Coisas de crianças em “Simplesmente… Histórias”

Durante a minha infância, na minha aldeia, morei numa casa em que três portas se alinhavam.

Porta do quintal, que dava para a cozinha, porta da cozinha para a sala de jantar e a porta da rua.

A iluminação era feita através de candeeiros a petróleo os quais tornavam o ambiente um pouco irreal e propicio a divagações na minha cabecinha de criança.

Durante o serão reuníamo-nos na cozinha e não havia o hábito de se fecharem as portas, hábito que ainda mantenho atualmente.

Os meus brinquedos estavam arrumados na parte inferior da mesa da cozinha, nada se podia estragar. Ali estavam seguros e longe das mãos que as podiam estragar. Sim porque eu estimava muito todos os meus brinquedos.

Como todas as crianças adorava brincar imitando os adultos.

O serão passava e as brincadeiras continuavam.

Passeava por toda a cozinha mas, tinha um grande problema, quando cruzava a porta da sala de jantar um vulto negro passava ao mesmo tempo.

Nos meus poucos aninhos eu não percebia e, para evitar a sua presença, corria para que ela não me alcançasse.

Sorte malvada, ela acompanhava-me sempre.

A correria continuava sempre que passava pela dita porta.

Só algum tempo mais tarde percebi que, este meu inimigo não era mais que a minha sombra.

O candeeiro projetava-me de uma forma tão especial que tornava assustadora e irreal a minha própria sombra. Coisas de crianças!

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet
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“Simplesmente… Histórias.” Contracapa.

Leitora assumida, como diz meu esposo, devoradora de livros. Escrever e ler proporciona-me felicidade, sonhos e viagens imaginárias. Quando escrevo ou leio sinto-me transportada a mundos diferentes, parece que esses mundos podem ser meus, mesmo que seja somente nos meus sonhos. A escrita e a leitura envolvem-me em magia. Com elas sou criança novamente, viajo no mundo da fantasia, vivo nos contos de fadas e, sobretudo, sonho acordada.

Um bom livro preenche a alma e acalma o coração.

Esta sou eu, com todos os defeitos e as qualidades de uma pessoa comum, no entanto eu sou… eu, única e real.

Fortunata Fialho

Uma sátira em “Simplesmente…Histórias”

Querida, depois de tantos anos na escola a aprender a falar bem e a comportar-me, aconteceu apaixonar-me por ti. Parece impossível que o comum dos mortais tenha tal paixão e, logo eu, fui perder-me assim que os meus olhos em ti tropeçaram.

Quando, durante aquele passeio pelo campo te encontrei, o mundo parou, que criatura linda! Que coisinha fofa! Que deleite para meus olhos! O mundo parou, o meu coração disparou e o peito quase rebentou. No meio de tantas irmãs a tua alvura sobressaía, o teu pelo brilhava tal prata brilhando sob a luz do sol. Que beleza tamanha e eu, petrificado e estupidificado, contemplava-te enquanto te entretinhas na tua refeição matinal.

Naquele mesmo instante desejei que fosses minha, levar-te para casa e acariciar-te até as minhas mãos doerem. Perder-me no meio da tua lã, descansar a minha cabeça nessa doce almofada de que nunca te separas, descansar o meu corpo no teu corpo quentinho e, amar-te como nunca ninguém amou um ser como tu.

Nunca mais te deixarei voltar a ser uma entre muitas, num rebanho obediente e sem vontade própria. Serás a única do meu rebanho onde reinarás sobre o meu mundo. Nunca mais, outro alguém, passará a mão pelo teu pelo, nunca mais beberão do teu leite, será todo meu e nele saciarei toda a minha fome e o meu desejo.

Agora anseio todas as noites de insónias pois aprendi o quanto é delicioso contar carneiros. Agora conto ovelhas. Tu, tu, tu… e mais tu. O sono não vem e eu continuo deliciado no meu contar. Tu, tu e sempre tu.

Que amor tamanho, que perdição, como pode tal coisa acontecer-me? Escrevo esta carta apaixonada e sei que nunca a poderás ler. Sinto-me ridiculamente apaixonado a escrever esta ridícula carta de amor. Ridículo e… ridiculamente apaixonado.

Fortunata Fialho

Em “Simplesmente… Histórias”

Era o medo o que nos vinha acariciar naquele banco de jardim

As tuas palavras, cortantes como punhais, dilaceravam mortalmente:

‘’Recebi ordens, tenho de partir, embarco já amanhã.’’

As lágrimas queimavam-nos o rosto… as vozes silenciaram-se.

Olhámo-nos intensa e demoradamente… quem sabe se pela última vez.

Tantos voltavam envoltos em mortalhas, frios e inertes… corpos sem vida.

Que medo devastador… abraçámo-nos e, em silêncio caminhámos.

Era a nossa última noite, uma noite que teria de ser eterna, perfeita… inesquecível.

Nessa noite o mundo parou, as roupas caíram e os corpos fundiram-se.

Nunca os nossos sentidos foram tão intensos… nunca fomos tão plenos.

Cada segundo valia uma vida, cada carícia penetrava mais fundo.

Céus, como os nossos corpos encaixavam envoltos na mais sublime das paixões.

A tua pele era a minha pele, o teu suor o meu suor, a tua carne a minha carne.

A manhã chegou e encontrou-nos envoltos, um no outro, como um corpo só.

Olhámo-nos e chorando, sorrimos, tinhas que partir …

As forças faltavam-nos e o abraço continuava. O medo voltara numa carícia incandescente.

Queria ficar contigo marcado em mim até ao teu regresso… e… fiquei.

Ainda sinto o teu toque, o teu cheiro, os teus sussurros e… espero o teu regresso.

Hoje voltaste, a felicidade envolve-nos e o medo que nos acariciava morreu.

Fortunata Fialho

Uma das “Simplesmente… Histórias”

Dos dois avôs que tive só me lembro bem de um deles. Infelizmente perdi o outro quando ainda tinha seis anos.

Este meu avô tinha uma história muito particular.

Para começar as iniciais do seu nome eram, precisamente, três M(s).

Por agora vou chamar-lhe só o primeiro: Manuel.

Quando, muito jovem, o irmão foi chamado para a tropa e surgiu um

grande problema: este irmão já não existia. A sua morte não ficou devidamente registada na Conservatória, segundo a família, por incompetência do funcionário da época.

Decorria nesse mesmo tempo a “Guerra de Catorze” e, para evitar a prisão, o pai tinha que tomar o seu lugar. O meu bisavô já era demasiado velho e, a conselho de um advogado, só havia uma hipótese, “matava-se” o meu avô “revivendo” assim o irmão.

Assim, o meu avô, repentinamente ganhou dois anos a mais e teve que partir para a guerra.

Não sei por onde lutou. Sei no entanto que foi um dos sobreviventes. Sei também que sofreu com a guerra química e ficou um pouco afetado.

Não sei que volta deu a sua vida. Só sei que de primogénito de uma das famílias mais ricas da região acabou na miséria no Alentejo.

Segundo a família foi o álcool e os falsos amigos que contribuíram para isso. Como nós dizíamos estava preservado em aguardente (a sua bebida de eleição).

Só me lembro dele já bem velhinho e a fumar tabaco (de onça) Duque, enrolado em mortalhas de papel.

Nunca mais me esqueço do olhar de contentamento e orgulho quando lhe apresentei o meu namorado, era a primeira neta a dar-lhe semelhante honra.

Dependente dos filhos passava o tempo ora em casa de uns, ora em casa dos outros.

No tempo que passava connosco lembro-me dos meus pais esconderem as bebidas bem fechadas à chave.

Um dia descobriu uma garrafa de aguardente no frigorífico e foi bebendo, às escondidas, e substituindo por água o espaço vazio. Desapareceu de casa e foi o desespero total. Todos o procurámos pela cidade inteira e do avô nem sinal. Já se pensava o pior quando recebemos um telefonema da minha tia a dizer que estava em sua casa.

Só para fazerem uma ideia saiu de Évora seguindo a linha de caminho-de-ferro até Montoito e daí para as Aldeias de Montoito. Para que não restem dúvidas era nessa localidade que se sentia em casa pois aí passou a maior parte da sua vida.

 Quando não tinha acesso a bebida não se metia nestas aventuras. Não havia aventuras mas falava dia e noite num tom de voz muito alto. Contava coisas que lhe aconteceram na guerra, factos históricos reais e peripécias de guerra.

Quando o tema não era guerra falava de geografia, história, sabia as linhas de caminho-de-ferro de cor e salteadas, os nomes dos rios de muitos países e tantas outras coisas.

De notar que era uma pessoa culta, possuía a quarta classe, o que na época era um privilégio muito especial só alcançável a muito poucos.

Com oitenta e muitos anos lia, sem óculos, todo o tipo de letra, por mais pequena que fosse. Tal como eu adorava ler. O seu cabelo ainda tinha mais fios negros que prateados, a sua agilidade ainda deixava alguns, muito mais novos, cheios de inveja.

Lembro-me que passava meses a guardar no bolso frutos secos e guloseimas para dar à neta (a minha irmã) que ainda era uma criancinha. Alguns chegavam estragados mas contava a intenção.

Nunca me lembro de o ver acamado nem com problemas de saúde graves, até o seu fígado tinha sobrevivido ao álcool que teve de processar durante toda a vida.

Lembro-me de ouvir dizer que sempre que começavam uma briga perto dele, mesmo bêbado, se afastava dizendo: “-Quem as fez que as desmanche”.

Segundo a família era capaz de despir a própria camisa para a dar a quem necessitasse. Com a esposa e os filhos existiram alguns problemas que, por agora e até não poder ferir sentimentos de pessoas que amo muito, vão continuar em segredo na família.

Com todos os seus defeitos e qualidades era o meu querido avô Manuel.

Um dia adoeceu e, passadas cerca de duas semanas, faleceu tranquilamente em casa de uma das filhas.

Hoje, passados tantos anos, ainda tenho saudades das nossas conversas e das suas peripécias. Era bom que vivesse para sempre mas, isso não pode acontecer.

Assim vamos perdendo os nossos entes queridos e relembrando para sempre, de preferência, as suas qualidades.

Ainda lembro a sua voz, o seu cheiro e os seus grandes monólogos.

Engraçado já não choro a sua perda mas lembro a sua presença como se ainda estivesse vivo. Meu avô Manuel …

Fortunata Fialho

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Triste alma em “Simplesmente… Histórias”

Triste alma te tornas-te! De que fados foi feito, ou desfeito, o teu passado?

Ergue-te e reage. Reencontra a tua dignidade. Luta e recupera a tua vida.

Aqui deitado, pobre desgraçado, tonaste-te invisível e, por todos, rejeitado.

Venceu-te o desânimo, abandonou-te o orgulho, perdes-te a dignidade… foi-se-te a vida.

A tua alma chora de tanta dor, tanta humilhação, tanto desprezo… tanta solidão!

Acredita, por baixo dessa capa de miséria e sujidade, ainda existe um ser humano.

Acredita, por mais dura e inclemente que seja a vida existe, sempre, alternativa. 

Dizes que todos te abandonaram, que a vida te é madrasta, que não tens saída.

Consigo sentir a tua dor e o teu desespero, a tua solidão… o teu desânimo.

Acreditas que nada mais faz sentido, desejas a morte… vives envolto em sombras.

O sol deixou de brilhar. Já não sabes sorrir nem tão pouco chorar. És… nada.

Já não és humano. És menos que um animal. És lixo na beira da estrada.

Tens fome, há muito que não sabes o que é uma refeição. Lentamente… morres.

 Partilha a minha refeição e veste estas roupas. Nada mais tenho para te dar!

Come, sacia essa fome. Asseia-te e, de cabeça erguida caminha, mostra que tens dignidade.

Oferece o teu trabalho nem que seja só em troca de um naco de pão. Não mendigues.

Mostra que és um homem, mostra o teu valor, recupera a tua dignidade…

Não és lixo. Bate a todas as portas, alguma se abrirá. Nunca baixes os braços.

Tu és gente. Tens capacidade, valor, futuro… Só te falta fé e determinação.

Sorri. Enfrenta o mundo. Deixa que os teus olhos brilhem… conquista o teu espaço.

Fortunata Fialho

“Simplesmente… Histórias”

Sentei-me ao computador com uma enorme vontade de escrever. Surpresa! Perdi a inspiração.

E agora? Que faço com esta vontade?

Olho em volta e nada me inspira.

 Que monotonia está tudo na mesma.

Olho pela janela e o sol brilha. Há tanto tempo que andava desaparecido. Percorro o espaço exterior com os olhos.

Vejo lindas flores nos meus canteiros, todos os dias aparecem mais algumas.

O meu quintal resplandece de cor e de alegria. Os pássaros chilreiam nas árvores. Não consigo descobrir nenhum ninho, talvez ainda seja cedo.

Vistosas joaninhas passeiam-se sobre as flores comendo o piolho das plantas. Uma borboleta esvoaça em redor da minha janela. Deve de estar a exibir o seu belo colorido, e que colorido! Recuso-me a pensar que anda a depositar os seus ovos nas minhas plantas. As lagartas vão banquetear-se e eu vou ficar muito aborrecida.

No canil as cadelinhas estão estendidas a apanhar todo o sol que podem, nem me ligam. Eu bem me esforço mas elas ignoram-me.

Tantas abelhas no meu quintal! Será que não me vão picar? Talvez deva ter cuidado e deixá-las andar à vontade.

Levanto o olhar e surge um céu tão azul que encandeia. Nenhuma nuvem o mancha.

De vez em quando, passam alguns pássaros voando e chilreando.

Contínuo sem inspiração. Não sei por onde começar. Talvez seja melhor desistir, fechar o computador e esperar por melhor ocasião.

Vou esperar pela minha inspiração. Talvez ela se digne voltar.

Se voltar posso escrever mais uma história daquelas que tanto gosto tenho em contar.

Fortunata Fialho

Simplesmente mais uma de “Simplesmente… Histórias”

O sol brilha, uma deliciosa brisa percorre os campos. Saio e procuro descontrair.

Deitada na relva observo o voo dos pássaros. Que bom seria voar!

Graciosamente interpretam um inebriante bailado … que doce encanto para os meus sentidos.

Contemplando tal beleza adormeço … ou não … talvez esteja acordada e não saiba.

Envolta em raios solares sonho … sonho que voo e as minhas asas cortam o vento.

O calor reconfortante dos raios solares, acariciam a minha pele e … danço.

Participo no inebriante bailado e deixo-me levar ao sabor do vento.

Hum … que delicia. Que plenitude de sensações, que doce encantamento.

Entre chilreios as minhas asas movem-se, sou a estrela entre as estrelas.

Uma nuvem cobre o sol … desce sobre mim. Engraçado … que bela nuvem!

A sua presença acaricia, acalma e reconforta. Nela tudo é brilho e luz.

No meu corpo, seminu, sinto uma onda de prazer, deliciosos lábios tocam-no levemente.

A suavidade da seda cobre-me toda a pele, um calor húmido percorre-me.

Envolta em prazer, elevo-me aos céus, flutuo nas asas de Cupido e subo ao Olimpo.

Hum … como é possível tal prazer? O meu corpo estremece, imperam os sentidos.

Em mim não cabe mais prazer e o meu corpo explode numa onda de êxtase.

Lentamente, desço ao meu relvado e uma doce tranquilidade envolve-me.

Obrigado amor, senti, voei … perdi toda a noção de mim.

Não preciso de asas… voei. Contigo aprendi que o sonho é realidade.

Vivo intensamente, sinto intensamente, sonho acordada, sonho contigo …

Agora entendo quando alguém diz: ’’… e nenhuma pele está impedida de voar’’.

Fortunata Fialho

“Simplesmente… Histórias.”

Juntos, tivemos partilha, vida, sonhos, vitórias… bons tempos.

Recordo a tua pele na minha pele, o teu sexo no meu sexo …

Parece que ainda sinto a intensidade dos nossos orgasmos e o êxtase dos nossos sentidos.

Sem limites dediquei-te toda a minha vida, toda a minha essência.

Vivi para os nossos encontros, para a intensidade dos nossos sentidos.

Nos teus braços, esqueci-me de mim … eu não era nada sem ti.

No meio de muitas desculpas, disseste que o nosso tempo se gastou.

Não entendo como se pode gastar o tempo, o meu não se gasta.

Partiste … eu fiquei. Contigo levas-te o nosso tempo e, pensava eu, a minha vida.

Chorei a perda, chorei o abandono, chorei o desamor … chorei o nosso tempo.

Chorei até se me acabarem as lágrimas, e mesmo assim continuei chorando.

Continuo a amar-te mas, finalmente, revivi. Gastou-se o nosso tempo, não a minha vida.

Agora vou viver, talvez encontre outro grande amor… se não encontrar não importa…

Hoje o tempo é meu, finalmente recuperei-o. A minha vida, o meu tempo, já não és tu.

Hoje vou sair e divertir-me, flirtar, rir, amar, sentir o cheiro do mundo,

Escutar os sons da natureza, desfrutar do barulho do silêncio … viver o meu tempo.

Hoje vou obter o orgasmo dos meus sentidos e o êxtase da minha vida.

Hoje vivo o meu tempo, intensa e apaixonadamente. Não tenciono gastá-lo.

Caso se gaste o tempo não vou deixar que se gaste a vida. Vou continuar a viver, a sonhar e a amar.

Vou, eternamente, ser feliz e o tempo será só meu.

Fortunata Fialho