Deambulando

Deambulando

Deambulando percorro as pedras das calçadas.

Perdida em pensamentos não me apercebo das pessoas que passam,

Vultos que parecem fantasmas de um tempo que não é meu,

Lembranças de hoje num tempo distante perdido nos tempos.

Deambulo sem direção como se os caminhos não interessassem

Revivo tempos de felicidade onde morava toda a ilusão.

Dias tão recentes que parecem tão distantes.

Procuro os pedaços quebrados da minha felicidade

Tento colá-los com as minhas sangrentas lágrimas.

Pelo rosto desliza uma torrente de dor

Vinda de uma fonte que nasce bem fundo no coração.

Deambulo fora do meu corpo perdida da razão.

Grito ao vento o teu nome e o vento não responde.

Peço que me leves contigo nessa viagem sem regresso.

Nada mais me prende nesta vida sem sentido.

Partiste nessa viagem de onde ninguém regressa e não me levaste.

Deambulo na tentativa de me perder e não consigo.

De alma ferida e coração quebrado, fujo do mundo

Mergulhando entre a multidão sou invisível, não me encontro.

Cada dia que nasce é um passo rumo ao precipício

De onde não consigo encontrar coragem para saltar.

Nesta soma dos dias procuro a noite para contigo sonhar,

Procuro o sol para iluminar o desespero em que me encontro.

Talvez, num deles, encontre a morte e te volte a encontrar.

Fortunata Fialho

Nuvens negras

Nuvens negras.

Olho o céu e não encontro o sol, nuvens negras não o deixam ver.

Ao longe ecoam trovões e raios traquinas iluminam os céus.

Uma gota de chuva, desenvergonhada, pousa no meu nariz.

Um som intenso e assustador faz-me estremecer,

Num ribombar intenso a trovoada aproxima-se assustando o petiz.

Assustado chora no colo de sua mãe que o acaricia.

Outra gota descarada pousa em meu rosto.

Logo outras se lhe juntam e refugio-me em casa.

Das negras nuvens surge uma cascata,

A chuva torrencial inunda os campos e entra pela janela.

As ruas são rios caudalosos que tudo arrastam.

Todos os deuses parecem estar loucos, soltando fúria,

Lançam raios e fazem rufar os tambores.

Ou será a terra em revolta que chora e se lamúria?

Chora as dores das chagas abertas e não cicatrizadas,

Grita o sofrimento das queimaduras profundas,

Agoniza sem consolo num colo que já não existe

Pedindo à humanidade que a socorra.

O céu veste-se de nuvens negras e chora.

Chora, de desespero e raiva, em torrentes de lágrimas.

Pobre terra agonizante… temos que a salvar…

Fortunata Fialho

Medo

Medo

Nos recantos mais escuros sons misteriosos ecoam.

Transportados pelo vento norte penetram em cada casa,

Os habitantes amedrontados fecham os ferrolhos e trancam as portas.

À lareira contam-se histórias de almas penadas perdidas no tempo.

Aterrorizados os vivos escondem-se dentro dos lençóis,

Em cada canto uma ténue luz ilumina o escuro.

Pobres coitados, as pequenas chamas projetam sombras irreais.

Sem dó alimentam o terror com figuras incorpóreas.

No céu a lua não apareceu… mau presságio… é noite das almas.

Nas torres piam corujas, lá longe ouvem-se os mochos

Pelos ares esvoaçam morcegos… olhos brilhantes rasgam o breu…

Roncos ecoam na noite, monstros terríveis acercam-se.

Rezas aflitas soam nas casas… pedem proteção para os vivos…

Imploram clemência e paz para os mortos…

Finalmente o sol acorda e incendiar os ares,

As corujas e os mochos dormem e os morcegos recolheram-se.

Os vizinhos acordaram e os roncos calaram-se…

O vento continua a soprar sons que recolhe no ar.

As almas recolhem às tumbas fugindo da luz solar.

A lua adormeceu, o sol acordou e o vento continua a soprar.

Pobres almas vivas e supersticiosas,

Continuam em maldições inventadas pelo medo,

Terrores passados por histórias de tempos idos

Ditadas pela crendice e pela ignorância…

Alimentada pelo desejo de controlo e submissão.

Pobres mentes desinformadas, manipuladas e amedrontados…

O vento é só vento… As aves só aves noturnas…

Os roncos vizinhos que dormem… o escuro a ausência de luz…

As almas penadas fruto do medo em que nos ensinaram a acreditar.

Fortunata Fialho

E se…

E se…

E se o mundo fosse um sonho sonhado por uma criança?

Todos os dias mudava conforme o seu desejo.

Num dia teria Dragões e Ogres em luta eterna,

Noutro, princesas e príncipes em cavalos alados.

Por vezes campos floridos repletos de fadas,

Outras, palco de guerras intergalácticas

Onde a humanidade sempre acaba vencendo.

E se nesta vida não existissem guerras?

Ninguém lucraria com armas nem intrigas,

Não haveria raças, todos seriam iguais.

Não existiriam credos nem deuses, todos acreditariam na bondade.

Todos dariam as mãos numa partilha constante.

E se não existisse poluição?

Os rios e os mares só transportaram vida,

As águas permaneceriam cristalinas e puras,

Os campos seriam para sempre verdejantes e coloridos de mil cores.

Os animais não adoeceram nem se extinguiram,

Os insetos não picariam, as borboletas seriam ainda mais belas,

Os pássaros treinaram em sinfonia, cobertos de penas coloridas.

E se… todos quisessem… o mundo seria um lugar bem melhor.

Fortunata Fialho

Tempo de bonança.

Tempo de bonança

Tenho no peito a esperança nos tempos que aí vêm.

 O povo diz: depois da tempestade virá a bonança.

Acredito que tudo à minha volta terá de melhorar,

Que a alegria nos voltará a visitar,

Que as pessoas se irão abraçar,

Que as crianças poderão livremente voltar a brincar.

No futuro não muito distante choverão sorrisos,

 As fronteiras se abrirão e as pessoas se reencontrarão.

Lentamente a tempestade passará e o sol brilhará.

Tempos de bonança cuidarão de todos nós,

E na sua calmaria o céu será mais azul,

Os campos mais verdejantes e os mares mais calmos.

O longe voltará e tornar-se perto,

Sempre que se queira estaremos com quem amamos.

Os velhotes deixarão de estar sozinhos,

As crianças verão rostos e verdadeiros sorrisos.

Poderemos passear nas ruas sem medos,

Sorrir para quem passa sem nos afastarmos.

As ruas encher-se-ão de pessoas passeando,

Os jardins de casais enamorados trocando promessas de amor.

De sair à rua ninguém mais terá medo.

Sei que tempos de bonança virão e…

Por longos tempos não nos deixarão.

Fortunata Fialho

Livre

Livre

Quero ser livre, voar como o vento e alcançar as estrelas.

Quero ser como um pássaro que foge de uma gaiola,

Esvoaçar para o desconhecido sem olhar para trás.

Quero gritar bem alto o que me vai no coração,

Fazer soar a minha voz sem que a abafem ou censurem.

Caminharei sem objetivo em caminhos sem fim,

Navegarei os mares sem medo das tempestades.

Escreverei tudo o que me vem na alma

Cobrirei páginas e mais páginas de sentimentos,

Contarei histórias de almas livres de mordaça,

Darei voz a todos aqueles a quem a tiraram,

Falarei sempre… ninguém ouse calar-me.

Quero ser livre e apregoar a força do conhecimento,

Quero aprender tudo o que conseguir.

Não me escondam os livros, não calem as histórias…

Deixem-nas contagiar todos os que as ouçam.

Soltem o conhecimento… com ele virá liberdade.

Peçam ao vento que solte as palavras escritas,

Que as grite em todos os lugares

Que em todos os ouvidos ecoe LIBERDADE.

Fortunata Fialho

Tempo de bonança

Tenho no peito a esperança nos tempos que aí vêm.

 O povo diz: depois da tempestade virá a bonança.

Acredito que tudo à minha volta terá de melhorar,

Que a alegria nos voltará a visitar,

Que as pessoas se irão abraçar,

Que as crianças poderão livremente voltar a brincar.

No futuro não muito distante choverão sorrisos,

 As fronteiras se abrirão e as pessoas se reencontrarão.

Lentamente a tempestade passará e o sol brilhará.

Tempos de bonança cuidarão de todos nós,

E na sua calmaria o céu será mais azul,

Os campos mais verdejantes e os mares mais calmos.

O longe voltará e tornar-se perto,

Sempre que se queira estaremos com quem amamos.

Os velhotes deixarão de estar sozinhos,

As crianças verão rostos e verdadeiros sorrisos.

Poderemos passear nas ruas sem medos,

Sorrir para quem passa sem nos afastarmos.

As ruas encher-se-ão de pessoas passeando,

Os jardins de casais enamorados trocando promessas de amor.

De sair à rua ninguém mais terá medo.

Sei que tempos de bonança virão e…

Por longos tempos não nos deixarão.

Fortunata Fialho

Folhas caídas

Pelos campos o inverno avança sorrateiramente.

As árvores protegem-se largando as suas folhas.

Privadas do seu alimento, as folhas caiem

Tristes perderam a sua cor… secaram.

No chão um tapete castanho de folhas caídas.

Um tapete castanho de beleza perdida.

Folhas caídas jazem sem vida,

Tombaram inertes num descanso eterno.

Passeio sofrido acariciado pelo frio.

O vento chega e olha-as com pena.

Recolhe-as nos seus braços e eleva-as.

Projeta-as para longe fazendo-as voar.

Como asas de pássaros agitam-se,

Parecem reviver… voando contentes.

Cruzam os ares, viajam sem rumo.

Docemente pousam inertes

Desfazem-se em mil pedaços.

Folhas caídas… alimentam a terra.

Alimentam as sementes…

Na primavera renascerão novamente.

Fortunata Fialho

Mar, tranquilo mar.

Nostálgico caminha sem rumo.

Pensativo deixa-se levar.

O barulho da cidade está cada vez mais longe.

Caminha envolto em tristes pensamentos.

Finalmente a quietude… o silêncio.

Uma gaivota soa ao longe.

Uma leve e fresca maresia acaricia o seu rosto.

Uma lágrima, salgada, sulca-lhe a face.

Seus olhos tristes, azuis como o mar, perderam o brilho.

Subitamente, seus pés pisam o areal.

Grãos finos abafam os seus passos.

Cansado repousa no Areal.

Ao longe o mar compadece-se,

Movimenta-se em suaves ondas…

Num concerto mágico acalma-lhe as mágoas.

Suavemente movimenta as conchas

Depositando-as a seus pés.

Uma criança acerca-se e, pegando num búzio, diz:

-Escuta o som do mar, é lindo e doce.

O seu sorriso, brilhante, irradia felicidade.

Ingénua, pura, ternurenta… que linda criança!

O mar salpica-lhe o corpo e uma mãozinha acaricia a sua.

No seu rosto, triste, desenha-se um sorriso…

O azul dos seus olhos adquire o brilho do mar…

A tristeza desfaz-se como a espuma das ondas…

A tranquilidade acaricia- lhe o coração…

Feliz… brinca na praia, apanha conchas,

Escuta os búzios, chapinha na água …

E… envolto em maresia… regressa feliz.

Fortunata Fialho

Saudade.

Saudades

Um sorriso no rosto esconde uma dor na alma.

Uma dor que se agiganta em cada perda que se soma.

Um sorriso no rosto e uma lágrima que se esconde.

Uma gargalhada que sufoca um soluço que se solta,

Um choro que se dissimula numa palavra de alegria.

Um coração que sangra e se renova no amor.

Uma lágrima que se veste com um manto de felicidade.

Saudades de tudo o que nos faz falta

De tudo o que nos foi roubado deixando o vazio.

Uma mágoa que se agiganta no tempo que passa,

Uma ferida que nunca se cura e aumenta lentamente.

Uma lágrima que desliza ao som de uma melodia triste.

Um rio que nasce numa fonte permanente,

Que desliza num leito soltando suspiros e lamentos,

Gritos desesperados em busca do mar infinito.

Um aperto no peito, uma alegria fingida,

Uma busca de cura em novos amores.

Lamento!… Sim lamento.

O coração aumenta, o amor instala-se…

Mas a saudade não se cura…

Só aumenta de cada novo amor que se perde.

Saudades… tantas saudades…

Fortunata Fialho