Nunca mais é sábado.

Durante toda a semana pensei:

-Nunca mais é sábado.

Chegou o sábado e o que aconteceu? Passei o dia a limpar a casa, tratar de roupa, cozinhar,…

Descanso que era bom, nem vê-lo. Durante a semana o tempo não dá para tudo e a desarrumação acumula-se.

A empregada só trabalha com a patroa em casa, e esta está lá tão pouco tempo que não consegue fazer a criatura trabalhar.

De notar que a funcionária sou eu depois de colocar o avental e pousar a pasta do trabalho.

Enfim amanhã é domingo…

O domingo chega, elaboro materiais para a escola, durante a semana o tempo não foi suficiente para fazer tudo quanto era necessário. É altura de testes e os prazos não perdoam.

Apanho roupa, estendo roupa, cozinho, passo a ferro,…

Bolas, estou tão cansada!

O fim-de-semana foi-se e de descanso nada.

Neste momento só penso:

-Nunca mais é segunda-feira.

 

Fortunata Fialho em  ‘Simplesmente… histórias’

Brevemente nas livrarias

 

 

 

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Apetece-me

Hoje apetece-me passear. Percorrer os campos, cheirar flores, molhar os pés num riacho e respirar ar puro.

Não há nada tão compensador como uma ida ao campo. Engane-se quem pensa que vai encontrar silêncio, o silêncio não existe.

Como é bom ouvir o chilrear dos pássaros, os grilos, as cigarras, as rãs…

Gostava de conhecer o compositor que criou a sinfonia campestre. Onde se inspirou para obter tantas e tão harmoniosas notas musicais?

Sei o seu nome: Natureza.

Diz-se que aí se está em silêncio. Como eu gosto de escutar esse silêncio, pescar, ler um bom livro à sombra de uma árvore, fazer um piquenique em família ou simplesmente caminhar sem rumo.

O campo diminui o stress, aquece a alma, purifica os pulmões e, sobretudo, liberta-nos das preocupações diárias.

Quero pegar no meu carro e afastar-me da cidade, pegar na família e passear. Conversar sob uma árvore frondosa, rir de tudo e de nada, brincar sem me importar com as aparências ou simplesmente contemplar o horizonte em silêncio.

Apetece-me passear, libertar-me da monotonia e arejar. Quando me sentir cansada fazer uma pausa, dormir embalada pela natureza e sonhar os mais belos sonhos. Sonhar com mundos encantados onde tudo é bondade, onde não há fome nem doença onde só existe felicidade. Que belo sonho, sem bandidos, ladrões e sem maldade.

Quando, finalmente anoitecer ainda quero ficar mais um pouco a ouvir o silêncio da noite.

Quando o cansaço chegar volto para casa e vou dormir tranquilamente.

Passear no campo hoje… amanhã… sempre.

 

 

Fortunata Fialho  em ‘Simplesmente… histórias’

Brevemente nas livrarias

 

 

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Poema para a Antologia Portuguesa contemporânea: Quero.

Quero … quero tanta coisa que nem eu própria sei o que quero.

 

Quero voar como uma borboleta, pairar como uma sementinha, sentir o doce toque do vento.

Quero viajar no tempo, mudar o curso deste rio, reflorestar o planeta…

Quero nascer de novo, emendar meus erros ou, quem sabe, cometê-los de novo.

Quero ser eterna ou morrer num  momento de grande felicidade.

 

Quero entrar no teu pensamento, sentir o que tu sentes e dar-te tudo o que desejas.

Quero ser o teu maior amor, a tua maior felicidade a tua razão de viver.

Quero fazer amor contigo, subirmos aos céus, perder a noção dos corpos e só sentir.

Quero beber dos teus lábios, alimentar-me do teu amor e esquecer o mundo.

 

Quero acordar com o riso dos nossos filhos, a sua alegria inocente e o brilho do seu olhar.

Quero que, para sempre, sejam felizes, que nunca chorem e que só tenham razões para amar.

 

Quero acabar com a guerra. Quero que todo o ser humano só saiba amar.

Quero transformar todo o ódio em flores e as balas em doces manjares.

Quero que dos canhões saiam salvas, das metralhadoras rosas, que as espadas só cortem espinhos…

 

Quero ser luz e cor, doçura e ternura, paz e amor. Viver intensamente e sonhar.

Quero ser a princesa de um conto de fadas e viver num mundo de encantar.

Quero ser ideia, ser sonho, ser criação e ser renovação. Não quero ser ilusão.

Quero ser alma, quero ser desejo, quero ser começo… quero ser fim.

 

Quero… a todo o instante quero… não sei bem o quê… mas quero.

 

Fortunata Fialho

 

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Quero

Quero ser livre, livre de amarras, livre de fronteiras… livre, simplesmente livre.

Livre no pensamento, livre nas decisões, livre no sentir… livre para amar.

 

O tempo passa… a vida avança e, lenta e sorrateiramente, aprisiona a minha liberdade.

Vida traiçoeira que muda tudo aquilo que sonho, vida madrasta, vida saudade.

Vida que modela o meu querer, o meu sentir… vida manipuladora… vida (in)justa.

 

Ingénua, deixo que me manipule, me comande mas, mesmo assim, me ensine a amar…

Vida… minha vida, vida que vivo, vida que amo e nunca vou querer abandonar.

Vida que adoro, vida que odeio, vida… minha vida, vida amor.

 

Pendeste-me, teceste, tal aranha, maravilhosa teia em que me enredo e me perco.

Deste-me amor, vida, sonho, ambição, alegria, porém, também tristeza e dor.

Roubaste-me muitos dos que mais amei e, em troca, deste-me aqueles que mais amo.

 

Sou uma prisioneira nas tuas garras e, engraçado, geralmente não me importo.

Teceste a mais linda e invisível gaiola e nela me encontro sem liberdade nem escolha.

Nunca pensei que vida era prisão, vida deveria ser liberdade, conquista, luta, sucesso…

 

Surpreendentemente, na minha prisão, sou livre. Amo, desejo, sinto, luto e… penso.

Já tentei a fuga… não consegui. A tua sombra envolveu-me e fiquei sem saída.

 

Teimosa, como só eu, continuei tentando… doce ilusão, tentativas vãs…

 

Em jeito de consolo as pessoas sempre me disseram: ‘’Filha é a vida, não a podes mudar!’’.

Agora sei… fugir da vida… só se morrer. Aprendi a aceitá-la e simplesmente viver.

A vida é mesmo assim e… ninguém disse que a vida tem de libertar.

 

 

Fortunata Fialho em Simplesmente… Histórias, brevemente nas papelarias.

 

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Mértola

 

 

 

Filho

Dia de aniversário!

Neste dia especial lembro todos estes anos que passámos juntos. Lembro o teu primeiro olhar e o teu primeiro choro ( pelo menos os primeiros de que tive consciência).

O meu homenzinho com um choro que se destacava do choro dos restantes recém-nascidos. O meu pequeno tesouro.Uma pequena vida, gerada com muito amor, que passou a ser o centro do nosso mundo.

Vibrei com as tuas vitórias, chorei com os teus problemas e, sobretudo dei o melhor de mim para te tornar um homem de verdade. Um homem com princípios, integro, sem medo do futuro, um homem do qual me orgulho.

Cometeste erros, como qualquer pessoa, mas soubeste seguir em frente e aprender com eles.

Hoje és pai e, finalmente, vais compreender as nossas atitudes, vais ver que tudo o que fizemos foi para teu bem. Cometemos erros, tu também os vais cometer, mas foi sempre com a melhor das intenções e a pensar no teu bem estar. Tudo o que tu sentes por essa pequenina, linda, nós sentimos por ti.

Muitos parabéns meu querido filho, que o futuro te sorria e … que sejas sempre feliz.

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Nosso primeiro milagre.

Marmitar

Hora do almoço, por todo o lado surgem marmitas. Só um micro-ondas complica tudo, mesmo assim tem de ser tratado com carinho… se ele avaria estamos tramados.

Forma-se fila de espera para aquecer o almoço.

Já aqueces-te? Posso?

Eu já estava à espera, por isso aguenta um pouco.

Marmitar está na moda. Um desfile de marmitas último modelo, sucede-se. Outras, como a minha (sim porque eu também marmito), parecem vindas de outros tempos.

Que tens hoje para o almoço?

Que bem cheira a tua comidinha! Tens de me dar a receita.

Entre modelitos de conjuntos de refeição e conversas da treta o almoço vai decorrendo. Entenda-se que a conversa da treta não é depreciativa, a conversa até é interessante, os temas é que não são de grande interesse. Não poderia ser de outra forma… conversas sérias podem causar indigestão. Temas leves é o que interessa, para chatear já basta o que temos de aturar durante toda a manhã.

Entre dentadas o tempo passa, com os estômagos aconchegados os ânimos recuperam. Sim porque um estômago cheio tudo fica mais animador e menos stressante.

De estômago vazio o mundo fica sombrio e todos os demónios aparecem, pelo contrário, estômago reconfortado faz brilhar o sol e surgir o paraíso. Paraíso… paraíso, não digo, mas que tudo melhora… melhora.

Está na altura de recolher a louça suja e esconder a sua fealdade dentro das lindas, ou não, marmitas.

Aproveita-se o tempo para aferir algumas estratégias e procedem-se a alguns desabafos. O turno da tarde avizinha-se e a disposição parece estar a voltar… lentamente, que professor não é de ferro.

Encaminhando-se para as salas, de pastas a tiracolo e um sorriso no rosto, só de alguns… claro, porque outros já não conseguem, vamos para mais uma linda e estimulante aula.

Fazendo do sorriso arma de arremesso, tentamos cultivar com algum conhecimento, as mentes dos nossos alunos. Entretanto vai chegar a hora do tão almejado descanso.

Amanhã será um novo dia e, de pasta a tiracolo e de marmita na mão começaremos mais um dia de trabalho.

 

 

Fortunata Fialho em Simplesmente… histórias

Brevemente nas papelarias

 

 

Imagem retirada da internet

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