Muitos parabéns meu filho.

De bicicleta

De bicicleta pela estrada fora os problemas são varridos pelo vento.

O ar puro invade os sentidos fazendo o tempo correr lentamente.

Pedalando, abraçado pelos raios solares, vence as estradas.

Luta com o vento tentando igualar-lhe a velocidade.

Com a chuva pela frente, o calor não incomoda.

A lama envolve o corpo num tratamento de beleza.

Quer pedalar na sua bicicleta e voar pela estrada fora,

Voar mais veloz que o vento em direção ao desconhecido.

Ver o sol nascer e deleitar-se com o seu esplendor,

Captar toda a beleza que o cerca para recordar eternamente.

As rodas rolam sem parar e os quilómetros sucedem-se,

A alegria instala-se e os problemas ficam para trás.

Numa fuga à realidade pode voltar a ser criança.

Perseguir o nascer do sol e aprisionar o seu colorido,

Voar como uma folha na rajada de outono,

É leve como uma semente que procura onde germinar.

De bicicleta o mundo é mais belo,

De bicicleta o tempo não passa… e pela estrada voa.

Fortunata Fialho

Raio de luz.

Raio de luz

Pelo meio de mil nuvens, negras e sombrias,

Um tímido raio de luz espreita.

Ao longe, a uma criança de olhar triste,

O raio de luz acaricia o rostinho.

Os olhinhos iluminam-se e o raio cresce.

As brincadeiras sucedem-se.

Feliz, o raio viaja e pelos campos rodopia… dança.

No seu rodopiar aquece os solos, fá-los brotar.

Lindas flores cobrem o seu palco, perfumando os seus passos.

As nuvens comovem-se e choram grossas lágrimas

Regam os campos e engrossam os riachos.

Brancos lenços de nuvens algodão secam-lhes as lágrimas.

Lentamente, afastam-se e surgem mais raios de luz.

Das casas, bandos de petizes correm para na rua brincar.

E os raios de luz juntam-se… engrossam… alargam-se.

A timidez acaba-se e as nuvens libertam o caminho,

Agora o sol brilha e nos olhos de cada criança

Reflete-se em diamantes de felicidade.

O raio da luz, agora, é um gigante luminoso

Portador do calor do sol… entregando alegria…

Aquecendo a terra… abraçando os nossos corpos…

Raio amante… ternurento… fonte de vida…

Fortunata Fialho

Agora é assim.

Agora é assim.

            Duas pessoas de telemóvel na mão vão passear os seus cães. Esquecem-se de lhes tirar as trelas para que possam brincar. Ignoram tudo o que os rodeia, nem sequer sabem o que por lá está.

Os animais cumprimentam-se, eles nem se olham. Como eles queriam brincar, correr, cheirar e latir de alegria e felicidade. Não podem, estão presos à indiferença e alheamento dos seus donos. Soam latidos de tristeza, são os seus choros tristes.

Ao longe a vida continua, passos apressados calcorreiam os caminhos, rostos sem expressão, olhares sem brilho, sorrisos de ocasião… O silêncio impera e só é quebrado pelo som dos aparelhos eletrónicos.

Passeiam os animais e não aproveitam o momento, arejam o corpo e continuam de mente fechada. Povo deprimido envolto em invisível neblina. O sol brilha, mas não lhe aproveitam o seu esplendor.

Vive-se de costas voltas na tentativa de não ser incomodado e passar despercebido sem que tenha de entrar em conversas. Talvez já nem saibam como se mantem um diálogo.

O seu mundo fechou-se num teclado e num pequeno retângulo luminoso. Mundo solitário este que lentamente escolheram! Foi sua opção mesmo que inconscientemente, ninguém os empurrou para esta prisão.

Urge saber dosear o tempo distribuindo-o pelo que interessa. Reduzir o tempo dedicado aos teclados e viver a vida tal como ela se apresenta no mundo real. Ser feliz, dar carinho e amor, receber carinho e atenção.

É urgente reaprender a sorrir e conversar, a rir e partilhar, a gargalhar e amar…

Fortunata Fialho

Primeiro dia de aulas.

Querida Mamã.

Mamã desculpa de ter chorado tanto quando me deixas-te. Eu estava com tanto medo e tentei tanto que tu me levasses para casa novamente. Sabes? Tu não irias ficar para me proteger e era tudo tão grande e novo, eram só caras que eu nunca tinha visto e a escola era muito mais grande que a nossa casa.

               Quando tu te foste embora, uma senhora simpática pegou-me pelos ombros e sorriu. O seu sorriso era tão bonito! Ao meu ouvido disse para eu não ter medo que ela ia cuidar bem de mim e deu-me um abraço muito apertado. Sabes mãe, ela foi muito boazinha para mim e é a minha professora.

               Muitos outros meninos e meninas estavam tão assustados como eu e ela consolou-os a todos. Eu também ajudei um pouco com o meu sorriso. Foi isso que a professora me disse.

               Sabes a minha mochila é igual á de outro menino, vamos ter de ter muito cuidado para não as trocarmos. Fizemos desenhos numas folhas grandes que a professora deu. O meu estava muito bonito e a professora viu logo que eras tu e o papá que me estavam a segurar a mão. Ela perguntou porque é que a tua barriga estava tão grande e eu respondi que a minha maninha ainda morava na tua barriga e precisava de todo esse espaço. Estava a crescer para poder sair e vir brincar comigo.

               Quando fui ao recreio não me senti sozinho pois tinha muitos amigos novos para brincar. Brincámos até ficarmos mesmo muito cansados.

               A professora diz que vou aprender a ler e escrever. Eu queria começar já mas tenho que ter paciência porque vai levar algum tempo. Sabes, eu quero escrever que gosto muito de vocês e que tenho os melhores papás do mundo.

               Beijinhos.

Fortunata Fialho

Tempos modernos.

Tempos modernos.

Lamentável a falta de contacto pessoal!

Ignoramos as pessoas com que nos cruzamos,

As paisagens que nos são oferecidas são ignoradas.

Quantos sorrisos ficam por mostrar.

Que mundo este em que os animais convivem mais que nós.

Eles sim parecem ser os humanos,

Em comunicação permanente recusam ignorar-se.

O outro importa e necessita de atenção.

Aos donos isso não importa.

Tristes tempos em que nos tornámos reféns dos écrans.

Observar o que nos rodeia… só através de uma imagem.

Sentir o aroma de uma flor… será que ainda o possuem?

Falar com os outros… sim, através de mensagens.

Soltem as trelas, deixem os animais brincar.

Ouçam os latidos, os miados… talvez recordem o som das palavras.

Brinquem com eles e lembrar-se-ão de que brincar é maravilhoso.

Corram, riam, gargalhem como se o amanhã não existisse.

Vivam a vida, falem com os outros, olhem-nos nos olhos,

Sorriam transmitindo felicidade e simpatia.

Ofereçam flores e cheirem-nas com delicadeza.

Sintam o vento no rosto e rodopiem num riso contagiante.

Olhem-se nos olhos e digam que os amam,

Que o mundo é muito melhor com amor.

A vida é bem melhor feita de abraços e caricias,

De choro, de consolo, de tristeza e alegria…

De dança a pares, em grupo ou simplesmente a sós.

Copiem a inocência de uma criança que ri sem tabus.

Reparem como as vossas mascotes se divertem

Não conhecem raças ou cores, só companheiros de tropelias.

Sejam felizes superando as distâncias.

Copiem-lhes a espontaneidade, aprendam e sejam felizes.

Fortunata Fialho

Tropeço.

Tropeço.

No regaço um monte de livros,

Amigos incondicionais num abraço.

Pelo corredor caminhei,

Assim às escadas cheguei.

Os pés esses não conseguia ver,

Os degraus, delicadamente tateei.

Um dos degraus falhei,

O corpo tombou, os livros voaram…

Pobres amigos, alguns se desfolharam.

Ingratos… não me ajudaram,

Na queda o corpo magoei.

Em cima deles aterrei,

Nas suas folhas soltas escorreguei,

Nas suas lombadas travei.

Não pensem que fiquei zangada,

Prontamente as lágrimas sequei,

 As roupas alinhei e, pacientemente…

Os livros abracei.

Pobres amigos, tortos desfolhados,

Tal como eu lesionados.

Nos braços os coloquei,

De fita-cola me armei e,

Delicadamente os curei.

Nos meus joelhos uns pensos,

Nos cotovelos umas ligaduras,

No corpo um balsamo.

No regaço um livro aberto.

Nesse mesmo momento comecei a ler…

Assim a dor pude esquecer.

Fortunata Fialho

Amor Eterno.

Amor Eterno

Era um sonho que ela tinha: amor eterno como nas histórias.

Ao abrigo da noite o sonho vinha, sonhava com o príncipe encantado.

Guerreiro feroz… amante doce e terno…

Cabelo moreno, olhos negros e lábios doces como o mel.

O tempo passou e ela cresceu. O príncipe encantado mudou…

O cavalo descansou e um carro o destronou.

De guerreiro passou a Bom Vivam, Playboy…

A adolescência não perdoa e as paixões são intensas.

Desgostos de amor, choros e lamentos…

E a menina tornou-se mulher… os príncipes rarearam.

Com o tempo desapareceram… tornaram-se vulgares…

Um dia, sem que o procura-se, algo aconteceu.

Um grande amigo começou a parecer diferente,

A sua companhia era o maior prazer do mundo.

Os sonhos voltaram mas ela não dormia.

Sem que se apercebesse o amor tinha acontecido.

E… entre beijos e abraços promessas foram feitas,

Vidas foram unidas e multiplicadas.

Em surdina uma promessa: Amar para sempre…

Amor eterno a dois partilhado!

Fortunata Fialho

Lágrimas invisíveis.

Lágrimas invisíveis.

Há lágrimas que não se veem… vivem presas nos olhos.

Dolorosamente esperam um momento a sós,

Um momento em que ninguém as veja.

Então deslizam pelo rosto, irromperam em cascata.

Em segredo levam tristezas, tentam lavar a alma…

Ao menor som secam e escondem-se…

Temem a curiosidade alheia, recusam mostrar a sua dor.

Há lágrimas que correm em rios invisíveis

Sofrem, ocultas, escondidas de quem as causa.

A sua fonte é a insensibilidade… o desamor… o egoísmo…

E elas rolam sem parar, tropeçam e continuam.

Lágrimas secas mas abundantes, lágrimas fruto de dor.

Lágrimas teimosas, tímidas… sentidas…

Não querem mostrar o sofrimento que contêm.

Não podem revelar tanto sofrimento… a quem o causou.

Há lágrimas que escolhem a noite para sair,

No escuro dão vazão ao sofrimento, aqui ninguém as detém.

Há lágrimas que ninguém vê… lágrimas que não deixamos ver,

Lágrimas só nossas, tesouros brilhantes indesejados.

Rosto seco… olhos lacrimejantes… espelhos de dor.

Lágrimas secas, dolorosas que arranham como garras,

Que rasgam a alma e quebram o coração…

E estas são as lágrimas que menos se deixam ver.

Fortunata Fialho

🌠Estrela decadente. 🌠

Estrela decadente.

Há muito, muito tempo uma estrela brilhava intensamente.

O seu brilho ofuscada muitas das que a rodeavam.

Sempre que o manto negro cobria o céu ela e as suas amigas brilhavam.

A certa altura, ninguém se lembra quando, a vaidade chegou.

Subitamente a estrela mudou e a partir desse momento

Apregoava aos céus que ninguém brilhava como ela,

Que o seu esplendor não era igualado por nenhuma outra.

Ao seu redor o brilho continuava intenso.

Na procura da supremacia absoluta maltratava todas as outras.

Magoadas, ultrajada e humilhadas uma a uma as outras afastaram-se.

O firmamento ficou cada vez mais pobre,

Sobre ele um manto negro foi-se instalando.

O brilho perdeu-se e a estrela ficou só.

Vaidosa como nunca brilhou num palco só seu,

Mas o público não aplaudia, cada vez menos se olhava o céu.

Uma única estrela a brilhar era insuficiente.

Um céu escuro não atrai atenções… escurece os corações.

Na procura de consolo procurou as suas irmãs.

Tarde de mais… nenhuma se lhe juntou.

Finalmente a solidão venceu e o brilho esmoreceu

No negro uma estrela cadente surgiu…

A estrela brilhante… essa nunca mais ninguém viu.

Fortunata Fialho