Saudade.

Saudades

Um sorriso no rosto esconde uma dor na alma.

Uma dor que se agiganta em cada perda que se soma.

Um sorriso no rosto e uma lágrima que se esconde.

Uma gargalhada que sufoca um soluço que se solta,

Um choro que se dissimula numa palavra de alegria.

Um coração que sangra e se renova no amor.

Uma lágrima que se veste com um manto de felicidade.

Saudades de tudo o que nos faz falta

De tudo o que nos foi roubado deixando o vazio.

Uma mágoa que se agiganta no tempo que passa,

Uma ferida que nunca se cura e aumenta lentamente.

Uma lágrima que desliza ao som de uma melodia triste.

Um rio que nasce numa fonte permanente,

Que desliza num leito soltando suspiros e lamentos,

Gritos desesperados em busca do mar infinito.

Um aperto no peito, uma alegria fingida,

Uma busca de cura em novos amores.

Lamento!… Sim lamento.

O coração aumenta, o amor instala-se…

Mas a saudade não se cura…

Só aumenta de cada novo amor que se perde.

Saudades… tantas saudades…

Fortunata Fialho

Muitos parabéns minha irmã.

Desejo

Num tempo que já passou, uma menina sonhava.

Sonhava que um dia deixaria de estar sozinha.

Antes de dormir um desejo formulava:

Quero um mano ou uma mana, não quero continuar só,

O mundo é bem melhor quando se tem alguém para brincar.

O tempo passou e o sonho não se concretizou.

O pedido mudava, agora o desejo era ter alguém para cuidar.

Por vezes, quando queremos muito, os sonhos realizam-se.

Um dia, perto do Natal, um pequenino ser entrou na sua casa.

Pequenino, reguila,… lindo.

A menina que sonhava não queria acreditar…

Sem conseguir deixar de sorrir, o pequenino ser mimava.

Todo o tempo era pouco para o poder acariciar.

E o tempo passou, a pequenino ser cresceu,

A menina ficou mulher, mudou de casa e foi mãe.

E aquele ser pequenino?

Aquele ser pequenino cresceu mas nunca deixa de ser o seu sonho.

A menina sonhou novos sonhos, cada um diferente do primeiro.

Mas e o ser pequenino?

O ser pequenino eras tu minha irmã e a menininha era eu.

Foste o meu primeiro grande sonho,

Foste tu que chegaste num Natal antecipado.

Muitos parabéns meu desejo sonhado.

Fortunata Fialho

Preguiça

Preguiça

Dizem que a preguiça morreu de sede com o focinho dentro de água,

Coitada… de preguiça nem sequer abriu a boca para beber.

A preguiça é a pior conselheira… com preguiça não se formou.

Nunca construiu nada novo… infelizmente dava muito trabalho.

Nunca cozinhou… ligar o fogão implicava o braço erguer.

Não tomou banho pois esfregar-se era muito laborioso.

Esperou a chuva para se limpar… e alguma sujidade a chuva levou.

A preguiça nunca se arranjou pois despir o pijama lhe era penoso.

Pobre preguiça, nunca casou, para responder sim tinha que falar.

O desgraçado do pretendente cansou-se de esperar e…

Outro alguém decidiu procurar.

Um dia decidiu viajar… ao primeiro passo tombou,

O esforço era tão hercúleo que logo desistiu.

Preguiça nunca brincou. Um dia tentou e abrir a porta logo a cansou.

Pensou em chamar algum amigo… não tinha nenhum.

A casa nunca limpou pois só pensar nisso era atroz.

A preguiça nunca cantou… decorar as letras recusou.

A preguiça tem fome e sede mas nunca ninguém a serviu.

Os dias passaram e a preguiça um dia adoeceu.

Quis pedir ajuda mas não se moveu.

Com preguiça de gritar ninguém se apercebeu.

De inatividade a preguiça morreu… coitada também nunca viveu.

Fortunata Fialho

Sons.

Sons

O sol começa a raiar, oculta a noite que se retirou para descansar.

Ao longe soam os chilreios dos bandos de pássaros que acordam.

Rasgando o ar, o vento faz as árvores cantar.

Os insetos, cansados de tanto murmurarem na noite, dormem.

Outros se levantam ecoando músicas românticas,

Em simultâneo com bailados ricamente coreografados.

As flores murmuram à brisa promessas de amor

Em envelopes feitos de puro perfume selados de margia.

Uivam os lobos, ladram os cães, balem as ovelhas,

Cacarejam as galinhas, piam os pássaros…

Nos lares ecoam gargalhadas cristalinas de crianças.

Pés apressados soam nas calçadas,

Tamborilam correrias nas ruas da cidade.

Conversas apressadas, bons dias apressados… beijos de despedida.

Por todo o lado ecoam sons, uns a medo sussurrando,

Outros gritantes, estridentes, exuberantes…

Sons campestres… sons citadinos… sons de vida.

Sons da minha infância, premonições de futuro.

Sons da alma, sons de sonho, sonhos de amor.

Sons… simplesmente sons…

Fortunata Fialho

Sonhei…

Sonhei…

Sonhei… sonhei que o tempo tinha recuado…

Sonhei que estávamos todos juntos e… riamos.

Era outra vez adolescente e despreocupada.

No meio de um serão familiar foram lançados desafios.

Cada um dava o seu melhor mas eu só observava.

Quando todos esperavam pela minha participação

Levantei-me e declamei:

“Quero ser leve como uma pena e voar.

Passear pelo mundo sempre nos braços da brisa,

Pousar em cada sorriso de felicidade,

Beijar todos os lábios portadores de felicidade,

Acariciar todos os rostos felizes.

Quero ser palavra encantada… escutada…

Escutada por todos os ouvidos disponíveis,

Partilhada por todos os sonhadores, por todos os amantes.

Quero ser sentimento puro… sempre disponível.

Habitar em todos os corações expulsando o rancor,

Enchendo-os de amor, paixão e esperança.

Oferecer-me a todos aqueles que pratiquem o bem.

Quero ser alma e corpo amante,

Mergulhar no mar, cavalgar as suas ondas,

Rebentar em algum areal limpo e sem poluição.

Ser os lábios do mar docemente beijando a areia.

Finalmente, alisar uma cama de areia e finalmente…

Dormir feliz acariciada pelos raios solares.”

Ao verem como os meus olhos brilhavam,

E como o meu rosto irradiava felicidade…

Faltaram-lhes as palavras e sorriram.

Depois… depois não sei… acordei.

Fortunata Fialho

Vesti-me de versos.

Vesti-me de versos

Caminhando nua pela vida, vesti-me de versos e percorri caminhos.

Em cada percurso mudei de vestes… pelo caminho perdi algumas peças.

Nunca me senti realmente nua… sempre os versos cobriram meu corpo.

O vento soprou e os versos voaram revelando o meu corpo.

Com o poder do sonho cacei-os como se fossem borboletas,

Elaborei um vestido novo e abriguei-me dos olhares,

Colhi os versos que pendiam das árvores enquanto o vento gelava.

Teci um fantástico poema e com ele cobri meu corpo.

Que maravilhoso casaco, que palavras mais quentes…de carícias rimada.

Nasci nua e a minha mãe me cobriu de carícias, o meu pai de afetos.

Cresci feliz envolta em livros de histórias encantadas,

Vestida de poemas decorados com belas ilustrações.

Cresci e os poemas tornavam-se pequeninos…

Não fazia mal, os versos nunca me faltavam e as vestes aumentavam.

Nas noites quentes de verão cobri-me de poemas frescos,

Nas noites frias de inverno envolvi-me em poesia erótica,

Quente e envolvente como um amor tórrido e intenso.

Nos dias de primavera colhi flores e com elas versejei.

Vesti-me de poemas leves e perfumados, frescos e coloridos.

Banhei-me em versos revoltos num mar de palavras soltas.

Sequei-me no leito de rimas que o mar vinha beijar.

Vivi nas páginas de um livro, repousei na mais linda estante,

Adormeci e sonhei com um mundo poético e feliz.

Fortunata Fialho

Palavras são pássaros.

Palavras são pássaros

Palavras são pássaros que esvoaçam de ouvido em ouvido.

Quando saem da boca nunca mais voltam ao ninho.

São aves canoras que encantam com o seu versejar.

Doces melodias voando em bandos.

Em formações com forma de quadras… parágrafos…

Ou simplesmente em versos soltos levados pelo vento.

Textos pousando em todos os cantos,

Descansando em cada folha em branco,

Deixando marcados profundos sentimentos.

Palavras são pássaros encantados

Que cativam os ávidos de beleza.

Esvoaçam levando mensagens de tempos que já lá vão,

De mundos encantados soltos de um qualquer livro,

Povoando o imaginário de todas as gentes.

Palavras são pássaros sonhados

Que voam mesmo na noite mais escura iluminando o medo,

Destruindo os pesadelos mais tenebrosos

Libertando os sonhos mais belos,

Povoando as almas mais temerosas.

Palavras são pássaros inventados,

Portadores de esperança e futuro.

Inventores de mil histórias, qual delas a mais bela.

Inventando poemas dedicados a todos os amantes,

Pássaros esvoaçantes portadores de mensagens

De um futuro culto e sem condicionantes.

Palavras são pássaros livres sem gaiola que os possa prender.

Em cativeiro, de tristeza morrem

Mas como Fénixes renascem ainda mais livres.

Abrem horizontes, derrubam muros,

Sobem montanhas, viajam pelas estrelas…

Percorrendo o universo sem nunca se perderem. 

Palavras são pássaros imortais.

Que mesmo mortos revivem no sonho de cada sonhador,

No coração de quem ama.

Renascem sempre que um livro se abre

Perante os olhos ávidos de qualquer mortal.

Palavras são pássaros que vivem na alma da gente.

Fortunata Fialho

Muitos parabéns minha filha.

Crescer.

Tantos meses envolta numa mistura de sons e carinhos!

De repente o mundo parece ruir e a dor acontece.

Na inglória luta para ficar e um corpo que a quer expulsar,

O seu mundo muda, adquire luz e sensações muito variadas.

Frio, calor, sol, escuridão… e de repente o choro acontece.

Medo? Talvez! Ansiedade e insegurança? De certeza!

O carinho e amor tudo ajudam a superar.

De colo em colo, entre beijinhos e abraços, os dias passam.

Os sons acontecem e com eles as primeiras palavras.

Os brinquedos teimam em fugir e o gatinhar acontece.

Explorar é uma urgência e começa a caminhar.

O corpo cresce e com ele a personalidade evidencia-se.

Vem a escola e os amiguinhos novos… tantos anos de escola!

O corpo muda e as amizades também.

Os sonhos mudam e os príncipes encantados perdem o encanto.

Nenhum irá aparecer num cavalo branco…

Algures o encanto renasce e o encantamento acontece de novo.

A menina… adolescente… tornou-se mulher.

O tempo passou tão rápido como se a pressa o empurra-se.

Tempo inimigo de qualquer mãe… de qualquer pai…

Tempo ingrato que não tem contemplações e…

Teimosamente teima em não parar.

Um dia, quem sabe, o seu ventre será um mundo.

Um mundo de carinho e sons protetor de nova vida.

E o ciclo recomeça e o tempo não se detém…

Um tempo que se renova e agiganta alimentando-se

De um amor imenso existente no ventre de cada mãe.

E o tempo passa e os filhos crescem…

Fortunata Fialho

Puzzle de palavras.

Peguei numa caneta caixinha de surpresas,

Agitei-a e do seu bico soltaram-se incontáveis peças.

Admirada e um pouco assustada parei.

Como elementos de um puzzle de milhares de peças,

Pareciam convidar-me e dispu-las pela mesa.

Peça a peça construi imensas palavras soltas,

A mesa ficou cheia e as peças esgotaram-se.

E agora? O entusiasmo era tanto que não consegui parar.

Juntei as palavras e construi frases,

Frases sem nexo e um pouco loucas, soltas e livres.

As palavras esgotaram-se e a mesa continuou cheia.

Ainda me aparecia brincar, não conseguia desistir.

Juntei frases que pareciam querer colar-se,

A algumas troquei as voltas e mudei-as de lugar.

Por vezes uma fugia, não se queria encaixar.

Confortei-a, acariciei-a e levei-a a passear.

Passeámos de mãos dadas e por fim encontrou o seu par.

Acabaram-se as frases. E agora?

De braços cansados e sem querer acabar li as frases.

Li o mais lindo texto que poderia imaginar.

Falava de amor e paz, de ternura e gratidão,

De vida, musica, poesia, dança…

De águas puras e cristalinas, de ar livre de poluição,

De um mundo feliz, puro e perfeito,

De todos os sonhos feitos de esperança.

Cansada, adormeci e sonhei que o texto era a realidade,

Que a magia tinha acontecido e desejei nunca mais acordar.

Fortunata Fialho

Raio de luz.

Raio de luz

Pelo meio de mil nuvens, negras e sombrias,

Um tímido raio de luz espreita.

Ao longe, a uma criança de olhar triste,

O raio de luz acaricia o rostinho.

Os olhinhos iluminam-se e o raio cresce.

As brincadeiras sucedem-se.

Feliz, o raio viaja e pelos campos rodopia… dança.

No seu rodopiar aquece os solos, fá-los brotar.

Lindas flores cobrem o seu palco, perfumando os seus passos.

As nuvens comovem-se e choram grossas lágrimas

Regam os campos e engrossam os riachos.

Brancos lenços de nuvens algodão secam-lhes as lágrimas.

Lentamente, afastam-se e surgem mais raios de luz.

Das casas, bandos de petizes correm para na rua brincar.

E os raios de luz juntam-se… engrossam… alargam-se.

A timidez acaba-se e as nuvens libertam o caminho,

Agora o sol brilha e nos olhos de cada criança

Reflete-se em diamantes de felicidade.

O raio da luz, agora, é um gigante luminoso

Portador do calor do sol… entregando alegria…

Aquecendo a terra… abraçando os nossos corpos…

Raio amante… ternurento… fonte de vida…

Fortunata Fialho