Dança. “Quero um poema…”

Dança

Como eu gostava de saber dançar!

Rodopiar e deslizar na pista ao doce embalar da música.

Viajar nos braços do meu par, deslizando graciosamente.

Não sei dançar, meu corpo não reage como a minha alma.

No entanto danço… danço ao sabor das palavras,

Rodopio ao ritmo das letras… descrevo palavras…

E em piruetas crio versos… poemas… sonhos…

A escrita é a minha música e as páginas em branco a minha pista.

No regaço das palavras sou leve, graciosa e… danço.

Deslizo suavemente ao sabor de uma rima,

Vibro com o som de uma quadra,

Sou bailarina de um poema.

Movimento-me nas linhas de um texto,

Como bailarina em pontas interpreto o bailado.

No avançar da história sou Prima-dona… primeira bailarina.

A minha música são as palavras e os textos, o meu bailado.

Escrevo… interpreto… sonho… danço.

Ao ritmo da escrita sou uma deusa…

Musa inspiradora de um maravilhoso bailado.

E interpreto a minha personagem dançando.

E o público bate palmas, elevando-se em simultâneo.

Como eu gostaria de saber dançar…

Mas, mesmo assim danço…

Escrevo e… graciosamente… á minha maneira danço.

E como danço…

Fortunata Fialho

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Uma carta…

Na quietude da penumbra do quarto uma criança escreve,

Uma carta ingénua mas de grande sabedoria.

Na ponta periclitante de um lápis, um pedido:

– Pai Natal traz-me neve.

Preciso que gelem os fogos, que pare a agonia,

Que se quebrem as armas num só instante,

Que todos se recolham às lareiras,

Para que todos os avós possam contar histórias,

E que todas as crianças possam brincar nas eiras.

O bico quebra… prontamente o afia.

No papel muito apagado novo pedido desesperado.

Querido Menino Jesus devolve os meus pais,

Apaga do mundo todos os ais,

Deixa crescer as flores, voar as borboletas…

Envia-nos amor… distribui-o por todo o lado.

Descansa… rasura e apaga… continua.

Caro Diabo porque não vais de férias?

Talvez o sol te queime a maldade,

 Deixa que a água a lave. Descansa sob a lua.

Todos vêm bem-dispostos depois das férias.

 Até tu podes ter esquecido a maldade,

Colocar um sorriso e observa a lua,

Pura, branquinha, sorridente… com ela aprende.

Com medo que todos os pedidos falhem:

Senhor Presidente destrói todas as armas,

Abre todas as fronteiras, não sejas indiferente.

Rega todos os campos, dá pão a toda a gente.

De mão cansada e dormente o menino termina contente.

Com tanto pedido e a tanta gente talvez…

Talvez alguém não seja indiferente,

Talvez o mundo se torne diferente.

E nunca mais um choro aflito se ouça entre as gentes.

Fortunata Fialho

Postais antigos.

Melancolia

Melancolia.

Olho pela janela e, de repente, uma rajada de vento agita as árvores.

Algumas gotas de chuva caem, tímidas e quentes, levantando poeira.

Ao longe as árvores cobrem-se de mil tons amarelados,

O verde viçoso e brilhante esconde-se envergonhado.

As folhas entristecem e, numa tentativa vã de desespero, escurecem.

Onde outrora o verde era rei agora o amarelo outonal lidera.

O verde não se deixou derrotar e renasce em cada tronco de árvore,

Em cada pedrinha sombria e até no solo húmido.

Um viçoso musgo cobre de tons esverdeados os mais recônditos lugares.

A chuva cai cada vez com mais intensidade mas isso não importa.

O seu molhar ainda é ligeiramente quente e retemperador.

Afinal quem não gosta de caminhar à chuva,

Sentar-se num tronco de árvore e admirar as paisagens?

Sentir na pele o doce contacto da água, fresco e reconfortante?

Sentir o suave toque do musgo que se agiganta, cobrindo tudo em seu redor.

O vento acorda e fustiga o arvoredo soltando as pobres folhas cansadas.

Agora a chuva não é só água, é também chuva de folhas.

Ao longe avistam-se alguns troncos nus que se tentam cobrir de musgo.

Pudicamente, tentam esconder a sua nudez. Tarefa inglória…

É outono e os amarelos pintam as paisagens.

Numa infinidade de lindos tons cobrem tudo o que a vista pode alcançar.

O verde era mais belo? Não sei, o amarelo é deliciosamente tranquilo… encantador.

É outono, os troncos cobrem-se de musgo e o chão de folhas mortas.

Chove cada vez mais e o meu coração é inundado de melancolia…

Doce e terna melancolia que, mesmo assim, me faz feliz.

Fortunata Fialho

Grutas de Mira d’Aires – Serra de Aires – Portugal. Um passeio a dois 💕.

O menino e a borboleta.

O menino e a Borboleta.

Verdes campos, ondulando ao vento, salpicados de mil flores.

Uma criança brinca voando ao sabor do vento.

Encantado colhe uma flor. Que bem que ela cheira!

Perdido no aroma, embala um sonho.

Príncipe dos campos, empunha um ramo,

Espada dos sonhos feita de madeira… como brilha!

Uma borboleta, liberta do casulo, pousa no ramo.

Abre as asas… que colorido tamanho.

Realidade ou sonho? Pensa o menino.

Fada de mil cores dona dos campos em flor.

A borboleta voa… o menino ri…

Fada da felicidade é a sua borboleta.

Flores são o seu alimento, com néctar pleno de odores.

Verdes campos, milhares de borboletas…

Meninos bramindo sonhos, docemente encantados,

Correm, enfeitiçados… perseguindo borboletas,

Desenhos coloridos aos olhos inocentes,

Sonhos nascidos no caule de uma flor voam pelos campos.

Cansada, a mais bela das borboletas pousa…

O menino senta-se… de olhos brilhantes, observa.

Não ousa tocar-lhe, não a quer acordar…

Quieto, sonolento, adormece…

A borboleta é ele e voa sem parar.

Dança ao vento ao som do assobio da erva verde,

Que ondula e canta baixinho, num murmúrio doce.

Tantos meninos borboleta, tantas danças efémeras…

Tantos sonhos findados ao abrir dos olhos…

E o menino acorda, a borboleta fugiu…

O menino corre ao sabor do vento.

A borboleta refugia-se no meio de mil flores…

Todos no regaço dos verdes campos em flor.

Fortunata Fialho

Postal vintage.

No tempo em que…

            No tempo em que os animais falavam o planeta era um lugar onde a harmonia imperava.

            No tempo em que as plantas falavam o campo era um lugar bem mais seguro.

No tempo em que tudo e todos falavam a solidão não existia.

            Pelos campos ecoavam melodias de esperança e felicidade. As crianças adormeciam embaladas por belas melodias e sonhavam com um mundo de magia. Os pais viviam despreocupados pois as amas tinham as mais diversas formas, árvores que lhes forneciam sombra, animais que os acompanhavam, flores que os entretinham… As ervas dos campos acolhiam-nos no seu regaço e embalavam-nos ao sabor do vento. O vento segredava-lhes ao ouvido histórias de mundos encantados, fadas e elfos, ogres e bruxas, de lutas entre o bem e o mal nas quais era o bem que sempre saía vitorioso.

            No tempo em que tudo e todos falavam não existiam machados, armas… maldade. O sol aquecia, o vento acariciava, os rios refrescavam e, puros como nunca, matavam a sede até do mais sequioso. As árvores forneciam sombras frondosas, frutas deliciosas maduras e suculentas. As plantas, deliciosas, ofereciam-se para matar a fome e os homens agradeciam ajudando a que se multiplicassem. O lixo, ninguém sabia o que era, tudo se aproveitava e renovava num ciclo interminável de fartura e beleza. A poluição era uma palavra de tempos ainda não vindos. O ar um bem precioso onde odores se misturavam criando o mais inebriante perfume nascido da natureza.

            No tempo em que tudo e todos falavam pobreza e riqueza eram palavras ainda não inventadas. Nas mesas não faltava alimento e ao seu redor, os mais velhos contavam histórias reais, propagadoras de conhecimento. Todo o idoso era um professor e toda a criança um aprendiz atento. A sabedoria crescia sem parar nas vozes de quem contava aumentando nos ouvidos atentos de quem escutava. Doença… essa ninguém tinha, saúde era uma dádiva divina.

            No tempo em que tudo e todos falavam os deuses não existiam, só a natureza era sagrada. A dor era desconhecida, a morte um adormecer da forma atual para um acordar em tudo o que nos rodeava. Os entes queridos continuavam vivos nas lembranças, nos animais, nas plantas… nunca desapareciam… nunca nos abandonavam. Seres protetores e sábios habitavam a luz e as sombras. O mal tinha o seu reino, isolado, estanque de onde não lhe era permitido sair. Eram maus entre eles e assim também eram felizes.

            O tempo em que tudo e todos falavam perdeu-se. Perdeu-se no gume de um machado, a ponta de uma flexa, na lâmina de uma faca, nas bocas dos intriguistas… O mal derrubou as suas fronteiras e, sub-repticiamente, foi-se infiltrando em todos os lugares. Na infinita sucessão dos dias o bem continua a sua luta e eu acredito, algum dia irá vencer. Ainda um dia vou poder dialogar com as árvores, com o vento, com um riu, com os animais, e em conjunto reaprender. Ainda um dia as crianças brincarão com fadas e duendes, todas serão príncipes e princesas num reino de felicidade e alegria.

            Ainda um dia voltará o tempo em que tudo e todos falavam…

Fortunata Fialho

Uma guerra interessante.

Uma guerra interessante.

Num reino branco distante

Um lápis e uma borracha guerreavam.

O lápis rabiscava, a borracha apagava.

O lápis corria, rodopiando em eterna fuga.

A borracha perseguia e apagava.

Na sua fuga o lápis a folha riscava,

Em perseguição a borracha apagava.

A corrida tornou-se vertiginosa,

O lápis parecia o vento forte,

A borracha tropeçava.

O lápis saltava, voava e aterrava.

Subitamente perdeu o bico.

A borracha foi definhando.

Um afia apareceu e ao lápis o bico devolveu.

Á borracha, pobre borracha, ninguém lhe valeu.

Com o tempo o lápis também se gastou,

A borracha quase faleceu.

Cansados e moribundos pararam,

Sem folgo para trás olharam.

Como podia tal ter acontecido?

Sob o seu olhar o mais belo poema…

Poema de amor e paz,

Poema de ajuda e partilha,

Poema maravilha… belo, de encantar.

Olhando um para o outro ambos sorriram,

Finalmente, lápis e borracha, puderam descansar.

Fortunata Fialho

Descoberta na net, mas que tem tudo a ver…

Reflexo.

Reflexo.

Na beira de um rio uma criança olha o seu reflexo.

De olhar iluminado pela surpresa, agita a água.

A água brinca com a sua imagem,

Desliza e foge levando o seu reflexo,

Lentamente devolve o reflexo do seu rosto.

Um raio solar ajuda na brincadeira,

Projeta-se na água calma e ilumina aquele rostinho.

A criança ri de contentamento e surpresa.

Como pode estar um espelho no meio do riacho?

Deve ser magia! Só pode ser magia.

Eleva o olhar e repara no reflexo do sol numa gota de orvalho.

Sob os seus olhos brilha o mais belo diamante,

Um diamante líquido e efémero que brilha como o seu olhar.

Salta e grita de felicidade, ri numa saudável loucura,

O mundo é seu e o sol brilha só para ele.

No reflexo dos seus olhos vive toda a felicidade.

No reflexo dos seus olhos mora o mundo.

O sol reflete-se no riacho projetando raios,

Lindos raios coloridos que enfeitam as folhas,

As flores, os animais… os brinquedos.

Sim os brinquedos tinham tons de arco-íris.

Nunca tinham sido tão bonitos.

Cansado, olha os reflexos no riacho…

De sorriso no rosto adormece e sonha…

Sonha que viaja num raio de sol

Feito barco no riacho que corre.

Fortunata Fialho

😊Mais em “Quero um poema…”😃

Lágrimas

No seu rosto correm lágrimas

Como gotas de orvalho, deslizam imponentes.

Sobras de um mar que oculta a visão,

Nascidas da mágoa e da dor.

Neste rosto de criança correm ligeiras.

Caiu? Que perdeu? Não…

Apenas o seu mundo ruiu.

Criança órfã crescendo no medo.

Criança vitima, criança tristeza…

Criança sem sorriso, criança tristeza.

Vive sob um rio de lágrimas de leito cinzento.

Num oceano de dor e que não conhece o sol,

Nunca cheirou uma flor, nunca escutou um trinado.

Criança sem teto crescida no horror.

Criança poema negro… criança pesadelo.

No seu mundo não há sonhos de encantar.

Criança sem saber sonhar.

Criança lágrima, criança dor… criança guerra…

Criança que… deveria ser só amor.

Fortunata Fialho

Coisas de crianças em “Simplesmente… Histórias”

Durante a minha infância, na minha aldeia, morei numa casa em que três portas se alinhavam.

Porta do quintal, que dava para a cozinha, porta da cozinha para a sala de jantar e a porta da rua.

A iluminação era feita através de candeeiros a petróleo os quais tornavam o ambiente um pouco irreal e propicio a divagações na minha cabecinha de criança.

Durante o serão reuníamo-nos na cozinha e não havia o hábito de se fecharem as portas, hábito que ainda mantenho atualmente.

Os meus brinquedos estavam arrumados na parte inferior da mesa da cozinha, nada se podia estragar. Ali estavam seguros e longe das mãos que as podiam estragar. Sim porque eu estimava muito todos os meus brinquedos.

Como todas as crianças adorava brincar imitando os adultos.

O serão passava e as brincadeiras continuavam.

Passeava por toda a cozinha mas, tinha um grande problema, quando cruzava a porta da sala de jantar um vulto negro passava ao mesmo tempo.

Nos meus poucos aninhos eu não percebia e, para evitar a sua presença, corria para que ela não me alcançasse.

Sorte malvada, ela acompanhava-me sempre.

A correria continuava sempre que passava pela dita porta.

Só algum tempo mais tarde percebi que, este meu inimigo não era mais que a minha sombra.

O candeeiro projetava-me de uma forma tão especial que tornava assustadora e irreal a minha própria sombra. Coisas de crianças!

Fortunata Fialho

Imagem retirada da internet