbra do quarto uma criança escreve,

Uma carta ingénua mas de grande sabedoria.

Na ponta periclitante de um lápis, um pedido:

– Pai Natal traz-me neve.

Preciso que gelem os fogos, que pare a agonia,

Que se quebrem as armas num só instante,

Que todos se recolham às lareiras,

Para que todos os avós possam contar histórias,

E que todas as crianças possam brincar nas eiras.

O bico quebra… prontamente o afia.

No papel muito apagado novo pedido desesperado.

Querido Menino Jesus devolve os meus pais,

Apaga do mundo todos os ais,

Deixa crescer as flores, voar as borboletas…

Envia-nos amor… distribui-o por todo o lado.

Descansa… rasura e apaga… continua.

Caro Diabo porque não vais de férias?

Talvez o sol te queime a maldade,

 Deixa que a água a lave. Descansa sob a lua.

Todos vêm bem-dispostos depois das férias.

 Até tu podes ter esquecido a maldade,

Colocar um sorriso e observa a lua,

Pura, branquinha, sorridente… com ela aprende.

Com medo que todos os pedidos falhem:

Senhor Presidente destrói todas as armas,

Abre todas as fronteiras, não sejas indiferente.

Rega todos os campos, dá pão a toda a gente.

De mão cansada e dormente o menino termina contente.

Com tanto pedido e a tanta gente talvez…

Talvez alguém não seja indiferente,

Talvez o mundo se torne diferente.

E nunca mais um choro aflito se ouça entre as gentes.

Fortunata Fialho

Postais antigos.

Melancolia

Melancolia.

Olho pela janela e, de repente, uma rajada de vento agita as árvores.

Algumas gotas de chuva caem, tímidas e quentes, levantando poeira.

Ao longe as árvores cobrem-se de mil tons amarelados,

O verde viçoso e brilhante esconde-se envergonhado.

As folhas entristecem e, numa tentativa vã de desespero, escurecem.

Onde outrora o verde era rei agora o amarelo outonal lidera.

O verde não se deixou derrotar e renasce em cada tronco de árvore,

Em cada pedrinha sombria e até no solo húmido.

Um viçoso musgo cobre de tons esverdeados os mais recônditos lugares.

A chuva cai cada vez com mais intensidade mas isso não importa.

O seu molhar ainda é ligeiramente quente e retemperador.

Afinal quem não gosta de caminhar à chuva,

Sentar-se num tronco de árvore e admirar as paisagens?

Sentir na pele o doce contacto da água, fresco e reconfortante?

Sentir o suave toque do musgo que se agiganta, cobrindo tudo em seu redor.

O vento acorda e fustiga o arvoredo soltando as pobres folhas cansadas.

Agora a chuva não é só água, é também chuva de folhas.

Ao longe avistam-se alguns troncos nus que se tentam cobrir de musgo.

Pudicamente, tentam esconder a sua nudez. Tarefa inglória…

É outono e os amarelos pintam as paisagens.

Numa infinidade de lindos tons cobrem tudo o que a vista pode alcançar.

O verde era mais belo? Não sei, o amarelo é deliciosamente tranquilo… encantador.

É outono, os troncos cobrem-se de musgo e o chão de folhas mortas.

Chove cada vez mais e o meu coração é inundado de melancolia…

Doce e terna melancolia que, mesmo assim, me faz feliz.

Fortunata Fialho

Grutas de Mira d’Aires – Serra de Aires – Portugal. Um passeio a dois 💕.

O menino e a borboleta.

O menino e a Borboleta.

Verdes campos, ondulando ao vento, salpicados de mil flores.

Uma criança brinca voando ao sabor do vento.

Encantado colhe uma flor. Que bem que ela cheira!

Perdido no aroma, embala um sonho.

Príncipe dos campos, empunha um ramo,

Espada dos sonhos feita de madeira… como brilha!

Uma borboleta, liberta do casulo, pousa no ramo.

Abre as asas… que colorido tamanho.

Realidade ou sonho? Pensa o menino.

Fada de mil cores dona dos campos em flor.

A borboleta voa… o menino ri…

Fada da felicidade é a sua borboleta.

Flores são o seu alimento, com néctar pleno de odores.

Verdes campos, milhares de borboletas…

Meninos bramindo sonhos, docemente encantados,

Correm, enfeitiçados… perseguindo borboletas,

Desenhos coloridos aos olhos inocentes,

Sonhos nascidos no caule de uma flor voam pelos campos.

Cansada, a mais bela das borboletas pousa…

O menino senta-se… de olhos brilhantes, observa.

Não ousa tocar-lhe, não a quer acordar…

Quieto, sonolento, adormece…

A borboleta é ele e voa sem parar.

Dança ao vento ao som do assobio da erva verde,

Que ondula e canta baixinho, num murmúrio doce.

Tantos meninos borboleta, tantas danças efémeras…

Tantos sonhos findados ao abrir dos olhos…

E o menino acorda, a borboleta fugiu…

O menino corre ao sabor do vento.

A borboleta refugia-se no meio de mil flores…

Todos no regaço dos verdes campos em flor.

Fortunata Fialho

Postal vintage.

Uma guerra interessante.

Uma guerra interessante.

Num reino branco distante

Um lápis e uma borracha guerreavam.

O lápis rabiscava, a borracha apagava.

O lápis corria, rodopiando em eterna fuga.

A borracha perseguia e apagava.

Na sua fuga o lápis a folha riscava,

Em perseguição a borracha apagava.

A corrida tornou-se vertiginosa,

O lápis parecia o vento forte,

A borracha tropeçava.

O lápis saltava, voava e aterrava.

Subitamente perdeu o bico.

A borracha foi definhando.

Um afia apareceu e ao lápis o bico devolveu.

Á borracha, pobre borracha, ninguém lhe valeu.

Com o tempo o lápis também se gastou,

A borracha quase faleceu.

Cansados e moribundos pararam,

Sem folgo para trás olharam.

Como podia tal ter acontecido?

Sob o seu olhar o mais belo poema…

Poema de amor e paz,

Poema de ajuda e partilha,

Poema maravilha… belo, de encantar.

Olhando um para o outro ambos sorriram,

Finalmente, lápis e borracha, puderam descansar.

Fortunata Fialho

Descoberta na net, mas que tem tudo a ver…

Reflexo.

Reflexo.

Na beira de um rio uma criança olha o seu reflexo.

De olhar iluminado pela surpresa, agita a água.

A água brinca com a sua imagem,

Desliza e foge levando o seu reflexo,

Lentamente devolve o reflexo do seu rosto.

Um raio solar ajuda na brincadeira,

Projeta-se na água calma e ilumina aquele rostinho.

A criança ri de contentamento e surpresa.

Como pode estar um espelho no meio do riacho?

Deve ser magia! Só pode ser magia.

Eleva o olhar e repara no reflexo do sol numa gota de orvalho.

Sob os seus olhos brilha o mais belo diamante,

Um diamante líquido e efémero que brilha como o seu olhar.

Salta e grita de felicidade, ri numa saudável loucura,

O mundo é seu e o sol brilha só para ele.

No reflexo dos seus olhos vive toda a felicidade.

No reflexo dos seus olhos mora o mundo.

O sol reflete-se no riacho projetando raios,

Lindos raios coloridos que enfeitam as folhas,

As flores, os animais… os brinquedos.

Sim os brinquedos tinham tons de arco-íris.

Nunca tinham sido tão bonitos.

Cansado, olha os reflexos no riacho…

De sorriso no rosto adormece e sonha…

Sonha que viaja num raio de sol

Feito barco no riacho que corre.

Fortunata Fialho

Porque hoje é um dia muito especial, a minha neta Mariana faz anos. Muitos parabéns Marianita, que as histórias dos outros tempos te façam sonhar.

Há muito, muito tempo…

A lareira crepitava e as chamas aqueciam,

As cadeiras arrastadas formavam uma roda.

Os corpos aqueciam esquecendo o frio da rua.

Na boca de uma idosa nascia uma história.

Nos brilhantes olhos das crianças fazia-se magia.

Há muito, muito tempo, os animais falavam

A vegetação dialogada e até as pedras contavam segredos.

Numa casinha pobre e isolada vivia a alegria.

O pão escasseava enquanto o carinho aumentava.

As crianças eram felizes e o cão latia…

Latia palavras envolvidas em latidos e lambidelas,

Palavras de amor e esperança.

O gato ofertada as mais suculentas peças de caça e

Num miado dizia: Comam, matem a fome.

Os pássaros cantavam belas canções de embalar

Acompanhadas do coro das árvores

E dos acordes melodiosos das suas folhagens.

No tempo em que todos os seres falavam

A felicidade habitava em todos os recantos.

Os homens criaram armas e os animais silenciaram-se.

Inventaram machados e as plantas calaram-se.

E o mundo tornou-se mais pobre.

Agora só as crianças escutavam os seus segredos.

As crianças, maravilhadas, escutavam.

O sono chegou e nessa noite o sonho imperou.

Sonharam com um mundo de comunicação,

Um mundo amor.

Noite fora o lume calou-se, as chamas apagaram-se,

As cadeiras arrumaram-se e o silêncio voltou.

Fortunata Fialho

Que para sempre sejas feliz meu amorzinho.