Sonhos de criança.

Sonhos de criança

De olhos brilhantes espelhando o mundo, toda a criança sonha.

No seu mundo mágico não existem limites nem censura.

Sonha que os bracinhos são asas e os lençóis brancos as nuvens.

Voam por cima de algodão doce, pousam nas asas de uma cegonha.

Dançam como prima bailarinas no campo verdejante do seu tapete.

Em tapetes voadores visitam Aladino, roubando o génio e escondendo-o no regaço.

Pedem desejos de sonhos de fadas, cavalos alados, de doces e de ternura.

Sonhos de criança ingénua e pura, de coração aberto em eterna procura.

Sonha com sereias, guerreiros e super-heróis esgrimindo armas de pau.

Uma colheita de estrelas guardada numa caixinha…

 Tesouro precioso de pedrinhas brilhantes.

Em naves de papelão percorrem o universo em busca de extraterrestres.

Descobrem-nos na caixa de brinquedos, planeta distante ao alcance da mão.

Donos do mundo querem ser crescidos… gigantes sonhados de palmo e meio.

 Por fim cansados procuram os pais, sobem para o colo e adormecem…

Um abraço apertado, uma ternura imensa, um doce sorriso… o mundo na mão.

Fortunata Fialho

Tempo

Tempo

O tempo não tem idade… não sabe onde nasceu.

O tempo é órfão e não sabe.

O tempo é Deus… é saudade…

É Fénix renascendo sempre que se fina.

É imortal… intemporal… eterno.

O tempo tarda… o tempo foge…

Espirito indomável… amante ciumento,

Possessivo, intenso… doce e terno.

Tempo dos amantes… terno e apaixonado,

Tempo dos inocentes… ingénuo e sonhador.

O tempo é criança traquina e apressado.

O tempo é velho… sábio e sensato.

O tempo é meu e não me pertence.

Traidor inclemente passa e não se detém.

Teimoso insensível, nunca volta atrás.

Lento e indolente, teima a tardar,

Rápido foge e não se deixa apanhar.

O tempo não tem tempo… que estranho!

Por vezes corre, outras é tão lento… que raiva!

Quero o meu tempo para te dar tempo,

Para isso preciso do tempo que o tempo não dá.

Tempo (in)justo, (in)clemente, padrasto… pai…

Acalma-te não te apreces, ainda tens muito tempo…

Sossega, descansa… passeia por aqui.

Tempo não me deixes… preciso de ti.

Fortunata Fialho

Sonho acordada…

Sonho acordada…

Triste e melancólica olho o horizonte e, acordada, sonho.

Sonho que ao ligar o rádio as notícias são de esperança.

Que a televisão fomenta a cultura e o respeito.

No meu sonho os livros enfeitam as estantes de todas as casas,

Ao alcance de todas as mãos, independentemente da sua idade.

As crianças crescem a ouvir histórias de encantar.

Que ao adormecerem sonham com fadas, príncipes e princesas,

Com mundos de encantar onde só a felicidade entra.

Que não lhes escondem, ou manipulam, as histórias antigas.

Eles têm de saber que, mesmo nas suas histórias, o mal existe.

Que as princesas podem conviver com demónios, ogres, duendes…

O bem e o mal sempre caminharam lado a lado,

A luz e a sombra são inseparáveis,

O medo é saudável, fomenta a coragem que tudo pode superar.

Sonho que ninguém vive aterrado, que os erros do passado lhes serviram de lição.

Sonho que no mundo acabaram as guerras e as fronteiras.

Que o sangue não enfeita os solos e que os campos permanecem floridos.

No meu sonho o riso das crianças é puro e cristalino.

Sonho que não haverá mais órfãos, fome, doenças…

Sonho que ninguém fala em raças, que não existe o fanatismo,

Que todos somos iguais independentemente do sexo ou idade.

Sonho que o mundo é perfeito…Estou acordada e sonho.

Lentamente, encaro a realidade e uma lágrima percorre o meu rosto.

Triste mundo em que vivemos… a dor e sofrimento é uma constante.

O pesadelo acontece e… eu estou acordada e sonho…

Mar infinito.

Sobre o azul cristalino do mar pousa o meu olhar.

Sentada na areia húmida e fresca, contemplo o infinito.

Onde acaba o mar e começa o céu?

Não consigo distinguir, o azul é imenso… tranquilo.

Nas ondas brilham diamantes… um manto de encantar.

Envoltas em estrelas brilhantes as ondas sucedem-se,

Descrevem coreografias elaboradas ao ritmo da força do vento.

Umas acariciam docemente a areia, beijando cada um dos seus grãos,

Outras, num arrebate apaixonado, envolvem-nas num turbilhão.

Como amantes, envoltos num tórrido abraço, rolam pela praia.

O vento, ciumento, tenta afastar as ondas.

O areal repousa húmido e quente… espera pela onda que se acerca.

Num eterno romance o mar e o areal formam um só.

Subitamente, uma sensação de humidade desperta-me.

O mar parece dizer, entra, torna-te parte de mim.

Numa provocante caricia percorre o meu corpo,

Vibro, não sei se de prazer ou de frio, e deixo-me ficar.

Pelo meu corpo correm ondas de frescura,

Fecho os olhos e cada poro do meu corpo estremece de prazer.

Como amo este mar! Como me sinto feliz!

Envolta nas suas ondas sinto-me viva… plena.

Nos seus braços deixo a realidade e transportou-me ao Olimpo.

Como uma deusa não sou mais deste mundo.

Sou uma miragem, um sonho… divina.

O mar recua e abandona o meu corpo… desperto do sonho.

Contemplou o infinito azul… sorriu e… estou feliz…

Fortunata Fialho

Suicídio

Suicídio.

Pelo beiral da minha casa uma gota de chuva suicida-se.

Considera-se menos importante que o aguaceiro.

Perdeu o ritmo das suas irmãs, atrasou-se… coitada!

Convenceu-se de que nada valia e perdeu o ritmo.

No seu desânimo perdeu o interesse na vida.

Convenceu-se de que nunca chegaria ao mar…

Ao rio… à ribeira… nem sequer ao pequeno regato do quintal.

Pobre gota de chuva… tinha toda uma vida pela frente,

Bastava um pequeno esforço e teria sido regato,

Crescido e ser uma ribeira, umas léguas à frente rio.

Sem se aperceber teria sido mar, percorreria os oceanos.

Que pena… o desânimo tomou conta de si…

Não conseguiu lutar… evaporou-se… suicidou-se.

Bastava ter-se deixado cair, as suas irmãs esperavam

E ela não chegou. As outras choraram e partiram.

O mundo não terminou, o regato continuou a correr

Tornou-se ribeira, engrossou e foi rio,

Continuou a crescer e foi mar… oceano.

Pobre gotinha triste… não conseguiu pedir ajuda,

Isolou-se… chorou em silêncio… adoeceu,

E num lamentável suicídio evaporou-se…

E todas as suas irmãs choraram, gritaram, lamentaram,

E numa última e sincera súplica em uníssono desejaram:

Que mais nenhuma gota se suicide, que a tristeza nunca mais vença,

Que toda a gota chegue sempre ao riacho mais próximo

A partir daí todas chegarão ao mar.

Que voltem todas as que se evaporam,

Que gotas voltem a ser e, que do planeta todas venham cuidar.

E a gota teve nova oportunidade, nova vida, dizem alguns.

E hoje brilha no cimo de cada onda, no leito do mar.

Fortunata Fialho

 

Um pouco de “A soma dos nossos dias”

(….)

Comecei a viagem com uma visibilidade impecável, mas de repente um denso nevoeiro surgiu como uma cortina para a invisibilidade. Cega momentaneamente, confesso que me assustei.

Quando cheguei ao trabalho uma notícia deixou-me bastante triste e preocupada, um meu antigo aluno foi colhido por um touro e está a lutar pela vida no hospital. Como é possível que estes miúdos se metam em situações destas? Só tem dezasseis anos, espero que consiga recuperar, ninguém merece. Numa aula de Educação Física duas miúdas magoaram-se e foram para o Centro de Saúde. No intervalo seguinte uma brincadeira a imitar as touradas correu mal, quando um dos miúdos tentava dar uma “marrada”, falhou o alvo e embate no vidro de uma porta com a cabeça. O sangue era mais que muito e tiveram de chamar o INEM.  Novo intervalo e a bola que um aluno transportava foi-lhe retirada e pontapeada. Novo vidro partido. Por esta leva vamos ficar sem vidros na escola e sem alunos inteiros.

 Os miúdos de uma das turmas levaram uma caixa de sapatos quase cheia de rebuçados para uma atividade de Educação Moral e Religiosa Católica e, como era óbvio, sobraram imensos. Para onde tinham de vir? Para a minha aula. O regulamento interno diz que é proibido comer nas salas de aula. Eu bem que queria que assim fosse. Tarefa inglória, assim que voltava as costas lá se distribuíam rebuçados e só se ouvia o desembrulhar dos chamativos e apetitosos doces. Venceram-me e eu acabei por pedir, ou melhor exigir que não aparecessem papéis no chão. Até eu acabei por ter de aceitar alguns. Claro que não os comi, tenho que dar o exemplo, mas bem que me apetecia um. Resisti orgulhosamente marcando a minha posição, não comeria na sala de aula.

Para finalizar bem o dia de trabalho fiquei a saber que o meu antigo aluno, que tinha sido colhido pelo touro, já não corre perigo de vida.  (…)

Fortunata Fialho

Crescer. Em “Abraços de Palavras”

Crescer.

Tantos meses envolta numa mistura de sons e carinhos!

De repente o mundo parece ruir e a dor acontece.

Na inglória luta para ficar e um corpo que a quer expulsar,

O seu mundo muda, adquire luz e sensações muito variadas.

Frio, calor, sol, escuridão… e de repente o choro acontece.

Medo? Talvez! Ansiedade e insegurança? De certeza!

O carinho e amor tudo ajudam a superar.

De colo em colo, entre beijinhos e abraços, os dias passam.

Os sons acontecem e com eles as primeiras palavras.

Os brinquedos teimam em fugir e o gatinhar acontece.

Explorar é uma urgência e começa a caminhar.

O corpo cresce e com ele a personalidade evidencia-se.

Vem a escola e os amiguinhos novos… tantos anos de escola!

O corpo muda e as amizades também.

Os sonhos mudam e os príncipes encantados perdem o encanto.

Nenhum irá aparecer num cavalo branco…

Algures o encanto renasce e o encantamento acontece de novo.

A menina… adolescente… tornou-se mulher.

O tempo passou tão rápido como se a pressa o empurrasse.

Tempo inimigo de qualquer mãe… de qualquer pai…

Tempo ingrato que não tem contemplações e…

Teimosamente teima em não parar.

Um dia, quem sabe, o seu ventre será um mundo.

Um mundo de carinho e sons protetor de nova vida.

E o ciclo recomeça e o tempo não se detém…

Um tempo que se renova e agiganta alimentando-se

De um amor imenso existente no ventre de cada mãe.

E o tempo passa e os filhos crescem…

Fortunata Fialho

Á beira do mar.

Á beira do mar.

Passeando á beira do mar, no fim da terra seca,

O rebentar das ondas provoca uma explosão de sonhos.

Pontapeio a realidade e dos meus pés soltam-se pássaros encantados.

Em voo silencioso levam mensagens de um tempo mágico.

Das suas penas soltam-se suspiros e risos de felicidade.

Os seus trinados são poemas de amor e paz.

Pela imensidão da areia molhada, nascem jardins encantados.

Cidades encantadas plenas de seres coloridos

Nadando por entre corais e florestas de algas.

Das profundezas ecoam belas melodias.

Uma orquestra de baleias ensaiam doces melodias.

Pontapeando as ondas solto diamantes

Brilham como mil estrelas, enfeitando o negro da noite.

Fecho os olhos e sonho com sereias,

Habitantes da Atlântica que ressurgiram no tempo.

Sentada na areia, viajo por terras longínquas,

Vivo romances inesquecíveis, danço nos mais belos salões,

Componho as mais impressionantes sinfonias,

 Distribuo felicidade e paz por todo o mundo.

O sol acaricia o meu corpo e os olhos abrem-se.

O dia nasceu e eu estou acordada.

O sonho, ai o sonho esse nem o brilho do sol apaga.

Fortunata Fialho

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Feliz dia da criança meus filhos e neta.

Filho.

Quando os corpos se entregam o milagre acontece.

Quando o amor é imenso e não cabe em dois corações,

É necessário produzir mais alguns.

Entre beijos e abraços, outro amor em formação

No calor de dois corpos que se enlaçam… unos…

Quando os corpos se multiplicam o amor aumenta.

Um ser pequenino e frágil cresce dentro de nós.

Invisível, só os podemos sentir e acariciar.

O melhor pedaço de nós, um fruto do nosso amor.

Uma relação para toda a vida acontece.

Um primeiro olhar, um primeiro cheiro…um primeiro sorriso,

Uma primeira carícia… um primeiro som…

Um filho é o maior tesouro, o mais rico… o mais belo.

Um pequeno diamante em bruto que se desenvolve e se molda,

Uma joia rara que lapidamos diariamente.

Envolto em lágrimas, suor e muito amor cresce.

Nunca um amor foi tão puro e tão verdadeiro

Nunca um coração foi tão nosso, nunca um amor foi tão imenso.

Um filho é… o maior milagre do mundo.

Fortunata Fialho

Deambulando

Deambulando

Deambulando percorro as pedras das calçadas.

Perdida em pensamentos não me apercebo das pessoas que passam,

Vultos que parecem fantasmas de um tempo que não é meu,

Lembranças de hoje num tempo distante perdido nos tempos.

Deambulo sem direção como se os caminhos não interessassem

Revivo tempos de felicidade onde morava toda a ilusão.

Dias tão recentes que parecem tão distantes.

Procuro os pedaços quebrados da minha felicidade

Tento colá-los com as minhas sangrentas lágrimas.

Pelo rosto desliza uma torrente de dor

Vinda de uma fonte que nasce bem fundo no coração.

Deambulo fora do meu corpo perdida da razão.

Grito ao vento o teu nome e o vento não responde.

Peço que me leves contigo nessa viagem sem regresso.

Nada mais me prende nesta vida sem sentido.

Partiste nessa viagem de onde ninguém regressa e não me levaste.

Deambulo na tentativa de me perder e não consigo.

De alma ferida e coração quebrado, fujo do mundo

Mergulhando entre a multidão sou invisível, não me encontro.

Cada dia que nasce é um passo rumo ao precipício

De onde não consigo encontrar coragem para saltar.

Nesta soma dos dias procuro a noite para contigo sonhar,

Procuro o sol para iluminar o desespero em que me encontro.

Talvez, num deles, encontre a morte e te volte a encontrar.

Fortunata Fialho

Quero um poema…

Quero um poema…

Quero um poema que não chore, um poema que ria.

Quero um poema que cure, um poema feliz.

Um poema doçura, um poema inocência.

Quero acordar e rir como nunca ri,

Olhar um mundo sem sombra de dor.

Quero o poema inocente dos olhos de uma criança,

Luminoso como o sol que incendeia o ar,

Pálido e romântico como o luar.

Quero o mais belo poema jamais inventado,

Quero um poema orgasmo de amor,

Brincadeira de criança que sabe voar.

Quero… viver esse poema… sonhar com ele…

Nas suas mãos ser os versos, as estrofes…

E em êxtase… calmamente… rimar.

Quero um poema amor, um poema flor.

Viver nos olhos de um leitor, no sonho de um escritor.

Quero ser palavra… quero ser verso…

Quero ser o livro de poemas idolatrado,

Durante séculos nos lábios dos enamorados.

Quero um poema eterno de paz e felicidade imensa.

Quero um poema doce… terno… quente.

Ao mesmo tempo puro… inocente.

Um poema futuro, um poema esperança.

Um poema que iguale todas as gentes.

Um poema sem cor, um poema amor.

Fortunata Fialho