Negro.

Negro

O negro desce sobre a terra e a luz perde-se no horizonte.

Um manto negro cobre tudo nas horas tardias.

No calor de uma lareira tosca de um pobre monte

Uma criança procura as estrelas através das vidraças.

Suas roupas são negras e as lágrimas correm no seu rosto.

Lá no alto as estrelas brilham como joias maravilhosas.

Uma brilha mais intensamente sempre que ele a olha,

No seu rostinho um sorriso se revela.

– Olha pai, é a mamã a mandar beijos.

Tinham-lhe dito que as pessoas não morrem,

Transformam-se em lindas estrelinhas no céu.

O seu coração brilhou por instantes soltando um desejo

– Vem ver-me todas as noites, brilha para mim…

Quero aceitar e devolver os teus beijos.

Um raio de luz surge, é o dia que se levanta.

Sob o parapeito da janela a criança adormeceu.

No seu rosto um sorriso brilha…

Tornando o coração do seu pai, que o observa,

Um pouco menos negro… e a dor esmoreceu.

Fortunata Fialho

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🌊 Mar, tranquilo mar. 🌊

Nostálgico caminha sem rumo.

Pensativo deixa-se levar.

O barulho da cidade está cada vez mais longe.

Caminha envolto em tristes pensamentos.

Finalmente a quietude… o silêncio.

Uma gaivota soa ao longe.

Uma leve e fresca maresia acaricia o seu rosto.

Uma lágrima, salgada, sulca-lhe a face.

Seus olhos tristes, azuis como o mar, perderam o brilho.

Subitamente, seus pés pisam o areal.

Grãos finos abafam os seus passos.

Cansado repousa no Areal.

Ao longe o mar compadece-se,

Movimenta-se em suaves ondas…

Num concerto mágico acalma-lhe as mágoas.

Suavemente movimenta as conchas

Depositando-as a seus pés.

Uma criança acerca-se e, pegando num búzio, diz:

-Escuta o som do mar, é lindo e doce.

O seu sorriso, brilhante, irradia felicidade.

Ingénua, pura, ternurenta… que linda criança!

O mar salpica-lhe o corpo e uma mãozinha acaricia a sua.

No seu rosto, triste, desenha-se um sorriso…

O azul dos seus olhos adquire o brilho do mar…

A tristeza desfaz-se como a espuma das ondas…

A tranquilidade acaricia- lhe o coração…

Feliz… brinca na praia, apanha conchas,

Escuta os búzios, chapinha na água …

E… envolto em maresia… regressa feliz.

Fortunata Fialho

💞Feliz dia do Poeta. 💞

Penso

Penso num mundo florido, num mundo colorido,

Num mundo amor.

Num mundo onde a monocromia é triste… monótona.

Num mundo onde a cor se quer diversa.

Como as flores silvestres revestem os campos,

Cores diversas enfeitam aldeias, vilas… cidades.

Cor… muita cor… viva o colorido!

Preto, branco, amarelo, vermelho…

Que bem que ficam juntos!

Misturemo-las todas… diversifiquemos o colorido.

Castanho, dourado, amarelo-torrado…

Pintam as ruas e plantam sorrisos nos rostos.

Que cores tão unidas… que felicidade tamanha…

Unidas desfilam em suave harmonia.

De mãos dadas são flores deste jardim.

Coloridas, perfumadas, unidas…

Deliciam o coração e acariciam a alma.

Que mundo tão belo!

Um mundo colorido com laivos de carinho,

Vermelho de luz, amarelo de sol,

Azul como a doçura liquida da água.

Verde como os campos renascidos,

Preto… coberto de estrelas,

Prateado como os reflexos da lua,

Ternurento como as mãos rosadas de uma criança.

Que mundo tão justo,

Um mundo amor.

Fortunata Fialho

Crónica de um mexerico.

Crónica de um mexerico.

Sim, não tomei conhecimento por terceiros, eu estava lá quando tudo começou.

Era um final de dia em que o calor teimava em não amainar, subitamente a porta abriu-se e eles entraram. Estavam cobertos de suor mas pareciam pessoas honestas. Eram desconhecidos no bairro e procuravam alguém de quem não consegui ouvir o nome. O empregado pelos vistos também não conhecia essa pessoa pois a resposta foi curta e simples “Nunca conheci esse senhor, não deve ser desta zona”. O assunto parecia ter terminado ali, as pessoas agradeceram, olharam em redor e saíram.

No dia seguinte passei por um grupo de vizinhos que me olharam de forma estranha. Sem me importar segui caminho quando, subitamente, me tocaram no braço e perguntaram “É verdade que ontem uns sujeitos, de aspeto duvidoso, ameaçaram as pessoas no bar por não lhe terem dito onde morava a pessoa por quem perguntavam?”.

A minha surpresa foi total, de onde tinha vindo toda esta conversa?

Amavelmente desfiz o equívoco e expliquei o que realmente tinha presenciado e segui caminho, pensava eu que tudo tinha ficado esclarecido. No dia seguinte a campainha da porta tocou, um agente da autoridade identificou-se e pediu para eu lhe contar o que se tinha passado pois tinha recebido uma queixa de que uns indivíduos suspeitos andavam rondando o bairro e os moradores andavam assustados. Supostamente eram os mesmos que eu tinha visto no bar.

Era uma realidade, as pessoas tinham-se transformado em bandidos perseguidores altamente perigosos. Pobres criaturas que nunca mais tinham aparecido no bairro nem nas imediações.

Perante toda esta confusão provocada pelos mexericos de quem não tem mais nada a fazer, se me perguntarem se a língua do povo é perigosa para o coitado que for seu alvo, eu diria, sem hesitação, que sim.

Fortunata Fialho

Uma nova poeta no palco nacional: Maria Cravo.

Prefácio

Antes de mais um grande obrigado pela honra da primazia na leitura de uma obra onde a arte da escrita se mistura com a pureza dos sentimentos.

Li e reli, todos os poemas na tentativa de me conseguir limitar na escolha de algumas passagens, de entre tantas, que me deixaram aquele arrepiozinho especial que só quem se encanta com algo pode explicar.

O seu encanto pelo mar e a calma que este lhe proporciona está bem visível nos seus textos. Que bom foi encontrar esta belíssima passagem:

“Abro os olhos e o mar cabe neste olhar.

Aquático, azul, frio, tão perto e distante,

Escorre em mim o sal dele e meu.”

            Novamente me vejo transportada a uma contemplação de um, não sei bem se um nascer ou pôr-do-sol, que se materializa como uma paisagem real:

“O horizonte tem agora a cor de fogo

E o mar flameja a ouro e prata.

Observo e deixo-me levar,

Passando a coragem pelo rosto.”

            Como se fosse minha, senti a dor da ausência que transpareceu nos seguintes versos:

“Que vazio infinito!

Diariamente e Sempre!

Ouço a tua ausência,

Sigo triste o teu olhar.

Dialogo contigo noite dentro,

E depois, vejo-te partir.”

            Com mestria faz transparecer a sensualidade de quem ama placidamente, saboreando cada momento.

“Enlevo-me na leveza dos teus pés,

Na música desenhada no teu corpo,

Na imaterialidade do momento.

Desejo perpetuar tanta beleza!”

            Subitamente senti-me envolta num amor e ternura em que, só quem continua amando quando a loucura da paixão inicial se apaga, tenta fazer de cada momento o rejuvenescer de um amor que deve resistir à passagem do tempo.

“Devagar, aproveitamos todas as migalhas.

Devagar, fruímos todos os instantes.

Devagar, penso em nós,

Sorrindo sempre.

Devagar, renovamos nossos votos.

Devagar, meu amor, devagar,

Porque nós somos eternos.”

            Quando, subitamente, me deparei com:

“Hoje, aqui, me assumi em soma

Do que fui, do que sou, do que ainda não.

E no espelhar da água inteira estou

Na simples conta de adição.”

Fiquei a pensar em tudo o que me fez crescer como pessoa, em tudo o que vivi e ainda viverei e a verdade é que somos a adição de experiências, a multiplicação da espécie, dividimos carinhos e atenção… Só não consegui encontrar a subtração a fazer-me crescer, subtrair é morrer.

            De alma cheia de amor e carinho retrata maravilhosamente o amor que uma mãe tem pelos seus filhos, um amor imenso que nunca se gasta e se multiplica por quantos filhos tenha.

“Ser mãe é ter colo, abraço, beijo.

Meu coração é sempre um berço,

E mesmo que desfeito, pulsará fora do peito.”

“Chegaste num beijo azul de mar!

Trazias ao peito o jeito de amar

E a calma solene da paz indizível.

Abraçaste-te em mim e ficaste.”

            Quando li o poema sobre o reencontro, quem sabe no além, com os entes queridos.

“Chegada a minha hora, entregar-lhe-ei a estrela que me deu

E juntos dormiremos álacres, porque não há mais para dizer.

Depois, alguém cantará uma canção, dirá um verso, uma oração

E essa será a nossa hora, e em esperança esperaremos.”

Uma lágrima deslizou no meu rosto e também desejei esse momento em que nunca mais voltarei a ter saudades daqueles que a morte me roubou.

            Muito mais tinha a dizer mas deixo o prazer de muitas mais descobertas aos leitores.

             Muitos parabéns, Maria Cravo, por esta obra que irá tocar o coração de todos os leitores e sim, pertences aqui como reflete a tua poesia.

Fortunata Fialho

Sim… acredito

Sim… acredito

Sim, acredito que o mundo poderá ser bem melhor,

Que os rios, mares e oceanos podem ficar limpos,

Que os campos se cobrirão de verde, sem flores de plástico.

Sim acredito que as guerras irão acabar e a felicidade irá voltar.

Que os animais jamais se extinguirão.

Que as plantas sempre irão florescer ricamente perfumadas.

Sim acredito que o amor contagia.

Que os corações duros podem ser suavizados.

Que por todo o lado ecoarão gargalhadas,

Que os olhos brilharão como estrelas,

Que nos lábios permaneça um eterno sorriso.

Sim acredito que em cada criança só exista amor e felicidade,

Que nenhum idoso será abandonado,

Que todos viverão saudáveis até ao momento de partirem.

Sim acredito que o sonho será uma constante em cada um,

Que a noite não trará mais pesadelos, só sonhos.

Que os sonhos sejam belos e coloridos,

Plenos de amor e esperança.

Sim acredito… talvez ingenuamente… mas acredito…

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet.

À luz da poesia.

À luz da poesia.

À luz da poesia revelam-se sonhos e quimeras.

Como a chama de uma vela, sombras irreais criam magia.

Pelos olhos desfilam mundos fantásticos… (i)reais.

À luz da poesia não existe frio e o calor só acaricia.

Todas as sombras se enchem de luz e os corações brilham.

Brilham intensamente, irradiando inocência e esperança.

Iluminada por essa luz imensa sonho…

Sonho com mundos encantados, céus de mil cores,

Campos cobertos de diamantes gotas de orvalho.

Campos verdejantes até onde a vista alcança… e mais além.

Verdes salpicados de mil flores arco-íris… mágicas… fantásticas…

Riachos de águas frescas e cristalinas matam a sede.

Nas suas águas refrescam-se corpos envolvidos pela sua carícia húmida.

À luz da poesia os amantes são mais amantes,

A pele mas sensível, os beijos mais intensos.

E os orgasmos? Ai esses são puramente divinais.

À luz da poesia não tenho idade… nem fronteiras.

Sou pura e inocente como uma criança…

Sábia… vivida… feroz… protetora…

Doce e ardente como a paixão… despida de preconceitos e tabus.

Iluminada, as palavras soltam-se compondo belos poemas.

Textos poéticos de frases melódicas… doces… eternas…

À luz da poesia… algures… nasce mais um poeta,

Mensageiro de beleza… esperança e sonho.

Fortunata Fialho

Nós. “Quero um poema”

Nós.

Num mundo como o nosso em que impera o Eu,

Em que só o Eu importa e se preserva a qualquer custo,

O outro não interessa… pode simplesmente esfumar-se.

Neste mundo egoísta esquecemos que somos uns Nós.

O mundo existe por nós… para nós…

Quando o sol brilha é para todos nós… quando se põe é para todos nós.

Quando chove, quando neva, quando faz calor, quando faz frio é para todos nós.

Com o Eu nada avança, com o Nós o mundo evolui vertiginosamente.

Unidos somos força viva, sozinhos… uma gota no oceano.

Nós fizemos coisas maravilhosas e cometemos atrocidades incríveis.

Nós somos o mundo… mudamos o mundo… cometemos erros e… corrigimo-los.

O Eu pensa que é o mais importante… o rei ou até Deus.

O Nós destrona-o e mostra-lhe o seu real valor…

Nós é quem realmente importa…

O Nós é pleno de poderes… melhor que qualquer herói.

Tem poderes infinitos… só temos de acreditar nele.

Eu, por mim, serei sempre um Nós…

Fortunata Fialho

“Simplesmente… Histórias”

Olhos abertos, raio de luz por entre os estores. No embalo de um abraço assim o começa o meu dia. O calor do teu corpo acaricia o meu.

Fica mais um pouco, hoje não tens de trabalhar.

Recosto-me no teu peito e fecho os olhos.

Hum… que bom aconchegar-me no teu corpo!

Fecho os olhos e deixo-me embalar pelo som da tua respiração. O contacto com o teu sexo incendia-me e na minha boca surge um gemido.

 Como pode um simples toque dar tanto prazer?

Perco-me no teu abraço. O tempo parou… o tempo passou a ser nós. Quero este tempo, só nosso… tão nosso… tão eterno…

Murmuras aos meus ouvidos… a tua respiração é ofegante e as tuas mãos um mundo de sensações. O meu corpo já não é meu, é todo teu… estou perdida em ti e não me quero encontrar.

Leva-me para o teu mundo, eterniza este momento. O meu corpo vibra e o raciocínio tolda-se. Não importa, nos teus braços sou sentido, sou sol, sou luz, sou… que me interessa o que sou… sou eu ou… sou tu, já não sei. Abraça-me com força, não me largues… o mundo não existe, só nós existimos, só nós interessados.

Prolonga este momento, deixa-me sentir-te em mim, sente-me em ti.

Já não sei o que faço e não me importo. Já deixei de racionalizar e passei a ser só instinto.

Não pares, ama-me, acaricia-me como se o amanhã não existisse. Esquece o mundo lá fora, deixa as horas passar, nada nos pode importunar.

O raio de luz intensifica-se e os nossos corpos estão exaustos, agora, é que sair da cama é quase impossível, abraça-me e embala-me no calor do teu corpo. Vamos dormir mais um pouco.

Hum… que calorzinho tão bom… fica mais um pouco.

Ainda é cedo…

Fortunata Fialho

Sons.

Sons

O sol começa a raiar, oculta a noite que se retirou para descansar.

Ao longe soam os chilreios dos bandos de pássaros que acordam.

Rasgando o ar, o vento faz as árvores cantar.

Os insetos, cansados de tanto murmurarem na noite, dormem.

Outros se levantam ecoando músicas românticas,

Em simultâneo com bailados ricamente coreografados.

As flores murmuram à brisa promessas de amor

Em envelopes feitos de puro perfume selados de margia.

Uivam os lobos, ladram os cães, balem as ovelhas,

Cacarejam as galinhas, piam os pássaros…

Nos lares ecoam gargalhadas cristalinas de crianças.

Pés apressados soam nas calçadas,

Tamborilam correrias nas ruas da cidade.

Conversas apressadas, bons dias apressados… beijos de despedida.

Por todo o lado ecoam sons, uns a medo sussurrando,

Outros gritantes, estridentes, exuberantes…

Sons campestres… sons citadinos… sons de vida.

Sons da minha infância, premonições de futuro.

Sons da alma, sons de sonho, sonhos de amor.

Sons… simplesmente sons…

Fortunata Fialho