Em “Simplesmente… Histórias”

Era o medo o que nos vinha acariciar naquele banco de jardim

As tuas palavras, cortantes como punhais, dilaceravam mortalmente:

‘’Recebi ordens, tenho de partir, embarco já amanhã.’’

As lágrimas queimavam-nos o rosto… as vozes silenciaram-se.

Olhámo-nos intensa e demoradamente… quem sabe se pela última vez.

Tantos voltavam envoltos em mortalhas, frios e inertes… corpos sem vida.

Que medo devastador… abraçámo-nos e, em silêncio caminhámos.

Era a nossa última noite, uma noite que teria de ser eterna, perfeita… inesquecível.

Nessa noite o mundo parou, as roupas caíram e os corpos fundiram-se.

Nunca os nossos sentidos foram tão intensos… nunca fomos tão plenos.

Cada segundo valia uma vida, cada carícia penetrava mais fundo.

Céus, como os nossos corpos encaixavam envoltos na mais sublime das paixões.

A tua pele era a minha pele, o teu suor o meu suor, a tua carne a minha carne.

A manhã chegou e encontrou-nos envoltos, um no outro, como um corpo só.

Olhámo-nos e chorando, sorrimos, tinhas que partir …

As forças faltavam-nos e o abraço continuava. O medo voltara numa carícia incandescente.

Queria ficar contigo marcado em mim até ao teu regresso… e… fiquei.

Ainda sinto o teu toque, o teu cheiro, os teus sussurros e… espero o teu regresso.

Hoje voltaste, a felicidade envolve-nos e o medo que nos acariciava morreu.

Fortunata Fialho

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Eu e a escrita.

Maria Fortunata Moreira Crispim Fialho

Natural de Aldeias de Montoito – Évora

Atualmente a viver em Évora

Professora em exercício

Licenciada em Matemática via Ensino pela Universidade de Évora

Uma alentejana  que decidiu entrar no mundo da escrita, visto ter vivido sempre rodeada de livros e viciada na leitura.

Escritora com o nome de Fortunata Fialho.

Obra publicada:

_ “Sentidos ao Vento ( Momentos)” pela Editora Bubok e Amazon.com

_ “Simplesmente… Histórias” pela Chiado Editora

– “Quero um poema…” pela Editora Poesia Fã Clube.

Participações:

  • Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea Entre o Sono e o Sonho volumes VII e X – Chiado Editora.
  • Perdidamente Vol. II e III – Antologia Poetas Lusófonos Contemporâneos; Pastelaria Studios Editora.
  • Poesia a Cores; Pastelaria Studios Editora.
  • Dança de Palavras; Pastelaria Studios Editora.
  • Poesia com reticências; Pastelaria Studios Editora.
  • Cascata de Palavras; Pastelaria Studios Editora.
  • Poesia Escondida; Pastelaria Studios Editora.
  • Um Arco-íris Poético; Pastelaria Studios Editora.
  • Poemário 2018 e 2019 Pastelaria Studios Editora.
  • Notebook: Flores, verde e borboletas; Pastelaria Studios Editora.
  • Conexões Atlânticas, Brasil-Portugal – Antologia Volumes II e III; Editora In-Finita.
  • Luz de Natal – Edições Sui Generis.
  • Palavras (s)em Mágoa – Orquídea Edições.
  • Ei-los que partem volume II- Papel D’Arroz Editora.
  • Apenas saudade vol.II – Papel D’Arroz Editora.
  • Luz de Natal ­­- Edições Sui Generis
  • Natal em Palavras – Chiado Editora
  • Entre Palavras – Edições O’Declamador
  • Antologia de Natal; Natal 2018; Artelogy
  • Liberdade – Chiado Editora.

Dia do nascimento da minha neta.

Espero

Neste local em que fomos felizes eu espero.

Espero que o tempo volte atrás e que venhas.

Que tragas nos lábios um sorriso sincero,

Nos olhos o brilho das estrelas,

No coração um amor puro e verdadeiro.

Quero esquecer que me deixaste por outro alguém,

As palavras que me feriram como punhais,

A tua frieza perante o meu desespero.

Disse que iria esquecer-te e outro amor encontrar.

Mentira, todos os dias fico neste banco

Deixando as horas passar aguardando.

Tentando ver-te surgir com pressa no andar,

De braços abertos para me envolverem

Num abraço promessa de amor.

O tempo passa o sol esconde-se e tu não bens.

Os dias sucedem-se e as noites são longas,

O coração sangra mas a maldita esperança não morre.

Hoje não vou voltar, hoje vou de volta,

Talvez assim o esquecimento aconteça.

Hoje não vou… talvez assim te esqueça.   

Fortunata Fialho

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Uma das “Simplesmente… Histórias”

Dos dois avôs que tive só me lembro bem de um deles. Infelizmente perdi o outro quando ainda tinha seis anos.

Este meu avô tinha uma história muito particular.

Para começar as iniciais do seu nome eram, precisamente, três M(s).

Por agora vou chamar-lhe só o primeiro: Manuel.

Quando, muito jovem, o irmão foi chamado para a tropa e surgiu um

grande problema: este irmão já não existia. A sua morte não ficou devidamente registada na Conservatória, segundo a família, por incompetência do funcionário da época.

Decorria nesse mesmo tempo a “Guerra de Catorze” e, para evitar a prisão, o pai tinha que tomar o seu lugar. O meu bisavô já era demasiado velho e, a conselho de um advogado, só havia uma hipótese, “matava-se” o meu avô “revivendo” assim o irmão.

Assim, o meu avô, repentinamente ganhou dois anos a mais e teve que partir para a guerra.

Não sei por onde lutou. Sei no entanto que foi um dos sobreviventes. Sei também que sofreu com a guerra química e ficou um pouco afetado.

Não sei que volta deu a sua vida. Só sei que de primogénito de uma das famílias mais ricas da região acabou na miséria no Alentejo.

Segundo a família foi o álcool e os falsos amigos que contribuíram para isso. Como nós dizíamos estava preservado em aguardente (a sua bebida de eleição).

Só me lembro dele já bem velhinho e a fumar tabaco (de onça) Duque, enrolado em mortalhas de papel.

Nunca mais me esqueço do olhar de contentamento e orgulho quando lhe apresentei o meu namorado, era a primeira neta a dar-lhe semelhante honra.

Dependente dos filhos passava o tempo ora em casa de uns, ora em casa dos outros.

No tempo que passava connosco lembro-me dos meus pais esconderem as bebidas bem fechadas à chave.

Um dia descobriu uma garrafa de aguardente no frigorífico e foi bebendo, às escondidas, e substituindo por água o espaço vazio. Desapareceu de casa e foi o desespero total. Todos o procurámos pela cidade inteira e do avô nem sinal. Já se pensava o pior quando recebemos um telefonema da minha tia a dizer que estava em sua casa.

Só para fazerem uma ideia saiu de Évora seguindo a linha de caminho-de-ferro até Montoito e daí para as Aldeias de Montoito. Para que não restem dúvidas era nessa localidade que se sentia em casa pois aí passou a maior parte da sua vida.

 Quando não tinha acesso a bebida não se metia nestas aventuras. Não havia aventuras mas falava dia e noite num tom de voz muito alto. Contava coisas que lhe aconteceram na guerra, factos históricos reais e peripécias de guerra.

Quando o tema não era guerra falava de geografia, história, sabia as linhas de caminho-de-ferro de cor e salteadas, os nomes dos rios de muitos países e tantas outras coisas.

De notar que era uma pessoa culta, possuía a quarta classe, o que na época era um privilégio muito especial só alcançável a muito poucos.

Com oitenta e muitos anos lia, sem óculos, todo o tipo de letra, por mais pequena que fosse. Tal como eu adorava ler. O seu cabelo ainda tinha mais fios negros que prateados, a sua agilidade ainda deixava alguns, muito mais novos, cheios de inveja.

Lembro-me que passava meses a guardar no bolso frutos secos e guloseimas para dar à neta (a minha irmã) que ainda era uma criancinha. Alguns chegavam estragados mas contava a intenção.

Nunca me lembro de o ver acamado nem com problemas de saúde graves, até o seu fígado tinha sobrevivido ao álcool que teve de processar durante toda a vida.

Lembro-me de ouvir dizer que sempre que começavam uma briga perto dele, mesmo bêbado, se afastava dizendo: “-Quem as fez que as desmanche”.

Segundo a família era capaz de despir a própria camisa para a dar a quem necessitasse. Com a esposa e os filhos existiram alguns problemas que, por agora e até não poder ferir sentimentos de pessoas que amo muito, vão continuar em segredo na família.

Com todos os seus defeitos e qualidades era o meu querido avô Manuel.

Um dia adoeceu e, passadas cerca de duas semanas, faleceu tranquilamente em casa de uma das filhas.

Hoje, passados tantos anos, ainda tenho saudades das nossas conversas e das suas peripécias. Era bom que vivesse para sempre mas, isso não pode acontecer.

Assim vamos perdendo os nossos entes queridos e relembrando para sempre, de preferência, as suas qualidades.

Ainda lembro a sua voz, o seu cheiro e os seus grandes monólogos.

Engraçado já não choro a sua perda mas lembro a sua presença como se ainda estivesse vivo. Meu avô Manuel …

Fortunata Fialho

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Mundo arco-íris em “Quero um poema…”

Neste mundo cinzento e sombrio onde impera o medo,

A tristeza parece uma inevitabilidade.

Este mundo arde, explode, polui, destrói…

Distribui lágrimas e sofrimento como se fossem doces.

Um grupo de crianças brinca em torno de uma flor,

Nascida entre os escombros, brilha num vermelho rubro,

Rubro de luz, não de sangue, rubro de vida.

Uma mãozinha toca-lhe ao de leve e, como por magia, outras se lhe juntam.

Subitamente cobrem todos os campos…

 Um verde intenso, pincelado das mais belas cores cobre o chão.

O mundo transpira cor e alegria e, sem dor, pare amor.

Uma gargalhada infantil e um grito inocente,

“Vejam, parece o arco-íris!” 

Por todo o lado nascem sorrisos, abraços e beijos.

O fogo só aquece, os rios são cristalinos e o ar nunca foi tão puro.

E o mundo cinzento e triste, agora é um mundo arco-íris.

Fortunata Fialho

Banho de sol

Banho de sol.

Hoje a preguiça tomou conta de mim.

Não me apetece trabalhar e vou apanhar sol.

Resolvi dar um passeio no jardim.

O aroma das flores é inebriante,

 Os pássaros trinam como nunca.

Paro e deixo-me envolver por todo aquele encanto.

Um banco do jardim convida-me e eu aceito.

Sento-me, fecho os olhos e isolo-me.

Tudo aquilo que ouço e sinto é só meu,

As aves cantam para mim e as flores perfumam o meu ar.

O sol acaricia o meu corpo e brilha só para mim.

Recosto-me no banco, adormeço e sonho.

Sonho que estou completamente só,

Que nada me pode perturbar e sorriu…

Não me apetece acordar e… fico.

Uma mão agita o meu corpo e uma voz soa.

Irreal e assustada diz: Sente-se  bem?

Sim sinto, obrigada… só não queria acordar…

Fortunata Fialho

Banco de jardim.

Banco de jardim

Neste banco de jardim o tempo não passa,

O corpo não se move e os olhares desviam-se.

As mágoas do mundo tomam forma,

As dores enrugam o rosto e esgotam as forças.

O desânimo encontrou guarida e…

A alma consome-se numa dor sem par.

Que desgostos repousam sem consolo?

Que sonhos se desfizeram?

Mil lutas foram travadas, algumas vitórias?

Talvez. Mas a derrota foi demolidora.

A vontade de viver foi-lhe roubada e a morte teima em tardar.

Pobre alma que de tábuas fez seu colchão,

De orvalho a sua manta, os raios de sol seu consolo.

Os meus olhos não se desviam e pelo rosto corre uma lágrima.

Como pode o mundo permitir tanta tristeza?

No quiosque alguém compra um pão,

Num gesto nobre lho oferece.

Timidamente aceita e, sofregamente devora-o.

No rosto um sorriso de felicidade agradece.

A fome tornou-se mais leve e o corpo ergue-se,

Encontrou força para continuar… talvez mendigando…

Talvez em eterna procura de uma razão para viver…

E o banco? Espera imóvel… talvez pela sua volta.

Fortunata Fialho

Triste alma em “Simplesmente… Histórias”

Triste alma te tornas-te! De que fados foi feito, ou desfeito, o teu passado?

Ergue-te e reage. Reencontra a tua dignidade. Luta e recupera a tua vida.

Aqui deitado, pobre desgraçado, tonaste-te invisível e, por todos, rejeitado.

Venceu-te o desânimo, abandonou-te o orgulho, perdes-te a dignidade… foi-se-te a vida.

A tua alma chora de tanta dor, tanta humilhação, tanto desprezo… tanta solidão!

Acredita, por baixo dessa capa de miséria e sujidade, ainda existe um ser humano.

Acredita, por mais dura e inclemente que seja a vida existe, sempre, alternativa. 

Dizes que todos te abandonaram, que a vida te é madrasta, que não tens saída.

Consigo sentir a tua dor e o teu desespero, a tua solidão… o teu desânimo.

Acreditas que nada mais faz sentido, desejas a morte… vives envolto em sombras.

O sol deixou de brilhar. Já não sabes sorrir nem tão pouco chorar. És… nada.

Já não és humano. És menos que um animal. És lixo na beira da estrada.

Tens fome, há muito que não sabes o que é uma refeição. Lentamente… morres.

 Partilha a minha refeição e veste estas roupas. Nada mais tenho para te dar!

Come, sacia essa fome. Asseia-te e, de cabeça erguida caminha, mostra que tens dignidade.

Oferece o teu trabalho nem que seja só em troca de um naco de pão. Não mendigues.

Mostra que és um homem, mostra o teu valor, recupera a tua dignidade…

Não és lixo. Bate a todas as portas, alguma se abrirá. Nunca baixes os braços.

Tu és gente. Tens capacidade, valor, futuro… Só te falta fé e determinação.

Sorri. Enfrenta o mundo. Deixa que os teus olhos brilhem… conquista o teu espaço.

Fortunata Fialho